Celebremos a intervenção

A comunidade está a festejar. Na praça central, reúnem-se sargentos, coronéis, as mais altas patentes militares, líderes religiosos cristãos, socialites, empresários, a burguesia e suas famílias, além de populares da classe média. Após o Hino Nacional Brasileiro ser executado pela banda tradicional centenária, no coreto enfeitado de verde e amarelo, as autoridades, em ato solene, batem continência à bandeira nacional, hasteada ao lado de uma outra vermelha e azul com estrelinhas.

Enquanto isso, os soldados, munidos de armas de guerra, atiram para o alto, espalhando uma cortina de pombas assustadas pelo céu. Todos aplaudem veementemente e o conjunto militar começa a tocar encoberto sob o coro: “Nós somos da Pátria a guarda/ Fiéis soldados/ Por ela amados/ Nas cores de nossa farda/ Rebrilha a glória/ Fulge a vitória…”

É aniversário do Golpe Militar de 1964. Ops, golpe não, Intervenção. É 31 de março, dia que deve ser lembrado pela revolução dos nossos verdinhos. Estamos em um ano qualquer do pós-2019, quando o presidente eleito na época instituiu de mansinho as comemorações entre as alas militares, que ao longos dos anos foram se espalhando por todas as camadas sociais até se tornar, novamente, uma realidade. “O 31 de março de 1964 não foi um golpe militar, foi uma reunião de uma sociedade que percebeu o perigo que nosso Brasil vivia. Civis e militares se uniram para colocar novamente o país no rumo”, disse o coronel responsável pela cidade, uma espécie de prefeito, para justificar a data.

A Revolução de 1964 derrubou os comunistas que estavam no poder e o regime militar passou a operar o comando do Executivo. Os críticos do regime diziam que houve tortura, censura, mas isso é balela. O regime só atingiu comunistas, vagabundos e desertores do movimento. Arrancaram umas unhinhas aqui, esmagaram crânios ali. As famílias de bem não tiveram problema algum, oras.

Depois de 1985, erroneamente, o Brasil voltou a ser democrático por longas três décadas. Todos entramos no buraco e novamente fomos ameaçados pelos comunistas comedores de criancinhas, distribuidores de kits gay. Mas o país mudou e a sociedade voltou a pedir intervenção militar. Iniciada há poucos anos, ela agora toma o rumo do país em uma nova estrada florida. Isso não sou eu quem estou dizendo, mas os livros de História Reformada ensinados em sala de aula atualmente. Os mesmos que finalmente reconheceram o nazismo como um movimento de esquerda. Ufa!

De volta à praça, o ato solene continua e o orador lê uma espécie de mantra do saudoso presidente-mito, eleito democraticamente, que abriu os caminhos para uma nova era militar naquele 2019. “O voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil. Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra morrem inocentes”, finalizou, sendo aplaudido pela multidão que em coro canta seu nome, inflando um balão enorme em sua homenagem.

No meio do público, ouve-se um grito de “Ele não!”, como se ecoasse na praça um distante 2018. O jovem identificado foi detido imediatamente e trancado em um camburão. Merecido! Como ousas? Ouviu-se apenas um “boom” abafado. Acho que foi o motor do carro, não sei. Após restabelecida a ordem, a celebração seguiu com a escolha da Miss High Society, o prêmio para o pai de família com melhor pontaria e o troféu Cidadão de Bem.

Ao fim, uma nova salva de tiros explodiu na praça, para o encanto de famílias. O céu novamente cobriu-se de pombos assustados. Um deles, atingido pelas balas, manchou de sangue as autoridades presentes, que ficaram cobertas por um vermelho vivo. Malditos pombos comunistas!

Nota do autor: Este texto contém ironia e ficção, mas resta a você saber o que é ficcional ou real nessa comédia de erros brasileira.