Comunicador de histórias

Persona Apresentador da TVJP conta os fatos mais marcantes da carreira de 40 anos dedicados ao rádio e à TV. (Amanda Vieira/JP)

Paulo Eduardo Temple Delgado nasceu em Rio Claro, tem 58 anos de idade, é filho do oficial do Exército Valdir de Oliveira Delgado e da bibliotecária Deise Meire Temple Delgado, irmão mais velho de Edivania e Silas, casado com Yara, com quem teve três filhos — Fernanda, Paulo e Maria Clara — e avô de Bernardo e Maria Eduarda. Jornalista há mais de 40 anos, o apresentador da TVJP, nesta entrevista para a seção Persona, contou como foi adotado no final da década de 1950 e relatou histórias de quando começou a carreira no rádio, ainda adolescente, e os fatos mais marcantes da vida profissional.

Como iniciou a carreira?

Antes de falar da minha carreira, vou lembrar da minha família, que foi muito importante para mim. Hoje sou casado, pai de três filhos e avô de dois netos. Poucos sabem disso, mas meus pais me adotaram, assim como meus outros dois irmãos mais novos, que hoje são comerciantes em Rio Claro. Sou jornalista há 43 anos, comecei a carreira em 1975, em Rio Claro, como locutor da Rádio Educação e Cultura. Era ainda muito jovem e queria de toda forma trabalhar no rádio e a igreja que eu frequentava tinha um programa semanal, aos domingos, e eu ficava no pé do pastor pedindo “deixa eu falar no rádio” e “deixa eu participar”. Como ainda era garoto, o pastor ficou receoso pela minha idade, até que um dia ele permitiu que eu fizesse a locução de abertura do programa. Depois disso, fiz um teste na rádio, passei e comecei a trabalhar como locutor com 14 anos de idade.

Você foi adotado assim que nasceu? Seus pais lhe contaram como isso aconteceu?

Somos em três irmãos, todos adotados. Eu sou o mais velho, depois vem minha irmã e depois, meu irmão. Minha mãe (adotiva) trabalhava na biblioteca municipal de São Paulo. Um dia, quando ela saía do serviço, encontrou uma moça que ficava nos faróis, sempre vendendo balas. Em 1958, essa moça dos faróis (minha mãe biológica) disse que estava esperando uma criança e não poderia cuidar deste filho e perguntou se minha mãe (adotiva) não queria o bebê. Naquela época, a adoção era um pouco diferente de hoje. Existia na Santa Casa de São Paulo a roda das crianças, onde as mães que tinham filhos e não os queriam colocavam as crianças naquela roda, que era girada e as irmãs de caridade do hospital pegavam as crianças e ficavam com elas até encontrar uma família. Eu fui uma criança deste tipo, só não cheguei a ir para a roda, mas fui oferecido na rua. E assim aconteceu. Quando nasci, minha mãe (adotiva) me pegou e trouxe para registrar em Rio Claro, onde moravam parentes. Eu sou adotivo e dou muita importância aos casais que têm esse hábito digno de amor de adotar uma criança. Talvez, seja muito fácil amar uma criança que tem o nosso sangue, por isso acho nobre você gostar e amar daqueles que você não gerou e que você adota como sendo seus. Eu tenho um carinho muito grande por esse assunto, ele me fascina muito. A adoção é importante porque, imagine, o que seria de mim se eu não tivesse sido adotado? Que vida eu teria? O que eu seria se não tivesse sido pego pela minha mãe?

Seus pais falavam sobre os motivos de terem adotado vocês três?

Eles sempre disseram que adotaram por não poderem ter seus próprios filhos, de minha mãe não poder engravidar. Aí, eles tiveram a oportunidade de formar uma família com crianças adotadas. Durante muitos anos, eu trabalhei com o Ratinho na televisão (SBT). Nunca tive a intenção de conhecer a minha mãe verdadeira, sou muito bem resolvido quanto a isso, meu pai e minha mãe são aqueles que me criaram. Meus pais já haviam falecido e eu senti no coração que devia tentar achar essa moça que me gerou. Talvez, ela estivesse precisando de algo de mim, não sei, mas não conseguimos achá-la, já que minhas informações eram poucas. O Ratinho me ajudou bastante nisso, mas não conseguimos encontrar essa mulher que talvez tivesse precisando de mim para alguma coisa.

Conte como você decidiu ser jornalista, radialista e sobre sua formação profissional.

