Da polícia militar para a política

De espaços antes dominados por homens, cel. Adriana não esconde o desejo de alçar voos mais altos na política. (Augusto Rover)

A ex-policial militar e atual vereadora de Piracicaba, Adriana Cristina Sgrigneiro Nunes é piracicabana nascida em 11 de outubro de 1967, filha do casal José e Teresa. Ela é irmã da policial militar Gislene, do empresário Cristiano e de Douglas, técnico em logística. A palavra desafio sempre fez parte de sua vida, que aos 11 anos de idade ingressou na Guarda Mirim, trabalhou na iniciativa privada, até entrar para a Polícia Militar, em 1988.

Neste universo quase que totalmente masculino, ela estudou, se aperfeiçoou e prestou serviços até 2017, quando optou pela carreira política. Eleita com mais de dois mil votos, a vereadora Coronel Adriana segue enfrentando os desafios.

Casada com o tenente coronel Horácio, comandante do 19ª Batalhão da Polícia Militar do Interior, em Americana, ela é mãe de Carolina, 14, e de Mariana, 32.

Enquanto policial, recebeu prêmios, condecorações e homenagens pelo desempenho ao longo dos 30 anos na Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Com formação acadêmica em direito e mestre em ciências policiais e da ordem pública, ela deixou a dedicação à carreira militar para servir, como parlamentar, a sociedade civil de Piracicaba.

Nesta entrevista ao Persona, Coronel Adriana conta como e porque decidiu optar pela política e fala também dos desafios que a cidade de Piracicaba enfrenta no dia a dia.

Por que a senhora escolheu a carreira militar e por quanto tempo atuou como policial?

Sou de uma família muito humilde, trabalho desde pequena. Aos 11 anos entrei na Guarda Mirim, onde prestei serviços no Serviço Odontológico Municipal, na Siderúrgica Dedini e outros. Saí da Guardinha e trabalhei em diversos outros lugares, inclusive como doméstica, mas sempre estudando à noite, sou muito ‘cdf’. Em 1986, trabalhava como caixa, na Usina Costa Pinto e soube do concurso para soldados da Polícia Militar, me inscrevi, estudei muito e passei. Comecei o curso em Campinas, no CPAI2, em outubro de 1987. Me formei em 1988, em primeiro lugar – a classificação por mérito intelectual é muito importante para os militares, define inclusive onde vamos trabalhar. Não havia nenhum militar na minha família. Foi uma oportunidade de melhoria salarial que se apresentou, pois na PM iria ganhar seis vezes mais do que recebia na usina. Tempos bem diferentes dos atuais em que um soldado da PM em início de carreira mal ganha três salários mínimos. Fiquei na PM por 30 anos.

  Quando e por que a senhora decidiu entrar para a política?  Uma carreira anula a outra?

Nunca cogitei seguir essa carreira. Nós militares sempre fomos legalistas e apolíticos em especial os que optaram pelo Oficialato, a PM sempre nos doutrinou assim. Em 2012, fui convidada pela primeira vez a entrar na política pelo prefeito Barjas Negri, que conversou não só comigo, mas com meu comandante à época, que me estimulou e garantiu que se me candidatasse não seria transferida para “dois palmos” no mapa do Estado, como era comum acontecer com os Oficiais. Acredito que fui convidada em razão de, ser mulher, estar na função de coordenadora operacional do 10º BPMI e ter um trabalho bastante profícuo no combate à criminalidade no município. E assim me candidatei ao cargo de vereadora pelo PSDB e obtive cerca de 1100 votos, insuficientes para ser eleita. Uma carreira não deveria anular a outra. Mas por força de norma interna, todos os policiais militares eleitos são obrigados a passar para a inatividade. É a única carreira que faz tal exigência a seus colaboradores. Sob minha ótica poderia ser exercida conjuntamente, pois quem melhor do que aquele responsável pela fiscalização e aplicação e das leis para atuar como legislador do que policiais?

Quando a senhora entrou para a Câmara de Vereadores enfrentou algum tipo de preconceito ou resistência por ser mulher, ou a sua atuação como militar, de certa forma inibiu esse tipo de situação?

A condição de policial militar, em especial de oficial de alta patente sempre é um facilitador. Ela impõe limites não só para mim, mas também para aqueles que possam pensar em ultrapassar a linha limítrofe do respeito, porque sabem que nós militares não deixamos nunca de imputar a responsabilidade por atos ilegais a quem quer que seja. Por ter sido “criada” no meio militar, essencialmente masculino, nunca tive problemas para obter o espaço que me cabe e na Câmara não foi diferente

Recentemente, durante visita a uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) a senhora flagrou algumas irregularidades, o que a senhora constatou?

