‘Correr e coletar’

A prática de unir o útil ao essencial – esporte e limpeza do meio ambiente-, o plogging tem ganhado adeptos mundo afora

Você já ouviu falar de plogging? Essa tendência sustentável está fazendo cada vez mais sucesso entre os esportistas e consiste em recolher lixo do caminho durante a prática de corrida ou caminhada.
Criado pelo ambientalista sueco, Erik Ahlström, o termo é um neologismo que associa as palavras “picking up” (coletar, recolher) e “jogging “(correr). A palavra foi citada pela primeira vez em 2017, quando Erik organizou um grupo no Facebook com o intuito de disseminar a ideia, e de lá pra cá a prática tem ganhado inúmeros adeptos no mundo todo, inclusive no Brasil, que postam as fotos de suas coletas nas redes sociais com a hashtag #plogging.
Uma grande vantagem é que, além de ajudar o meio ambiente, devido aos agachamentos que geralmente são feitos para a coleta, a intensidade do exercício praticado aumenta com o plogging, e o gasto calórico pode chegar até a 300 calorias a cada meia hora.
A fisioterapeuta Maura Rigoldi da Rocha é uma das adeptas da prática em Piracicaba, e acabou por criar também um grupo para organizar mutirões que unem a prática de esportes ao cuidado com a natureza: o “Pira no Plogging”, que conta com página no Facebook para compartilhamento das ações.
Maura conta que tudo começou quando se mudou para a região próxima à Esalq e passou a realizar caminhadas no entorno. “Comecei a ficar incomodada com o tanto de lixo que encontrava no trajeto, e passei a coletar o que encontrava. Como sigo várias páginas nas redes sociais relacionadas ao meio ambiente e à sustentabilidade, li sobre essa ação, e que muitas pessoas vinham aderindo a sua prática”, relembra. “Conforme realizava o plogging, as pessoas me observavam e algumas me parabenizavam pela iniciativa. Percebo que muitos, assim como eu, estão incomodados com as atitudes de outros em relação ao descarte indiscriminado do lixo e que, até então, nem sabiam que poderiam também fazer algo para mudar essa questão”.
O grupo realiza encontros pontuais em vários locais da cidade já receberam a limpeza por parte dos corredores e algumas parcerias produtivas foram firmadas. O 6º Arrastão Ecológico promovido pela Aperp (Associação dos Pescadores Esportivos do Rio Piracicaba) é uma delas. O evento ocorreu no último mês de março e, com a ajuda do Pira no Plogging, foram retirados 900 quilos de lixo das margens do Rio Piracicaba.
A Esalq também está unida ao grupo em um projeto que visa auxiliar na educação ambiental dos seus alunos e contribuir para a conscientização da população que utiliza o espaço da instituição como área de lazer e esporte. “O principal objetivo é que as pessoas vejam que podem realizar essa ação, cada um no seu bairro, no seu trajeto para o trabalho ou para sua prática de atividade física, pois se cada um fizer a sua parte, a parte toda será feita”, diz Maura.
A fisioterapeuta ainda destaca que para começar a praticar o plogging basta força de vontade, luvas e saco plástico. E aí, que tal ajudar o meio ambiente e ainda perder aqueles quilinhos que estão sobrando?

LIMPEZA NA TERRA E NO MAR
Em 2018 o Fórum Econômico Mundial fez uma previsão de que, até 2050, haverá mais plástico que peixes nos oceanos. Apenas uma das inúmeras e tristes constatações sobre a perda de saúde dos oceanos. Um milhão de aves marinhas e mais de 100 mil mamíferos marinhos morrem anualmente por algum tipo de contato com o plástico.
Diante de dados tão alarmantes, voluntários e amantes da vida aquática também têm se reunido ao redor do planeta com ações de limpeza no fundo do mar e da vida do meio ambiente marinho.
Ao menos 5 trilhões de materiais plásticos estão flutuando nos oceanos, de acordo com pesquisadores britânicos. O anúncio feito em fevereiro deste ano, também denunciou a descoberta de micropartículas de plástico no intestino de animais que habitam algumas das regiões oceânicas mais profundas da Terra, comprovando que a poluição humana não se limita à superfície dos mares e já atingiu os locais mais inacessíveis do planeta.
As pesquisas demonstraram que a contaminação por plástico é generalizada tanto em peixes quanto em tartarugas, baleias e pássaros marítimos. O estudo foi publicado no Royal Society Open Science.
Entre todos os animais coletados nas seis regiões avaliadas pelos pesquisadores, 72% haviam ingerido ao menos uma micropartícula de plástico. “Parte de mim estava esperando encontrar alguma coisa, mas essa descoberta foi enorme”, disse Alan Jamieson, da Universidade de Newcastle.

 

DO LIXO A DIVERSÃO
Fernanda Meucci é engenheira e proprietária da Innova Engenharia. A profissional sempre teve o sonho de usar a área em prol da sociedade, e a oportunidade surgiu no Rio de Janeiro, em um local próximo ao Morro do São João, na Zona Norte da cidade.
Em uma das encostas do morro ficava localizado um espaço de descarte de lixo utilizado pelos moradores. A céu aberto e sem nenhum tratamento, o lugar se assemelhava a um lixão. “Em um passeio no morro, para conhecer os moradores e suas condições, detectei um grande problema de saneamento básico que todos ali enfrentam. Eu não podia ajudar a todos, e também não achei justo resolver o problema de apenas uma família, então pensei numa forma de trabalho que pudesse mudar um pouco da vida de todos que vivem ali”, conta.
Foi pensando assim que Fernanda decidiu dispensar esforços para limpar o local e transformá-lo em possibilidade de entretenimento para as crianças. Surgiu, então, o projeto de um parquinho.
Prestadores de serviço disponibilizaram a mão de obra de forma gratuita e brinquedos e mesas foram instalados no espaço, que foi inaugurado no mês passado, abril, com grande receptividade da população. “Toda a limpeza e saneamento básico do local foram feitos junto ao trabalho de conscientização dos moradores, ensinando-os a cuidar melhor do lugar onde vivem”, explica a engenheira. “Ao fazer a diferença positivamente na vida de crianças, estamos influenciando nos adultos que elas serão amanhã, e na forma com que elas tratarão o próximo. O mundo muda com o nosso exemplo”.