Consumismo mental

Francisco Ometto Júnior

Numa viagem de avião, toda vez que os comissários repassam os procedimentos de segurança antes da decolagem, ouvimos a frase: “em caso de despressurização, máscaras cairão automaticamente”. Até aí tudo bem, mas o grande ensinamento vem em seguida, quando eles dizem: “primeiro coloque a máscara em você para depois ajudar os demais”.

Daí extraímos uma excepcional analogia. Nada vai funcionar para uma pessoa se ela não estiver acertada com ela mesma. Não existe sucesso num relacionamento a dois quando existem “metades” a serem completadas e, por isso, a expressão “tampa da panela” é pura ilusão. O que faz um relacionamento ter sucesso é a união de duas pessoas completas, resolvidas, de bem com elas mesmas. Não haverá uma carreira de sucesso para uma pessoa de alto QI e um baixo QE, ou seja, uma pessoa de alto potencial técnico e acadêmico, entretanto, com dificuldades em gerir suas emoções, se autoconhecer e se relacionar.

Estatísticas cruéis de doenças emocionais estampam os noticiários. Estudos apontam incidência de 70% de ansiosos no planeta. Quanto ao suicídio, os números são ainda piores: a cada quatro segundos uma pessoa tira a própria vida. Depressão, a doença do século. Nos próximos anos, uma em cada duas pessoas terão algum problema emocional. Enfim, o quadro realmente é caótico e, infelizmente, a humanidade insiste em dar “carga” a esse cenário. Órgãos governamentais precisam dar mais atenção a este tema. A humanidade, por sua vez, está buscando cada vez mais o externo, o material. A ciência avança, a medicina é uma das mais modernas; estamos ligados na tecnologia; as cirurgias plásticas aumentam a cada dia. Uma criança tem mais informação hoje do que um imperador romano tinha no passado, entretanto, a cada dia sabemos menos de nós mesmos. Congestionamos nossas mentes com o que não precisamos e nos abandonamos cada vez mais. Autoconhecimento é apenas coisa de filósofo, gestão emocional é bobagem, depressão é coisa de gente rica, problema emocional é frescura, terapia é coisa de gente louca. O fato é que, enquanto o preconceito e a falta de conhecimento neste assunto persistir, aquelas estatísticas que citei e outras mais vão continuar avançando, negativamente, pois, como disse Freud, “sofremos porque somos estranhos a nós mesmos”.

Temos em nossa mente várias “caixas” que toleram apenas o que está no nosso controle. Elas foram criadas para isso. Quando nos deixamos de lado e “compramos” o que não é nosso, o que não precisamos efetivamente, ou quando tentamos controlar o que já não está mais na nossa alçada, estas caixas começam a “transbordar” e “dividem” o problema com o físico. E é exatamente aí que aparecem os sintomas: dores na cabeça e pelo corpo, sentimento de acordar cansado, irritabilidade e as mais variadas doenças. Sim, doenças físicas que vão das mais simples ao câncer.

A filosofia e mais precisamente o estoicismo nos ensinam muito sobre isso. Trata-se de um tema poderoso e complexo que trabalho com meus pacientes e nas consultorias e que traz resultados práticos e espetaculares. A maioria absoluta do sofrimento que há no mundo e as consequentes doenças emocionais e físicas tem suas causas na falta da compreensão e da aplicação desta ferramenta.

Quando a mente não consegue resolver algum problema, ela o divide com o corpo, que, aos poucos, o transforma em doença. “A vida não examinada não vale a pena ser vivida”. (Sócrates)