Da falta que me fazes

De tudo o que me tem ensinado Francisco, o Papa, trago na memória lição que se mostra outra vez quando alguma data me chama a visitar o campo santo. Por que ter em mãos flores para a visitação mesmo sabendo que povoam o espaço e ali nada mais há que a lembrança doída do instante final?

Faço isto ao lado dos meus num ritual que se repete há anos, não sem remexer lembranças, muitas que retomam a delícia dos dias em que, juntos, poucos, é bem verdade, alguns acinzentados, doídos, pesados, outros, ensolarados, enriquecidos pela alegria e contação de histórias que nos punham a par de sua origem, dos seus tempos de escola, deram-nos a dimensão da tua grandeza e da tua luz.

Naquelas conversas de início de tarde quanto aprendemos de sua formação marcada pela ausência dos pais, pela enriquecedora presença da mãe, postiça, mas natural, verdadeira, amiga. Bem-vindos seus pais, bem-vinda a avó, verdadeira mãe da mãe verdadeira! Bem-vinda, tu, Bemvinda, cuja falta se acentua tanto e mais quando alguma dor nova ameaça os dias e atravessa o peito insistindo em contar que as noites se acumulam, que estou vivo e não sonho.

Resta-nos teu mausoléu. Minhas irmãs, pacientemente, fazem o recorrido. Avançam nas ruas estreitas e arborizadas do cemitério, à procura de quem, ao longo dos anos, nos ensinou vida. Eu as espero, calado, próximo da entrada, onde, com tuas mães, teu pai, te sepultei. Ali, onde fico agora, à espera, vejo a pedra fria que cobre o que resta de ti sabendo que tens próximo duas senhoras que me fez os dias mais azuis e muito mais felizes, em especial depois da separação que tua morte impôs. Num dos túmulos, Cida Bilac, a poetisa, a professora amada. Noutro, quase em frente uma da outra como a trocarem assuntos em que eu possa figurar, Diva Ladislau, a quem pude acompanhar na velhice ouvindo outras tantas histórias que me ajudaram a entender aquelas, contadas por ti, minha mãe, nos tempos em que a cidade crescia de um jeito bom, casas entre bananeiras, pomar, amor e cantar.

Minha mãe, ah, minha mãe quanto te alegravam as flores que compunham presentes em datas como esta, nos poucos anos em que estivemos juntos! Quanto repetia do prazer sentido em ter, nos filhos, quatro seres que faziam teus dias, este, tanto amor envolvido no espaço e na vida que construíste!

Em mim, sempre, os poemas de Miguel Torga e Florbela Espanca que conheci contigo, belos e doídos textos, reveladores de iguais momentos  aos que vivi um dia quando da tua separação, da tua despedida. Nada me impede de bendizer-te: “Bendita seja a Mãe que te gerou. Bendito o leite que te fez crescer. Bendito o berço aonde te embalou”. Bendita esta canção que acalentou tua vida o doce alvorecer!

Entrego-te a flor.

Onde? Como?

Quantas?

Muitas. Chegam envoltas nas palavras de respeito,
de carinho e amor.

A ti, minha mãe, e a tantas outras que na paz descansam, entrego também o amor.

Como? No desenho da flor.