Casos de estupro

As estatísticas divulgadas na noite de ontem pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo escancaram uma triste realidade, que não é registrada apenas aos paulistas: a violação da intimidade da pessoa humana envolvendo uma relação sexual segue em alta.
 
Somente em Piracicaba, o número de estupros aumentou 21% de 2016 para 2017. Foram 57 casos, ante 47 em 2016. É muita coisa, quando fazemos uma comparação simples: trata-se de aproximadamente um caso por semana.
 
Somente na modalidade estupro de vulnerável foram 20 ocorrências registradas. Neste caso, as situações ocorrem quando a vítima não possui maturidade para as práticas sexuais (pessoas com menos de 14 anos no Brasil), que tenha alguma deficiência mental ou esteja sob efeito de embriaguez, por exemplo.
 
Por outro lado, os dados locais contrastam com os computados na capital paulista, que teve, no mesmo período, 2.546 casos, 230 ocorrências a mais em relação a 2016. São quase sete denúncias de estupro por dia.
 
É importante evocar o exemplo de São Paulo, pois é lá que existem os vagões rosa nos metrôs e também foi na maior cidade do país que nasceu um debate sobre a conscientização sobre assédios em transportes públicos. A história de maior repercussão envolveu um ajudante de serviços gerais de 27 anos, preso por ejacular em uma mulher dentro de um ônibus e depois solto pela Justiça, mas detido novamente após atacar outra passageira dentro de um outro coletivo.
 
Também é essencial que o termo ocorrência seja aplicado ao contexto da estatística conhecida desde ontem, uma vez que a estimativa é de que apenas 10% dos casos sejam notificados. Logo, mesmo com um índice alto e crescente, ele dá conta apenas um pequeno número de casos, já que muitas mulheres deixam de procurar as autoridades para relatar os abusos em função de fatores como vergonha, culpa, insegurança e medo do opressor.
 
Ainda que a lei trate como vulnerável apenas pessoas menores de 14 anos, é preciso lembrar que, em uma sociedade machista e misógina como a nossa, qualquer mulher é vulnerável, esteja ela atravessando a rua para comprar pão na padaria, circulando à noite ou “protegida por um teto”, em sua residência. Todas estão, sem exceção, sujeitas à exploração sexual.
 
Já passou da hora de estatísticas como essa servirem apenas para engordar o noticiário. As forças de segurança no país, os órgãos públicos e a sociedade devem se unir para uma mudança de cultura em prol da mulher.