Como Escrever Canções

Sem tocar instrumento algum, apenas na batucada de sua surrada caixinha de fósforos, Wilson Batista se tornou um dos principais nomes do samba no último século. Apesar do “analfabetismo” musical, compôs dezenas de músicas gravadas por inúmeros intérpretes, entre eles João Gilberto. Faleceu, deixando registrada uma última melodia assoviada e acompanhada pelo chacoalhar de seus fósforos. Batista, assim como muitos outros, não precisaram saber notas musicais ou frequentar aulas em conservatórios para integrar o rol de grandes compositores populares.

Esse foi o mote do curso Como Escrever Canções, ministrado pela cantora e compositora Adriana Calcanhotto, entre março e maio deste ano, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Portugal. Cerca de 20 alunos, entre músicos, pedagogos, artistas plásticos, comunicólogos e até uma engenheira química – e entre eles, eu – chegaram curiosos para desvendar esse mistério por trás de uma canção.

Mas como um curso sobre escrever canções pode falar que não é preciso curso para escrever canções? Essa dicotomia estava presente na disciplina nada acadêmica mas, ao mesmo tempo, provocativa e inspiradora.

Já no primeiro exercício em grupo, Adriana nos deu o desafio de escolher 12 palavras a partir de três selecionadas por ela: “aqui”, “sonho” e “você”, além de uma cor escolhida pelo grupo. Deste montante, fizemos versos e a melodia. E lá surgiu a primeira canção completamente improvável, mas possível.

Adriana poderia ser um desses artistas que se diz iluminado por conseguir compor um clássico em cinco minutos. Não que ela não tenha conseguido este feito em alguns momentos de sua talentosa carreira, mas reconhece, com humildade, as dificuldades que já teve em compor e, por isso, criou suas técnicas particulares.

Assim, nos levou informações sobre os elementos de uma canção: melodia, ritmo, harmonia e letra. Também resgatou a história da Grécia antiga, dos trovadores, de Homero, de Camões e até ensinamentos do budismo. Não poupou detalhes mais profundos da música como contraste, dinâmica, andamento, modo, sistema tonal; e da poesia, como métrica, rima e prosódia.

Os desafios seguiram nas semanas seguintes, explorando diversos processos criativos. Compusemos um jingle de Páscoa, fizemos primeiro uma melodia para encaixar a letra por meio da divisão de sílabas, criamos a melodia para um poema que já existe (do dificílimo poeta Eucanaã Ferraz), compusemos sozinhos uma canção de protesto (ou intervenção) e uma canção com uma frequência da infância. Tudo apresentado para a turma e para aquela professora, mas também ídola, e seus atentos olhos azuis.

Por fim, era preciso mais que compor, mas abrir o coração por completo em uma canção que falasse de si sem utilizar a palavra “eu”. Essa foi apresentada em um festival entre os alunos, uma catarse de fim de curso, que levou muitos de nós às lágrimas.

Poderia dizer que aprendi uma fórmula para escrever uma canção, mas acredito que o que mais fiz foi desaprender. Desaprendi a achar que é preciso ser um músico sofisticado, conhecedor de notas musicais complexas para ser um compositor. Desaprendi que em um grupo de pessoas sempre haverá competição. Ao invés disso, havia alegria em ver e ouvir a superação de cada um a cada aula: quem dizia não saber compor uma nota mostrou sua própria obra, quem se dizia desafinado cantou lindamente e quem era tímido pôde dizer a que veio.

E mais do que tudo desmistifiquei a ideia de que artistas consagrados são intocáveis. Adriana, sem medo de ser generosa, compartilhou seu conhecimento, seu carisma e seu talento em ensinar, levando individualmente, a cada aluno, o carinho e a dedicação dignos de uma excelente professora.