Céu e inferno

As religiões, com respeito à conduta humana, estabelecem determinados padrões morais a serem seguidos, ao mesmo tempo que advertem seus fiéis quanto a comportamentos e atitudes desaconselháveis. Ocorre que normas éticas e preceitos morais, se apresentados de forma impositiva e vinculados a ameaças ou cercados de mistérios, geralmente não são seguidos nem aplicados, principalmente nos tempos atuais, pois o ser humano de hoje, a fim de se submeter ao necessário processo de educação espiritual, deve ser esclarecido quanto ao sentido e propósito do que lhe é apresentado. Para se obter êxito na tão necessária quanto urgente transformação do ser humano, no aprimoramento do seu caráter e na sua plena capacitação como ser social, parece fundamental que qualquer proposta espiritual promova o despertar da sua consciência e a ampliação dos seus horizontes existenciais, ao lado do fortalecimento de uma fé que dialogue com a razão.

Os movimentos espiritualistas e religiosos, nos seus aspectos mais profundos, têm revelado à humanidade a existência de leis naturais que regem as ações humanas e suas consequências. Essa revelação, de todos os tempos e povos, no Oriente é conhecida como lei do carma, de causa e efeito ou de ação e reação. Segundo essa lei, tudo aquilo que o ser humano pensa, sente, fala e faz repercute nos diferentes planos da existência, e retorna inevitavelmente ao seu autor. Portanto, cada um é plenamente responsável pelo próprio destino, construindo seu futuro com as ações do presente. Como muitas ações demoram para que suas consequências sejam sentidas, há quem não as correlacione, o que não invalida de forma alguma sua precisão, já que ninguém deixa de se submeter às leis da Natureza por ignorá-las, negá-las ou tentar adaptá-las aos próprios interesses.

A conscientização desse princípio universal de causa e efeito – que as religiões explicam de diversos modos – permite que se compreenda céu e inferno não como lugares circunscritos aos eleitos ou aos desgraçados, mas acima de tudo como estados de consciência, seja de felicidade, harmonia e paz ou de aflição e sofrimento, neste mundo ou em outras dimensões da existência, já que nossa passagem por este planeta é brevíssima etapa da vida.

Independentemente de crenças religiosas, é sempre oportuno refletirmos sobre nossa responsabilidade quanto a pensamentos, palavras, ações e sobretudo intenções, conscientes de que a cada momento estamos construindo, individual e coletivamente, pedaços de céu ou de inferno.

Todos os seres que alcançaram grande desenvolvimento de consciência e de comunhão com a fonte da vida, expressos em ensinamentos, serviço altruísta e bondade, afirmavam viver em estado de grande alegria e paz, impossíveis de serem abaladas por circunstâncias exteriores.

Dentre tantos, podemos citar Paramahansa Yogananda, que trouxe a sabedoria do Yoga ao Ocidente no século passado, e que foi profundamente admirado por quem o conheceu. Afirmava e demonstrava sentir permanentemente a presença de Deus e declarava ser tão imensamente feliz que nenhuma situação poderia lhe tirar a alegria interior; dizia que carregava um paraíso portátil no próprio coração. Ele e muitos outros – exemplos motivadores para todos nós – ao viverem em harmonia com as leis da vida e ao se tornarem servidores do mundo plenos de amor e sabedoria, conseguiram edificar um “céu” dentro de si mesmos.