Carnaval sem Sapucaia

Era como se o fim estivesse anunciado, de uns tempos para cá. Primeiro vieram os tiros com bala de borracha. Depois, os pagamentos de abadás. E, agora, a falta do AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros).
 
E, assim, Piracicaba parece se despedir do tradicional Carnaval da Sapucaia, no ano em que completaria 22 edições.
Começou pequeno, de um grupo de amigos do Bairro Alto, apaixonados pela árvore centenária e em busca de diversão familiar. Ganhou a simpatia da cidade. A fama correu a região. Mais visitantes vieram. Tornou-se um megaevento. A morte chegou, no entanto.
 
Culpar os órgãos públicos pelo enterro da festa seria cair na vala comum, neste momento, pelo menos. Dizer que não ouve empenho da Asas (Associação dos Amigos da Sapucaia), também.
 
Mas, como todo fim de festa, fica o clima de ressaca. Ou de velório. É como um término de namoro ou casamento. Tenta-se de descobrir quem errou e o que levou ao fim; não há conclusão, nem verdade absoluta. A versão do ex-marido sempre será distinta da ex-esposa.
 
Não é diferente no caso da Sapucaia (ou do seu fim). Ficou, desse término de namoro, o clima amargo: a prefeitura diz que alertou os organizadores sobre a necessidade de se adequarem à legislação. Os representantes da entidade jogam a culpa na prefeitura.
 
Uma coisa é certa: desde janeiro de 2013, quando 242 pessoas morreram e 680 ficaram feridas na Boate Kiss, a legislação federal se aprimorou. Ainda que tardia, surgiu a Lei Kiss (lei número 13.425/2017), assim apelidada em função da tragédia no Rio Grande do Sul.
 
Entre seus artigos, está o que obriga normas especiais para eventos em estabelecimentos, edificações de comércio e serviços e áreas de reunião de público, cobertos ou descobertos, cercados ou não, com ocupação simultânea potencial igual ou superior a 100 pessoas.
 
Outro artigo da lei diz que ato do prefeito municipal poderá conceder autorização especial para a realização de eventos que integram o patrimônio cultural local ou regional, desde que se assegure a adoção das medidas necessárias de prevenção e combate a incêndio e a desastres.
 
Durante a coletiva de imprensa realizada ontem, os representantes da Sapucaia informam que não foram orientados sob a obtenção do AVCB. A prefeitura diz alertar desse critério desde outubro, além da necessidade de licença (alvará) municipal.
Nesse jogo de empurra-empurra, uma coisa é certa: não há verdade absoluta e quem ficou prejudicado, mais uma vez, foi o folião.
 
Em Piracicaba, não se pode nem usar mais o ditado “e segue o baile…”. Pois nem baile mais há!