Contratação “às escuras” é nova tendência

A área de seleção e recrutamento vive em constante mudança. Uma tendência do setor é o recrutamento às escuras. Nesse tipo de seleção, os recrutadores desconhecem informações pessoais, como sexo e cor da pele, idade, estado civil ou formação profissional. É empregado em organizações que procuram alto rendimento e maior diversidade no quadro de pessoal. O candidato faz testes e, se passar, faz uma entrevista presencial. A intenção é escolher o melhor candidato para a vaga, sem considerar cor da pele, gênero ou orientação sexual. É muito comum no continente europeu e começa a ganhar espaço no Brasil.
 
Na opinião da consultora de Desenvolvimento Humano Audrey Barretti, docente do Senac, a contratação às cegas pode, sim, ser implantada em Piracicaba. “Desde que a empresa esteja preparada culturalmente para a quebra de paradigmas, suporte esta nova operação com uma estrutura sistêmica bem elaborada como, por exemplo, uma plataforma tecnológica voltada para este novo processo de seleção e uma equipe de Recursos Humanos e gestores treinados previamente para atuar neste novo modelo, acredito que o crescimento em Piracicaba é só uma questão de tempo”, afirmou.
 
Antigamente, as contratações eram feitas no “olho no olho”. “Hoje, as empresas entendem que um time de alta performance deve ser constituído por pessoas diferentes com aptidões e capacidades diversificadas, assim fica muito mais fácil alcançar os objetivos propostos pela organização. E para que isto ocorra, os melhores candidatos podem não estar no mesmo raio de localização da empresa. Isto significa que quando os currículos são enviados por e-mail ou pelos sites nas plataformas de RH, candidatos das mais diversas regiões do pais ou até mesmo fora dele podem candidatar-se a uma vaga, sem altos custos de locomoção ou estadia, tanto para a empresa quanto para o próprio candidato”, avaliou Audrey.
 
A gestora de Recursos Humanos Marisa Matavelli também acredita que haja campo para esse tipo de contratação na cidade. “O mercado de trabalho está em constante mudança. Quando falamos em contratação de talentos, empresas e organizações buscam pessoas que podem e fazem a diferença em seus negócios. Piracicaba é um grande polo industrial, onde a tecnologia avançada está presente e, consequentemente, se faz necessário a busca constante por profissionais com capacitações técnicas elevadas. A seleção às ‘cegas‘ traz a possibilidade de avaliar os candidatos e identificar qual é o nível de conhecimento frente aos requisitos técnicos do cargo, mas não elimina as demais etapas do processo seletivo, onde verifica diversos outros fatores, principalmente se o candidato se adaptará a cultura da empresa, por exemplo”, esclareceu Marisa.
 
A consultora empresarial Patrícia Santos, da empresa Despertar Desenvolvimento, e docente no curso de Gestão de Pessoas na Faculdade de Americana, acredita que o recrutamento às cegas é uma nova tendência, mas, devido à cultura de algumas empresas, acredita que se torne inviável. “Porque o processo seletivo vai além da triagem do currículo, ele se encerra após a adaptação do candidato na empresa que o contratou”, explicou.
 
Segundo Patrícia, processos de triagens repetitivos e manuais e entrevistas sem fim não terão mais espaço e os recrutadores têm consciência de que os métodos tradicionais de entrevista são ineficazes. “Não necessariamente porque ficaram ultrapassadas, mas porque atualmente, encontrar talentos é parte estratégica para as empresas. Neste sentido, a tecnologia nos ajuda na filtragem dos currículos, na seleção, como por exemplo, pelo LinkedIn e Skype”, explicou a consultora empresarial. 
 
“Mas contratar sem criar uma identidade ao candidato não elimina os desafios que ele vai enfrentar no seu dia a dia. Não acredito que este seja o caminho para implantar a diversidade e ter uma equipe de alta performance, o processo precisa ser realizado com foco nas competências e, principalmente, por recrutadores preparados, que respeitem os valores tanto do candidato como os da empresa que o contrata, pois se os colaboradores não se engajarem e não se sentirem aceitos, acabam deixando o trabalho”, considerou Patrícia.
 
 
REFLEXOS — Esta nova modalidade pode ter reflexos no mercado. “Acredito que o mercado de trabalho só tem a ganhar com este novo modelo de seleção. Temos excelentes profissionais que, muitas vezes, por causa do processo subjetivo da entrevista, num primeiro momento, não conseguem demonstrar toda sua capacidade, até por que todos os candidatos são envolvidos por algum aspecto emocional neste contexto, o que acaba muitas vezes por prejudicá-lo. Na contratação às cegas, o candidato tem mais chances de demonstrar do que é capaz, uma vez que a maioria deste processo ocorre à distância, num ambiente mais propício para eliminar tais inseguranças, como o conforto de sua própria casa. Outro aspecto relevante que vem a ser uma grande vantagem é o fato de que as pessoas acabam entrando num processo de equidade; neste tipo de contratação todos são iguais, o que vai prevalecer é o talento do indivíduo”, considera Audrey Barretti.
 
Para Marisa Matavelli, a maior consequência para o mercado de trabalho é a absorção de profissionais bem preparados, mas que estão há muito tempo fora do mercado, por questões de pré-conceitos. “Em nossa consultoria, trabalhamos com vagas onde as exigências de capacitação técnica são elevadas. Nestes casos, a primeira etapa do processo seletivo são testes e avaliações on-line, somente nas próximas etapas, quando o candidato já atingiu o resultado desejado, avançamos com entrevista on-line ou presencial”, falou Marisa.
 
Para Patrícia Santos, esse tipo de seleção pode até trazer alguns benefícios, como otimização do tempo e custos na contratação. “Mas não exclui os benefícios das técnicas, como, por exemplo, de testes situacionais, em que o candidato é exposto a uma situação nada convencional para expressar o seu ‘eu’. É isso que queremos extrair num processo seletivo, chegar mais próximo possível das tendências de comportamento dos candidatos, porque, infelizmente, segundo pesquisa da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos), 90% dos brasileiros são demitidos por comportamento”, avaliou Patrícia.