Com licença… – por Marisa Bueloni

Às vezes, bate uma saudade funda de certas coisas, de momentos vividos tão intensamente! Podemos sentir a presença amorosa de quem já esteve ao nosso lado e hoje não mais se encontra entre nós. São imagens profundas, que aquecem nossa alma com um calor maravilhoso. Mas nem só de belas memórias vivem nossas lembranças. Olhamos para trás e vemos que vencemos etapas difíceis e dolorosas. Uns mais, outros menos.

Quando chegamos a uma determinada altura da vida, lançamos para nós mesmos um olhar criterioso e podemos perfeitamente ver os remendos, os pedaços, onde quebrou e Deus colou, literalmente… Olhamos para o nosso corpo meio combalido pela idade, e sabemos exatamente a origem daquela cicatriz, daquele corte que demorou a fechar, a unha arrancada com a tábua pesada que caiu em cima do dedão…

Mas, de todos os cortes e fraturas, de todas as cirurgias e de todas as dores, Deus nos cura, nos restaura, nos faz novos. Sabemos que não dá para ser um vaso inteiramente novo, sem fissuras, sem colas aparentes, sem nenhum arranhão. São as marcas que a vida deixou. Não é com vanglória que conto: passei por 11 intervenções cirúrgicas, sendo 9 com anestesia geral. Só a coluna, operei três vezes. Na terceira, o médico vinha 2 vezes por dia ao meu quarto, passar a mão nas minhas costas para ver se o líquido não estava vazando por fora da pele.

Depois da alta, fiquei quase dois meses deitada, sozinha, lá na chácara do Campestre. Meu lindo dava-me o café da manhã na cama e saía para trabalhar. Nunca gostei de televisão no quarto. Eu lia bastante. Ele trazia o almoço, me ajudava a escovar os dentes na cama e ia embora de novo. Voltava à tardinha, trazia um lanche pronto, fazia uma sopa para nós. As dores de cabeça eram lancinantes, a cada movimento do corpo o líquido da espinha subia e eu gritava de dor. Pedia aos anjos que me levassem… Foi um período duríssimo. Mas as dores cessaram. Era um sonho andar um pouco, olhar o gramado, as plantas, o espaço lindo em volta da casa e as aves em bando pelo céu. A beleza me curava.

Um domingo, em que me senti mais animada, me arrumei e meu marido me levou à missa das 11 na Igreja dos Frades, que amo tanto! Foi uma alegria inesquecível! E de lá pra cá, tenho tocado a vida. Três anos depois da terceira cirurgia na coluna, fiquei viúva, morando num condomínio de chácaras, quase no meio do mato, cercado por canaviais. Havia muito assalto daquele lado, e eu tinha de trafegar por uma estradinha de terra, perigosíssima. À noite, passava nela rezando a São Miguel Arcanjo.

Em 2011, vendi a chácara e comprei a casa na cidade. Assinei tanta coisa! Depois, o trabalho de transferir tudo para o novo endereço, as contas de água, luz, telefone. Saber onde levar o carro quando aparece algum problema. Cuidar de tudo. Uma força vinda do Alto me ampara sempre. Torta como sou de coluna, com uma escoliose grave, cheia de problemas, dores, superei quase tudo com o Pilates. Deus seja louvado!

Louvo, canto alto pela casa, celebro, estou de pé todos os dias. Caminhar, dirigir, tocar a vida. Tive perda de sensibilidade no pé direito, mas me esforço para que a marcha seja boa. Sapatos e sandálias têm de ser bem firmes nos pés. A cada calçado novo, um louvor. Quando o uso, sei o que significa para mim. Vou a casamentos de sapato baixo. Fazer o quê? Graças a Deus, ando, faço tudo de forma independente. Não reclamo de nada. E compus um hino para os 7 coros de anjos.

Aprendi mais uma lição de vida: em vez de reclamar ou lamentar, agradecer. Faça o mesmo: agradeça, agradeça, agradeça!