Quando comecei a trabalhar no rádio, a profissão de radialista não era regulamentada, não havia necessidade de um curso para você ser um Comunicador. A atuação de radialista foi regulamentada em 1978 e, até então, as pessoas que tinham trabalhado no rádio ou TV, antes disso, receberam o MTB e o DRT devido ao seu tempo de trabalho. Então, posso dizer que sou um dinossauro, tenho meu registro profissional anterior à regulamentação da profissão. Não fiz curso de rádio, mas durante muitos anos fui professor de rádio e televisão no Senac São Paulo por exatamente ter experiência na área. Lá, participei da criação do curso de rádio, elaborando apostila e depois lecionei durante oito anos. Quando vim morar em Piracicaba, cheguei a dar aulas por dois anos no curso aqui na cidade. Eu comecei no rádio em Rio Claro, com idade entre 14 e 15 anos. Aos 18 anos, já trabalhava em Rio Claro e em Araras na rádio, época em que fiquei sabendo da instalação da Rádio Manchete, em São Paulo. Fiz um teste, fui aprovado e mudei para São Paulo em 1980. Trabalhei muito tempo em São Paulo, fui Comunicador na Rádio Capital, na Rádio América, na TV Record, TV Bandeirantes, TV Gazeta, SBT, tive uma vida profissional muito intensa lá. Em 1986, vim trabalhar em Limeira, na Radio Jornal e me filiei, em 1992, ao PSC (Partido Social Cristão), disputei a minha primeira eleição onde fui eleito vereador. Tive um trabalho muito importante no legislativo junto à comunidade, que agradou bastante, não tenho nenhum “se não” na minha carreira política, nenhum problema. Depois que terminou o mandato, voltei para São Paulo, onde fiquei mais oito anos e depois vim a Piracicaba. E já faz 12 anos que estou aqui.

Por que mudou-se para Piracicaba?

Eu vim à cidade para auxiliar na instalação da Rádio Globo, que chegou na cidade em 2006, no prefixo de AM 910 que, na época, era Rádio Alvorada, onde fiquei por dois anos. Logo depois, lancei um programa na TV Beira Rio que se chamava Piracicaba Agora, um programa jornalístico, que começou com 30 minutos de duração e desde então eu não saí mais da televisão. Estou ininterruptamente na TV de Piracicaba há 11 anos. Primeiro, com o Piracicaba Agora. Depois, com o Opinião Geral, da TV Opinião. Depois, com o Alerta Geral, quando voltei à TV Beira Rio, e há um ano com a TVJP, em parceria com o Jornal de Piracicaba. Somos parceiros há mais de oito anos, pois sempre fazíamos propaganda do JP na TV e o jornal fazia o mesmo no impresso. Há exatos 12 meses, ampliamos a parceria e estamos com o projeto da TVJP, que é feito na redação do jornal, com minha apresentação, mas participação de toda a equipe do JP. O programa é diário, tem como pauta principal as notícias da nossa cidade. Temos procurado fazer um programa positivo, procurado dar notícias boas. Piracicaba, como toda cidade grande, tem seus problemas, mas também tem muita coisa boa e é isso que valorizamos.

O que você vê de diferente no rádio de hoje comparado à época em que você começou como locutor e apresentador? O que te motiva a seguir na televisão?

Eu não saí de um segmento para ir a outro ao longo da minha carreira. Durante muito tempo exerci funções na rádio e na TV. Estava no ar até algumas semanas atrás pela rádio Educadora em Piracicaba e agora estou afastado da TVJP. Assim que terminar o período eleitoral, estarei de volta às minhas funções na TV. Sobre as mudanças, foram muitas. Costumo dizer que foram mudanças brutais para o rádio e TV nesses últimos 40 anos. O rádio mudou bastante, pois vinha sem novidades desde o seu surgimento até a chegada da internet. A minha primeira experiência com a internet foi em um domingo, quando morreu Tim Maia. Trabalhava na Rádio Capital e nunca tinha usado a internet. Era uma coisa nova e, quando estava chegando na rádio para meu programa, alguém da minha equipe disse “Pô, você viu quem morreu? O Tim Maia…!”. Aí eu respondi: “Vou à discoteca, separar todos os discos dele para falarmos da história dele e tocar os discos”. Foi aí que veio um menino e replicou: “Tem um negócio que se chama Google. Se você procurar sobre Tim Maia, lá vai aparecer todas as informações que precisa”. Eu nunca tinha usado um buscador de internet para isso e, quando digitei, na tela toda aparecia a história dele, dos discos, das músicas, das gravadoras. Aquilo para mim foi um banho de modernidade, de futurismo. Estava tudo ali, não precisava mais garimpar nada nos arquivos. A partir deste fato, o rádio mudou muito. Em 1973, quando você queria tocar um disco, lançamento internacional, você tinha de ter amizade com aeromoça ou piloto de avião para que, quando eles voltassem do exterior, eles trouxessem um disco para você. Hoje, quando é lançado um disco em qualquer parte do mundo, é só entrar na internet que está tudo lá. E isso mudou muito o rádio, o deixou mais pleno, moderno e mais próximo da realidade. Apesar disso tudo, o que tem acontecido no rádio nestes últimos anos, até por razões econômicas, é uma coisa não só brasileira, mas de vários países mundo afora. O rádio, principalmente o AM, vem perdendo seus talentos. Hoje, não há uma emissora de rádio que tenha uma programação 24h feita na sua cidade. Existem muitas redes e em Piracicaba temos três AMs, uma só tem a programação toda local. As outras duas têm bastante programação de rede. Isso, na minha opinião, tem diminuído a qualidade dos apresentadores. Hoje, vale muito mais um apresentador que vende publicidade que aquele cara que tenha talento de microfone. Hoje, você escuta nas diversas rádios que o locutor não tem aquela qualidade que a gente gostaria de ouvir, porém, são bons vendedores e trazem as verbas necessárias para estarem no ar, em detrimento de sua qualidade. Eu, como ouvinte de rádio AM, sem falar como profissional, é lamentável ver uma situação dessa. Não há uma programação que dá vontade de você continuar ouvindo, tocam música aleatoriamente, transmitem programas sem nenhum interesse, ou são programas religiosos, enfim, não há mais aquele rádio de escutar aquela programação feita com carinho. São raras as emissoras e cidades que oferecem esse tipo de programação. O rádio, infelizmente, tem perdido muito em qualidade e criatividade, e fica muito a desejar daquilo que ele era no passado.

