Cláudia da Silva Santana

A professora fluminense Claudia da Silva Santana é a primeira mulher na história a assumir a reitoria da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). Nascida em Duque de Caxias (RJ), aos 17 anos ela escolheu a cidade Piracicaba para cursar o ensino superior na Unimep, na área de educação. A vontade de estudar em uma instituição metodista por conta a tradição confessional da família, ela buscou a única universidade da Igreja Metodista na época.

Ao conhecer a cidade, ela se encantou pela cultura e tradições, com a valorização das artes e da intelectualidade em um contexto de desenvolvimento social muito intenso nos anos 80. Ao final do curso de Pedagogia, ela conheceu o antropólogo e pesquisador americano da USP (Universidade de São Paulo) Johnny Cowart Dawsey, que na época fazia sua pesquisa de doutorado. Os dois se casaram nos EUA, e, após quatro anos na Emory University em Atlanta (GA), o casal retornou para Piracicaba e para a Unimep.

Filha do casal Ironildes da Silva Santana e Dernival Santana, a reitora é mãe dos jovens Sean Lucas Santana Dawsey, 29 anos, arquiteto e urbanista e Ian Victor Santana Dawsey, 27, jornalista.

Claudia é pedagoga, especialista em Museus de Arte, mestre em Educação e doutora em Comunicação e Semiótica. Ela iniciou o magistério, atuando como professora na Educação Infantil em Piracicaba e em Atlanta (EUA) por um período. Com o mestrado, ingressou como docente do Departamento de Educação e Curso de Pedagogia na Unimep em 1994, ministrando disciplinas da área de Educação Infantil, Didática, Artes e Linguagens Tecnológicas.

Em 2002, concluiu o doutorado em Comunicação e Semiótica e direcionou os estudos e pesquisas para a temática da Infância, Estética e Linguagens. Na academia, a atuação de Claudia se deu no Programa de Pós-Graduação em Educação e no Curso de Pedagogia. Na gestão Universitária, atuou como coordenadora do Curso de Pedagogia, diretora da Faculdade de Ciências Humanas e pró-reitora de Graduação.  Ao final de 2018, foi nomeada reitora da Unimep.

Nas horas de lazer, Claudia gosta de ir a museus de arte e exposições, assistir concertos e recitais, assistir peças teatrais, ler livros de literatura, artes e filosofia e passear em Águas e Serra de São Pedro. Nesta semana, apesar da escassez de horas vagas, ela encontrou um tempo na agenda para esta entrevista do Persona, onde falou do desafio e do protagonismo de assumir a reitoria da Unimep e dos projetos para o futuro da instituição.

A senhora é a primeira mulher a assumir a reitoria da Unimep, como a senhora recebeu o convite?

Recebi o convite como parte de uma missão na educação metodista, cujos ideais e valores me conectam às mulheres e homens que dedicaram suas vidas à obra educacional da Igreja Metodista na formação integral do ser humano, preparando milhares de profissionais nas mais distintas áreas das ciências e do mundo do trabalho, para uma atuação relevante e transformadora na sociedade.

Ao longo de 55 anos, desde a criação dos primeiros cursos superiores da Unimep, ser a primeira mulher que ocupa o cargo de reitora pode revelar uma abertura na estrutura de relações para que se reconheçam competências e lideranças de mulheres na gestão universitária.

Qual o tempo de um reitor na rede metodista e como ocorre a indicação para o cargo?

O mandato na reitoria das instituições metodistas é por prazo indeterminado, ‘ad nutum’, como é tratado em nosso estatuto. A escolha de um nome é resultado de um processo que envolve o Conselho Superior de Administração das Instituições Metodistas e da Coordenação Geral de Ação Missionária. A minha nomeação é ‘pro tempore’ até que todo o processo seja concluído.

A senhora assume a universidade em um momento delicado no país, com impacto nos salários, inclusive dos professores, como a senhora pretende lidar com essa situação?

A situação econômica traz reflexos diretos na atividade do ensino superior, sobretudo em uma universidade particular, cujo principal ingresso de recursos financeiros se dá por meio das mensalidades. A principal estratégia para lidar com esses momentos de turbulência é ainda o planejamento acadêmico e administrativo e o envolvimento dos diversos atores em suas instâncias na busca de soluções.

Além da crise econômica há também o contingenciamento de verbas públicas destinadas à pesquisa anunciado pelo Governo Federal, qual o impacto dessa medida no programa de pesquisas da Unimep ?

Neste momento, o impacto desses cortes ou contingenciamento afeta diretamente o financiamento de bolsas de estudos para os pós-graduandos. Na Unimep, a perda foi de aproximadamente 15% do total de bolsas de mestrado e doutorado nos programas de Educação, Administração, Ciências do Movimento Humano, Engenharia de Produção e Direito. O prejuízo é significativo porque impacta justamente as condições para a realização de pesquisas e diminui o potencial para inovação e avanços científicos, cruciais para o desenvolvimento do país.

