Catito, Catito mío!

Não sei bem de onde trago estas estórias que sempre quis contar, mas enrosco numa vergonha danada que brota e não permite. Aí paro. Recomeço outra. E outra mais. Desisto. 
 
Por vezes penso comigo mesmo: isto sim é coisa de domingo, distrai, diverte, encosta no coração do leitor, acariciando. Quando vejo, a desgraça da vida me empurra para outros assuntos. Ou a Educação, tão desdenhada neste país de misérias, fica-me incomodando, insistindo, para escrever dela. E deito falação sem conseguir ver melhora. E a insegurança, este medo que toma conta, arrepia ao pensar na maldição que se alastra. Deus meu! E a família, não que precise aninhar todo o tempo, aquecendo com ternura e vontade, mas que crie marcas profundas de boa formação, de valores morais indestrutíveis.
 
Depois de tanta modinha bonita escutada nos desfiles de maracatus, decidi: escrevo disto, tanto gosto. Ou da ferveção de Olinda, já que o Recife está dentro de mim. Ou das cirandas tão esquecidas, aquelas que Lia me ensinou na Ilha de Itamaracá quando, um dia, tarde derrubando o sol com lentidão e cuidado, a natureza estendeu a noite escancarando a amplidão para confundir céu e mar.  Hora de escrever, estes os devaneios. 
 
Tomo decisão. Há dias, em especial os embuçados, encapotados em nuvens de chuva brava, a decisão titubeia. Pois foi quando passou por mim nestes lados meus, em frente da casa, uma jovem senhora toda perfumada, levando no colo, ornado em coleira engastada em pedras, artificiais claro, mas brilhosas, um porquinho rosado, quase um primor? Decidi: tenho que contar a cena. Não hei de ter comigo este bambúrrio sem dar ao leitor igual sorte.
 
Envolvi-me de ternura, tanta que transbordava do olhar da jovem senhora e, na minha casa, por vezes, quase sufocava e soltei palavra. É que tenho reservado na memória igual lembreança. Quando menino, camisa aberta ao peito, pés descalços, braços nus, graças à figura boa de meus pais, certa feita, abri as mãos e soltei naquele quintal imenso onde vivíamos, um bichinho a que minha mãe chamou Catito. Num primeiro momento, quase não se interessaram por ele até descobrirem que era um “pedazo del ciel que Dios nos dió”. 
 
Alguns meses e reconhecia com perfeição a voz de minha mãe e ao ouvi-la cantarolar seu nome volteava feliz no espaço que lhe cabia. Catito, Catito, lhe dizia. E ele, empoleirado nos seus cambitos, já mais cevado, rodopiava e grunhia como se respondesse.
 
Ela, então, mostrava-lhe a mamadeira, bico vermelho na ponta, ora com leite, ora com suco, bebê que ainda era para que se entregasse à mamadura. 
 
Catito nascera numa casa da vizinhança, ali, onde vivíamos. A porca de “seu” Zezinho criara 13, mas só tinha tetas para oferecer a dez. Como cada qual já nasce com sua bocada de leite determinada, o velho interveio. Antes que a mãe desse cabo à sobra, tratou de separar-lhes e ofereceu um a cada moleque da vizinhança. Catito veio comigo, para estar conosco. Era de todos num tempo em que não era moda ter porquinho no quintal de casa. Nas graças que fazia e na alegria que provocava o bichinho, a mais completa tradução da música, naquela vida gostosa que tínhamos, passou a fazer parte da cena.
 
Não lhes conto o desfecho. Catito foi por demais querido e o que vem depois não corresponde à graça do seu nome.