Você trabalhou muito tempo em São Paulo? Quem foram os comunicadores com quem você conviveu lá?

Fiquei lá por quase 18 anos e trabalhei com pessoas como Zé Bettio, Eli Correa, Sônia Abraão, Gugu Liberato, Afanasio Jazadji, Osvaldo Bettio, Luís Lopes Corrêa, uma infinidade de apresentadores. Aprendi muito com eles. Tenho um orgulho muito grande da carreira que tive e tenho em São Paulo, no rádio e na televisão, porque sempre pude aprender um pouco mais de tudo, a gente aprende todo dia. Em nossa profissão não existe um momento em que você pode dizer “eu já sei tudo!” porque cada dia é diferente do outro. Você tem que estar sempre preparado, não existe uma rotina. Por mais que você estude, você tem que estar preparado para as coisas que podem acontecer a qualquer momento. O principal para um jornalista, para um apresentador, é a leitura. É preciso ler muito, porque o vocabulário é muito importante, não pode ser pobre, e a única forma de conseguir um vocabulário rico é lendo, principalmente aquilo que você não gosta. Se você não gosta de economia, leia economia. Ler o que a gente gosta é lazer. O restante é aprendizado.

Neste mês (julho), você completou um ano na TV JP. Quais foram as maiores conquistas e dificuldades neste período?

Este período foi muito importante, de parceria com a TV Regional também. Acredito que as marcas principais foram a proximidade que a televisão criou entre o jornal e seus leitores. Os leitores estavam acostumados a folhear o jornal todos os dias e com esta parceria, além de ler o jornal, eles puderam, pela televisão, acompanhar as notícias da cidade. No início deste segundo ano, nós estamos implementando a participação dos repórteres da redação, que irão participar mais intensamente desta programação televisiva. Vamos imaginar que hoje à tarde o repórter sai para fazer uma matéria que será publicada amanhã e, à noite, em nosso programa, vamos mostrar uma breve imagem e informar quais serão os destaques no jornal do próximo dia, o que acreditamos que vai deixar o leitor mais ativo, com uma nova forma de receber as informações da cidade pelo jornal, pela internet, aplicativos, redes sociais e na televisão.

Qual foi a entrevista inesquecível que fez e por quê?

