‘Chegamos ao atual nível de juro de maneira mais sustentável’, diz economista

Otimista, Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá capital e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, não vê contaminação do processo eleitoral na economia a ponto de levar o BC a antecipar movimento de correção da taxa básica de juros. “Como há um hiato relevante na economia, a política monetária deve ficar um tempo bem razoável no campo expansionista”, diz, ressaltando que, se houver uma acomodação, será para elevar a Selic para algo entre 8% a 8,5% anuais. A seguir, trechos da entrevista:

Como o sr. está vendo o balanço de riscos inflacionários para 2018?

Mesmo com a economia acelerando um pouco, a recuperação não será nada muito forte, algo entre 2,7% e 3%. E ainda tem um hiato relevante para ser fechado. Como a inflação ficou bastante baixa recentemente, a inércia é favorável, com indexação que traz índices baixos do passado. Também não há realinhamento relevante de preços administrados. Mas, se a política monetária estiver ainda no campo expansionista, em algum momento o juro terá de se acomodar para um nível neutro, algo como entre 8%, 8,5% ao ano.

Qual o ‘timing’ disso?

É muito mais para o final do ano ou eventualmente no início de 2019. Como há esse hiato relevante na economia, a política monetária deve ficar um tempo bem razoável no campo expansionista. Dependendo do fato de termos capacidade de avançar nas reformas importantes, é possível, inclusive, chegar a uma taxa de juros estrutural um pouco mais baixa. Nesse caso, o BC teria de subir muito pouco o juro ou mesmo não subir.

Então a Selic pode durar mais tempo no atual nível do que a última vez em que chegou a 7,25%?

Sem dúvida, principalmente porque, desta vez, chegamos ao atual nível de juro de uma maneira muito diferente, mais sustentável. Embora tenhamos um problema fiscal tremendo ainda. Todos os fatores ligados ao processo inflacionário estão muito tranquilos, ou seja, nós chegamos nesse nível porque precisávamos chegar. Não foi por uma tentativa meio voluntariosa.

Se a reforma da Previdência não passar e o governo não aumentar imposto, a inflação não fecha essa conta?

Sim. E este seria o pior dos mundos. Mas eu não acredito nisso porque, daí, a inflação será o menor dos nossos problemas. Entraremos em um grau de instabilidade, de descontrole, de desarrumação da economia muito grande.

Qual o cenário eleitoral?

A continuidade das políticas que estão aí. É um cenário aonde a agenda do próximo governo será no sentido da consolidação fiscal que passa por uma reforma da Previdência, por gerar condições de estabilizar a trajetória da dívida em relação ao PIB. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.