Ciência e Espiritualidade: dos Dogmas à Integração

Dogmas são “verdades inquestionáveis ” a partir das quais algumas religiões, filosofias ou organizações se estruturam. O não questionamento deles leva a uma fé cega em teorias monólogicas, das quais decorreram sérios problemas históricos da humanidade. Exemplos clássicos da Terra plana, centro do universo, são crenças que refletiam uma visão de mundo antiga, levando muitos à fogueira na Idade Média, por discordar. A ciência se desenvolveu juntamente com o pensamento racional para entender fenômenos para além das explicações dogmáticas, a partir de contrastes com referências, padrões ou modelos inicialmente estabelecidos para se ter comparações e obter conclusões confiáveis. Esses modelos ou paradigmas podem assumir caráter dogmático ao se tornarem estáveis, desconhecendo-se sua transitoriedade, são considerados imutáveis ao longo dos anos. Aos poucos, os velhos paradigmas sucumbem às provas que são obtidas por novos métodos e referenciais, que também refletem o pensamento vigente, sempre mutante. No entanto, o ser humano em sua busca por segurança, com avidez natural por padrões, deslumbrou-se pela maestria da Ciência sobre a matéria e sua pompa tecnológica. À medida em que dogmas religiosos foram sendo desbancados pelo pensamento racional, atribuiu-se à Ciência um caráter dogmático quase religioso. A “entidade Ciência” tornou-se um deus de manifestação simplística e dogmática. É necessário compreender em profundidade as premissas de cada campo do conhecimento seja Ciência, Filosofia ou Arte, todos fundamentais para os processos educadores integrais e portanto transformadores, mas respeitando seus princípios e limites. Dinâmica e multifacetada, o que chamamos de Ciência não é algo homogêneo. Há ciências humanas e sociais, há ciências naturais que englobam as da terra, as biológicas e as exatas, cada qual podendo ser básica ou aplicada, todas com referenciais e métodos de pesquisa próprios, gerando inúmeros resultados altamente especializados. É tão vasto o conhecimento acumulado pela ciência da humanidade que é impossível um único ser humano abarcá-lo. Esta certeza deveria nos levar a uma profunda reflexão sobre nossa ignorância, reforçando a humildade, pois o que sabemos é uma ínfima parte diante do que existe, esteja explicitado nas ciências ou ainda oculto. Há discursos que buscam legitimidade tentando unir Ciência e Espiritualidade como sendo “provado cientificamente”, por exemplo, o uso do adjetivo “quântico”, o que os torna falaciosos, pseudocientíficos. Desnecessário, pois há áreas do saber e processos que são importantes sem que sejam ainda, científicos. O nosso foco como espécie “evoluída” que somos deveria ser na qualidade da vida humana, incluindo todos os seres e Natureza. Ao contrário, vivemos ameaçados como indivíduos e espécie, e a despeito do progresso científico-tecnológico, por exemplo, ainda inúmeras causas de morte no mundo são de doenças preveníveis ou tratáveis como as infecto-contagiosas e as decorrentes de hábitos físicos e psicologicamente insalubres. Processos educadores integrais, baseados em Ciência, Filosofia, Arte e Espiritualidade, são fundamentais na transformação deste cenário, respeitando-se cada área do saber. Afinal, cérebro e coração saudáveis trabalham em sintonia e complementaridade, e assim deveriam ser Ciência e Espiritualidade.