Algo inesquecível em minha carreira aconteceu em uma manhã fria. Estava no meu programa da rádio de Limeira, se não me engano em 1987, e chegou uma pessoa com uma criança, recém-nascida, que estava na lata do lixo próximo à emissora. Esta pessoa entrou no estúdio com a bebê e disse: “Olha o que estava no lixo!”. Era um neném ainda com o cordão umbilical preso à barriga e estava muito frio. Ligamos imediatamente para a polícia, já que na época não havia o Samu e nem o Resgate. Uma viatura chegou, levou a criança para o hospital e eu relatei todo o ocorrido ao vivo, emocionado, porque isso era muito semelhante a minha vida. Se minha mãe não tivesse aceitado a proposta da mulher que me deu a luz e ter me adotado, talvez meu destino ao nascer também seria a lata do lixo. Esse fato foi muito ligado às minhas origens. Aquela criança foi para o hospital e uma moça, senhora, que ouvia o rádio, procurou a justiça, o juizado de menores, e conseguiu adotar essa menina. Essa pessoa que adotou o bebê era casada e tinha um haras, com muitos cavalos de raça, mas não tinham filhos. Com a adoção da criança e com toda a comoção que o caso gerou, eles resolveram desativar o haras e passaram a abrigar filhos, como uma instituição. Não com o propósito de criar de crianças de uma forma geral, mas adotando todas elas. Chegaram a ter 18 filhos adotados nesta casa e o carinho que eles tinham com os animais foi muito maior para cuidar das crianças e tudo começou com essa menina, a Cíntia, que hoje é médica e se eu não tivesse conseguido nada no rádio (pausa para respiração profunda), só isso já teria me valido a pena a minha carreira. O fato de ter conseguido para a Cíntia uma família, de ter, indiretamente, contribuído para que aquela família passasse a cuidar de outras crianças, muda a vida da família, a vida das crianças. Existem inúmeras situações para contar e essa é apenas uma delas. Tenho muita vontade de escrever um livro com todas as histórias, não exatamente a respeito da minha vida, mas contar aquilo que vi acontecer nestes 43 anos de profissão.

Houve algum outro fato marcante na sua carreira profissional?

Aconteceu quando eu trabalhava na Rádio América e fui em uma coletiva de imprensa com o prefeito eleito de São Paulo, Jânio Quadros, logo após a apuração dos votos, quando ele venceu Fernando Henrique Cardoso na disputa para a prefeitura. Naquele encontro, ainda muito jovem, tinha apenas 20 anos, no ímpeto de um repórter jovem, pensei “vou apertar esse cara” e fiz a seguinte pergunta: “Presidente, o senhor morou na Inglaterra, com uma vida de ‘lord’ durante muitos anos. O senhor não trabalha há mais de 10 anos, como você explica morar tanto tempo na Europa, sem trabalhar, como é que o senhor vivia?”. Após a minha pergunta, ele se virou, olhou para mim, os repórteres todos pararam e olharam para ele. Jânio tirou do bolso do paletó uma carteira de cigarros, pegou um cigarro e colocou na boca. No que ele colocou o cigarro na boca, umas seis ou sete pessoas correram estender a mão com um isqueiro se oferecendo para acender o seu cigarro. Aí, veio a seguinte frase: “Está respondida a sua pergunta, meu jovem repórter?”. Ou seja, bastava ele insinuar que ele queria alguma coisa que sempre aparecia alguém disposto a ofertar. Se ele dissesse que gostaria de morar na França, aparecia rapidamente alguém oferecendo um lugar para ele viver lá, por exemplo. Foi uma lição de vida, ficou marcado em minha carreira.

Quem gostaria de ter a oportunidade de entrevistar e por quê?

Silvio Santos. Eu acredito que ele é o maior Comunicador brasileiro. O Silvio Santos tem a capacidade de transformar um entrevistado que não fala nada, ou é monossilábico, em tirar frases completas, tirar aquilo que ele precisa para uma boa entrevista. Ele transforma algo simples em uma atração forte, importante. Ele é o grande nome da comunicação. Trabalhei com tanta gente famosa, muito tempo com artistas do SBT, como o Gugu, Wagner Montes, Ary Toledo, Carlos Alberto de Nóbrega, mas nunca tive a chance de nem ver o Sílvio Santos pessoalmente, nem conversar com ele. Entrevistei pessoas maravilhosas. Talvez, a minha melhor entrevista do rádio tenha sido com Chico Anísio, foi fantástico. Foi na Rádio América.

Atualmente, você também é empresário no ramo da gastronomia, correto?

Minha esposa e eu sempre quisemos ter alguma atividade que não fosse a minha de Comunicador e a dela na iniciativa privada, quando resolvemos que iríamos abrir um comércio, mas sem saber em qual setor. Me lembro que em um domingo, lendo a página de gastronomia do Estadão, vi um bar em São Paulo que estava fazendo sucesso vendendo pão com linguiça e chopp. Pensei que essa poderia ser uma boa ideia para Piracicaba. Fiz uma pesquisa de campo na cidade, vi que havia espaço e aí abrimos o Maria Linguiça, que nada mais é que um bar e restaurante onde vendemos diversos tipos de linguiça, como a caipira e artesanais, além de porções variadas, frango a passarinho, leitoa à pururuca, moela, fígado acebolado, entre outras coisas, e vem dando certo. Até as cinco horas da tarde, eu sou jornalista. Depois das cinco, eu “viro linguiça” (risos). É bem interessante esse trabalho. Está sendo muito gostoso e motivador entrar neste novo ramo de atividade. Estou aprendendo cada dia mais sobre gastronomia. (Colaborou Sabrina Franzol)

 

(Felipe Poleti)