Clóvis Rossi

Bem poderias ter sido mais breve na esperança. Duas angioplastias, cinco stents e a tua palavra garantindo sucesso em tudo isso, além da eficiência, rapidez e precisão médica no atendimento do Albert Einstein indicavam volta próxima à lida diária na redação da Folha.

Não bastasse, informavas ali, previsão de alta para o dia de Santo Antônio, a quem, reservadamente, pedi que intercedesse em teu favor. Agora, quando já me preparava para ler teus escritos outra vez a televisão apressada me dá notícias tuas que não desejava ouvir. Em verdade, não soube delas. Te imaginava indisposto, sim, mas bem atendido, já a caminho de casa, com teu retorno garantido.

Tua presença na Folha, em textos fluidos, objetivos, muitas vezes áspero, guardando crítica mordaz e implacável, ironia e sarcasmo necessários, revelava competência, cultura, conhecimento profundo do tempo, dos assuntos escolhidos e firmeza no trato dos poderosos, dos governos e dos partidos, em linguagem ágil e pena respeitada.

Minha irmã, Clóvis Rossi, à hora do almoço, diante do silêncio que guardava a respeito da nota, deu-me a certeza da despedida. Ao telefone, contou-me que a indesejada se fizera presente, em tua casa, na madrugada de sexta-feira, antes mesmo da estrela da manhã, roubando-te o pulsar do coração, o sopro de teu espírito, mas não o brilho de tua luz.

A morte, ah, a morte, esta senhora cujo abraço arrasta. Não era hora de lançar aí tua raiz serena, mas profunda e forte. “Não há mal”, bem sei, que não sare ou não conforte/ tua mão que nos guia passo a passo,/ em ti, dentro de ti, no teu regaço”. Com Clóvis, no entanto, em razão dos desenganos por que passa o país, bem poderias ter dado ao tempo, mais tempo, sem ver ou contar.

Pesou-me a nota. Lembrei-me quando, à frente do JP, estive num encontro de jornalistas em São Paulo, ao lado de outros tantos, e pude ouvir o genial periodista de porte grandalhão, vivaz, brilhante, demonstrando, inclusive, agilidade física incomum para os seus anos.

Não me conhecias, embora eu pudesse encontrar-te em casa desde os 80, na Folha. Entendes agora a razão do espanto causado por notícia doída capaz de fazer a voz de minha irmã provocar exclamações tantas em razão de nossa admiração, do sentimento de perda de talento que era referência entre todos nós e tantos  que conhecemos e te aplaudiam constantemente.

No teu último texto falas de teu estado de saúde para dar ao leitor alguma satisfação por tua ausência das páginas do jornal no último domingo. E hoje, quem dirá que não mais estarás presente?

Seja meu texto, mais que tributo, mais que relato de lembrança, gratidão por ter feito de ti, como jornalista que sou, “mestre e guia, a quem nenhuma luz feriu, nem doeu nem perturbou”. Sigas sendo, por favor, “seguro como um sol, fazendo seu dia involuntariamente”.