Contradições e paradoxos humanos

A existência humana se apresenta cheia de contradições e paradoxos, os quais desafiam nossa compreensão, pois mostramo-nos muitas vezes distantes do equilíbrio e da coerência que nos seriam ideais.
 
Inúmeras situações do cotidiano podem exemplificar essa realidade: as pessoas gastam cada vez mais dinheiro para ter comodidades e se poupar de esforços e depois pagam para fazer exercícios em academias; comem produtos alimentícios pobres em nutrientes e cheios de aditivos químicos e depois consomem suplementos e vitaminas; intoxicam-se de todas as formas possíveis para, em seguida, recorrerem aos chamados detox. No âmbito social, criticam os políticos e administradores públicos ao mesmo tempo que não recusam oportunidades de receber vantagens, mesmo que com isso prejudiquem o interesse alheio.
 
Além desses aspectos, não raro negligenciamos o cultivo espiritual, o exercício da fé e da comunhão com a fonte da vida e, nos momentos de provações e desafios que chegam para todos, corremos em busca de ajuda, muitas vezes esperando e exigindo soluções miraculosas que possam compensar a ausência de empenho, cultivo e vivência espirituais.
Vivemos frequentemente mergulhados em conflitos, vícios e interesses egoístas, e, nos momentos de crises de consciência ansiamos pela luz, pela graça, pelo perdão dos nossos “pecados”.
 
Na vida diária, cheia de interesses imediatistas e superficiais, não demonstramos a necessária dedicação à compreensão e vivência das leis que regem a vida, e quando os momentos difíceis nos alcançam — o que é inevitável — muitas vezes nos revoltamos e procuramos culpados para fugir à responsabilidade pelo rumo da nossa vida.
 
Frequentemente nos esquecemos das instruções espirituais disponíveis à humanidade, como a que afirma que o reino de Deus está dentro de nós, e continuamos a buscar soluções, respostas e milagres no mundo exterior, nos templos de pedra e nas formalidades da religião convencional, longe do santuário interior, o da alma.
 
Mesmo quando frequentamos reuniões dedicadas ao cultivo espiritual, onde ouvimos belas exortações às mais elevadas qualidades do espírito, ao deixarmos os cultos geralmente voltamos a manifestar as mesmas atitudes impulsivas, agressivas, corruptas e egocêntricas, como se fosse possível restringir a prática religiosa ao espaço entre as paredes de um templo. Eis alguns aspectos ilustrativos da incoerência humana.
 
Mas, seguramente é possível ir além dessas contradições, quando existe uma verdadeira e sincera busca do sentido profundo da existência, quando se passa a viver de modo mais integrado, pois passa-se a compreender que o equilíbrio e a sanidade dependem de uma vivência lúcida, consciente e coerente, integrando e curando os aspectos da existência que se mostrem desajustados ou disfuncionais. Nesse processo, a partir do enfrentamento e da superação das contradições humanas, e da consequente conquista da harmonia interior, talvez se possa experimentar o que seja uma vida plena de sentido.