A universidade tem condições de manter projetos em andamento sem recursos federais?

O fomento da pesquisa é essencial para a Universidade e os recursos federais são muito importantes dentro do sistema que foi estabelecido para o desenvolvimento da educação, da ciência e tecnologia, nos centros de pesquisa e universidades que contam com os recursos provenientes dos órgãos de fomento, especialmente CNPq e Capes. Os atuais projetos de pesquisa estão assegurados até o momento, no entanto, a insegurança é grande quanto ao futuro, já a partir do próximo ano quando se prenunciam cortes ainda mais profundos no financiamento de bolsas de estudo.

Qual o investimento atual da Unimep em pesquisa?

A Unimep possui um Fundo de Apoio a Pesquisa, criado com o objetivo de fomentar internamente a pesquisa na Graduação e na Pós-Graduação, em parceria com as agências de fomento. Há um programa consolidado de iniciação científica neste modelo, além da inserção da pesquisa nos projetos pedagógicos dos cursos em experiências em salas de aula e laboratórios, que seguem a linha do ensino com pesquisa. Além desses, a Universidade possui parcerias importantes e estratégicas com empresas e instituições para o desenvolvimento de pesquisas vinculadas à pós-graduação.

Com relação aos professores, nos últimos anos a universidade vem passando por situações conflitantes com a categoria com paralisações e demissões. Como a senhora pretende resolver essas questões com os profissionais?

A realidade local traduz uma crise vivenciada no ensino superior do país, especialmente das instituições de referência como a Unimep tem sido em sua história. As reestruturações administrativas e acadêmicas foram consideradas cruciais para o enfrentamento das questões financeiras pelas instâncias superiores e equipe diretiva. Entretanto, há um legado a ser honrado e a construção da Universidade está certamente relacionada à dedicação e empenho dos professores, funcionários e equipe gestora, de forma que a superação dessas situações depende de um conjunto de sujeitos em diferentes posições e esferas prontos ao diálogo e trabalho.

Quais as expectativas da senhora frente à Unimep, pretende investir em quais setores, novos cursos, projetos?

A Universidade se distingue dos centros universitários e das faculdades, porque nela o ensino é indissociável da pesquisa e da extensão. Assim, os investimentos levam em conta a potencialização dessa tríade e o fortalecimento dos cursos de graduação e de pós-graduação. Nos seus campi, há cursos sendo lançados em 2019 e 2020, a exemplo de Medicina Veterinária, Biomedicina, Arquitetura, Engenharias e Odontologia no campus Taquaral; Administração, Ciências Contábeis e Nutrição no campus Santa Bárbara d´Oeste; Direito no campus de Birigui e cursos da área de negócios em Lins e no campus Centro, em Piracicaba. Os projetos na área de Extensão e Cultura tendem à diversificação de atividades e serviços com hubs de inovação.

Nos últimos anos o Brasil tem vivenciado um aumento da oferta do ensino superior à distância o chamado EAD, em sua avaliação esse setor tem influenciado negativamente as universidades tradicionais?  De que forma?

A oferta da EAD no Brasil não é recente se considerarmos os cursos profissionalizantes que desde o início do século passado foram oferecidos por correspondência, rádio e televisão. Ocorre que com o desenvolvimento da tecnologia e informática, da internet e velocidade das transmissões de imagens e textos, cria-se um cenário favorável a novas formas de conectividade e ensino. O impacto sobre as instituições de ensino superior tradicionais que praticam o presencial está muito mais associado aos parâmetros de qualidade distintos requeridos em cada modalidade e a concorrência dessas instituições com grandes corporações educacionais de capital aberto que tratam a educação como um negócio lucrativo e têm demonstrado pouco compromisso com a formação no ensino superior.

Esse fenômeno (EAD) forçou ou contribuiu para que o ensino superior convencional buscasse outras saídas e produtos para se manter?

A incorporação de novas tecnologias educacionais no ensino superior presencial é importante, assim como o desenvolvimento de novas metodologias de ensino aprendizagem fortemente derivadas dessas experiências, todavia, não se pode associá-las diretamente ao EAD, mas muito mais a um desenvolvimento de ferramentas que é próprio da inovação em educação.

Quais os cursos são os mais procurados na Unimep? A senhora sabe explicar o por quê?

Os cursos de Direito e das áreas de Administração, Saúde e Engenharia lideram a escolha dos estudantes, seguidos pelas áreas de Comunicação e de Educação. O portfólio da Unimep é extenso com cerca de 40 cursos de graduação. Os motivos passam pelo reconhecimento e relevância social e, especialmente, pelas oportunidades geradas pela profissão e carreira no mercado de trabalho, além das vocações.

Beto Silva

(Foto: Claudinho Coradini/JP)