Criança tem estresse?

O estresse é a reação do organismo diante de situações difíceis e ou muito excitantes, que pode manifestar sintomas físicos e emocionais (psicológicos), e pode ocorrer a qualquer indivíduo em qualquer idade e fase da vida, por diversas causas e motivos.

Quando acomete a criança, é muito comum os pais não conseguirem, num primeiro momento, identificar os sintomas como de estresse. No caso da criança por não conseguir entender exatamente o que esta sentindo e não conseguir verbalizar essa situação de cansaço e esgotamento, às vezes é considerada pelos adultos como uma criança malcriada, birrenta, desobediente e chorona. No entanto, essas reações podem estar vinculadas ao estresse excessivo.

SINTOMAS

Os sintomas físicos comuns são: dor de barriga, diarreia crônica, tique nervoso, dor de cabeça, náusea, hiperatividade, enurese noturna, gagueira, tensão muscular, ranger os dentes, falta de apetite, mãos frias e suadas.

Já os sintomas psicológicos comuns são o terror noturno, introversão súbita, medo ou choro excessivo, agressividade, impaciência, pesadelos, ansiedade, dificuldades interpessoais, inseguranças, hipersensibilidade, insônia e estender–se para demais quadros psicológicos.

A psicóloga e psicanalista Ana Carolina Carvalho Pascoalete reforça que é importante evidenciar que nenhum desses sintomas isolados podem ser interpretados como estresse infantil. “É importante descartar por meio de investigação médica se a criança está algum problema biológico de saúde e, somente após constatado um quadro de boa saúde física e descartadas possibilidade biológicas, observar se vários desses sintomas ocorrem juntos e se no contexto de vida da criança há possibilidades dela estar vivenciando um momento de estresse”, informa.

Ana Carolina explica que na clínica psicológica são realizados testes que auxiliam o diagnóstico como a escala do estresse infantil agrupados a fatores como reações físicas, psicológicas, reações psicológicas com componente depressivo e reações psicofisiológicas que ajudam na identificação do diagnóstico.

TRATAMENTO

“No caso de confirmação é preciso iniciar o tratamento imediatamente, pois o estresse prolongado pode levar a uma série de comprometimentos psíquicos e dificuldades de adaptação, nos diversos setores de convivência da criança, principalmente na escola, e ainda dificultar o desenvolvimento de recursos para lidar com situações de tensão, podendo torna-se um adulto com vulnerabilidade ao estresse”, ressalta.

Nos adultos é comum o estresse ser frequentemente estimulado/causado por atividades em excesso. Nas crianças, ele pode se assemelhar a pressão das atividades escolares, por aprovação nas notas e frente ao período pré-vestibular e pela cobrança frente à vida acadêmica. Também é possível  identificar o estresse infantil em casos de morte na família; brigas constantes entre os pais, violência doméstica, nascimento de irmãos, separação dos pais, mudanças de cidade, escola ou país, escolas com professores inadequados ou demais profissionais despreparados, rejeição entre colegas da escola, exigência exagerada de desempenho escolar e esportivo, responsabilidade e atividades em excesso, viagens longas, doenças e hospitalizações.

“Nessas situações a criança não apresenta maturidade o suficiente para o enfrentamento, pois geralmente repercute de maneira impactante, com mudanças na rotina, hábitos. Nesses casos promover situações que estimulem familiaridade, tranquilidade, sensações prazerosas que se assemelham a bons momentos que tragam boas recordações, ajudam a reduzir o impacto”, garante a psicóloga.

COMO EVITAR

Para evitar que as crianças tenham momentos de excessivo estresse, quando possível, diminua as atividades, programações de compromissos e responsabilidades e deixe que os filhos tenham momentos para se distrair, brincar, pois por meio de atividades lúdicas e livres, as crianças desenvolvem habilidades suficientes para sair dessas situações. “Os pais precisam aprender a respeitar os desejos dos seus filhos, claro que com coerência, e evitar imposições as escolhas adultas, simplesmente por julgarem ser as melhores. O equilíbrio é muito importante para que ambas as partes (pais e filhos) sintam aliviados, relaxadas e felizes”.

Uma dica bastante significativa é estimular a prática esportiva precoce (sem cobranças), pois foram identificados que crianças que praticam esportes desde cedo apresentam menor possibilidade de vivenciarem estresse excessivo. Para ajudar as crianças a superarem esse momento de estresse excessivo, é importante que os pais, tutores e ou educadores tentem identificar o que esta estressando a criança, e se possível, diminuir a pressão que a criança esta vivenciando. “A criança não deve ser poupada demasiadamente, pois o excesso de proteção inibe que ela desenvolva recursos para enfrentamentos adequados, que serão exigidos dela em diversos momentos da vida e inclusive em possíveis situações que possam promover o estresse”, ressalta Ana Carolina.

O estresse deve ser proporcional a idade cronológica e ao período de amadurecimento da criança e cada caso deve ser avaliado em sua individualidade e subjetividade, pois cada criança tem sua personalidade aliada às próprias experiências e histórias de vida singulares. É necessário compreender o caso profundamente e cuidadosamente, para orientações e mediações mais específicas.

“Costumo fazer uma reflexão muito importante sempre que recebo uma criança ou adolescente passando por um período de forte estresse. É comum que os pais queiram o melhor para seus filhos, principalmente em uma sociedade competitiva como a nossa, mas exagerar nas responsabilidades e atividades sugeridas para a rotina de um criança ou adolescente precisa ser pensando e ponderado, para que algo que possa ser saudável não se torne patológico na vida do filho”.

Ana Carolina alerta que cabe a família estar sempre atenta aos comportamentos dos filhos. Os pais precisam estar abertos a ouvirem o que os filhos têm a dizer, porque esse é o melhor caminho para criar um canal de diálogo livre e evitar que os filhos, por necessidade de agradar os pais ou achar que não têm escolhas, possam adoecer. Assim a família que promove uma atenção aos comportamentos dos filhos, tende a conseguir um adequado estilo de vida, integrando todas as necessidades de maneira saudável.