Como Vemos o Mundo

As informações que nos chegam a todo instante não encontram em nós uma tela em branco; pelo contrário, tudo o que nos alcança a consciência mescla-se a um repertório de ideias, conceitos, emoções, memórias e condicionamentos, e tudo isso atribui significados particulares ao que percebemos. Nunca recebemos, e menos ainda transmitimos, alguma informação de forma neutra, pois, até certo ponto, acrescentamos ao que captamos parte da nossa e da história da humanidade.

Quando algum conteúdo informativo nos é apresentado, imediatamente interage com nossa bagagem psíquica, e se nos referimos a determinado fato, o fazemos de acordo com nosso ponto de vista, capacidade de percepção e acuidade psíquica. Se temos preconceitos sobre determinados assuntos, por exemplo, tudo que formos considerar a seu respeito será acrescido de conteúdos permeados por esses preconceitos, sejam religiosos, políticos, sociais, o que não deixa de distorcer os fatos, que se tornam nossas versões dos mesmos.

Vemos o mundo a partir do nosso mundo interior, e julgamos pessoas, fatos e circunstâncias de acordo com nossos referenciais internos. A nossa percepção da realidade é influenciada pelas concepções que temos dela, e o modo como a enxergamos se reflete nas nossas atitudes e padrões de conduta.

Qualquer situação pode ser vista de diversas maneiras e compreendida de múltiplas formas. Por isso mesmo existe a possibilidade e a conveniência de o ser humano ser educado a fim de transformar a própria visão do mundo, libertando-se dos inúmeros condicionamentos que o limitam e escravizam, permitindo que se torne colaborador das mudanças necessárias e desejáveis na realidade social de que faz parte.

As propostas educativas que englobam e valorizam a dimensão espiritual do ser pretendem permitir e facilitar uma purificação interior e um gradual despojamento de preconceitos, rigidez, cristalizações mentais e ideias preconcebidas, fomentadores das mais diversas formas de intolerância e suas consequências destrutivas. Também permitem que se enxerguem os fatos sob uma perspectiva mais ampla e positiva. Como frutos desse processo os fatos se revestem de outro significado. Uma determinada situação aparentemente desagradável, por exemplo, pode ser vista como oportunidade de transformação e crescimento; um desafio pode se configurar convite à superação; uma perda pode ser considerada oportunidade de desapego; uma doença pode ser compreendida como necessário processo de purificação.

Somente poderemos nos tornar colaboradores efetivos na solução dos inúmeros problemas existenciais, individuais e coletivos, se tivermos percepção clara e lucidez suficiente para, além de fazer um diagnóstico preciso e acurado das diversas situações, escolhermos as melhores soluções. A fim de alcançarmos essa meta parece-nos fundamental que tenhamos consciência de realidades mais profundas, que ampliemos nossa capacidade de percepção, não apenas para anotar os problemas, mas principalmente para vislumbrar, propor e efetivar as melhores ações ao nosso alcance.

 

(André de Paiva Sallum)