Problemas graves de gestão, assim como em várias outras visitas que fiz em diversos locais. Verifiquei que os meios materiais e humanos existem, mas que, como boa parte do serviço público, não surte o resultado esperado. Isso denota falta de estabelecimento de padrões, de planejamento, com estabelecimento de objetivos e metas claras desdobradas para os colaboradores de todos os níveis, além da falta de cobrança de resultados, de motivação e da fiscalização em vários serviços. Falta rodar o ciclo PDCA na administração municipal. Sem se utilizar de ferramentas de gestão e qualidade, a administração fica míope e gasta demais para obter resultados ruins.

Em sua avaliação, isso mostra um descaso com a população que utiliza a rede pública na cidade?

Sim, pois falamos de equipes que estão há anos realizando as mesmas missões, sob a mesma supervisão e gestão e que, somente por isso, erros crassos como plantonistas deixarem seus plantões no dia que sabidamente é o mais movimentado, não deveriam mais ocorrer. Na PM empregamos os meios nos locais e horários mais prioritários, fiscalizamos para que o serviço saia conforme o planejado, ninguém sai sem saber o que tem que fazer e nem como fará, simples assim.

Qual foi a sua atitude diante dessa constatação?

Contatei com o Secretário da Pasta por duas vezes, lhe informei dos fatos e pedi solução, Após algum tempo o Coordenador da UPA chegou, me mostrou as estatísticas e saneou o problema, sendo retomado o atendimento ao público com 100% da capacidade. 

Como vereadora, quais as principais carências da cidade, em sua opinião?

Para mim é uma equipe especializada em gestão de projetos para melhorar a qualidade das licitações e a fiscalização dos caros serviços públicos para evitar que plantonistas abandonem seus plantões e deixem a população sem atendimento nas UPA, para evitar invasão de áreas de preservação permanente e formação de favelas, para evitar loteamentos irregulares em especial na zonas rurais que acabam com mananciais, para evitar despejo irregular de esgoto como ocorre até hoje na lagoa do São Francisco, para evitar recapeamentos e operações tapa buraco que não duram nada e não resolvem, pois andar de carro na ruas da cidade é o mesmo que andar a cavalo, para evitar que obras como a da UBS da Av. Raposo Tavares sejam construídas com problemas graves de engenharia e que fazem com que quando chove a água se infiltre e um local para cuidar da saúde tenha umidade, pra evitar que ruas recém recapeadas sejam esburacadas pelo Semae, para evitar a instalação de loteamentos sem rede de drenagem de águas pluviais, para evitar que quando do recape e consertos do asfalto os bueiros fiquem desnivelados, para evitar que grandes bocas de lobo sejam instaladas sem as grades de proteção a fim de evitar que uma pessoa arrastada por uma enxurrada e acabe morrendo afogada na rede de esgotos, etc.

Oposição ao governo,  situação, como a senhora se define enquanto parlamentar?

Eu voto conforme a legalidade dos projetos e sempre me posiciono quanto a isso, quer a CLJR ou no plenário. O que eu quero é que a cidade seja ordeira e boa para todos.

No momento em que muito se fala de empoderamento da mulher e por ter construído uma carreira militar, ambiente no qual o homem é maioria, como a senhora avalia a participação da mulher na política de Piracicaba?

Pode melhorar, porém acredito muito na individualidade e na meritocracia. As oportunidades existem e estão aí para todos. Tem mais sucesso aquele ou aquela que tem maior capacidade de vislumbrar e de aproveitar o que se apresenta e tudo aquilo que conseguimos por mérito pessoal tem mais valor, só que para isso é preciso ter aquilo que chamamos de coragem para sair de sua zona de conforto e vir para a batalha, porque não é fácil, requer dedicação e muito foco.

No próximo ano teremos eleições municipais. A senhora pretende tentar a reeleição? Ou pretende disputar a prefeitura de Piracicaba?

Acredito que todo bom profissional que ingressa numa carreira vislumbra seu crescimento, essa deve ser a ordem natural das coisas.

Qual a sua avaliação sobre o desempenho do governo federal?  O desempenho do presidente e ex-militar Jair Bolsonaro está atendendo as expectativas? 

Fui a única autoridade eleita do município que apoiou abertamente a eleição do presidente Bolsonaro, em que pese ser de outro partido, enquanto muitos que hoje se arvoram amigos e apoiadores do presidente se esconderam. Pus minha cara a tapa por ele, fiz campanha, carreata, camiseta, adesivei carros, fiz panfletagem e não me arrependo, ele representa a mudança de rumos que todo bom cidadão deseja, ele personificou nosso desejo de acabar com um projeto de poder pernicioso e que por muito pouco não nos levou ao fundo do poço. Nós o elegemos sabendo que a temperança nunca foi sua maior qualidade, mas, em contrapartida, ele montou uma equipe excelente, conheci o ministro Ricardo Sales, a Ministra Damares, sou fã do Ministro Moro, admiro o ministro Guedes e vários Oficiais Generais que o apoiam, pois sei da qualidade de sua formação e caráter. A reforma da previdência está aguardando a promulgação, o Congresso assumiu o tão desejado protagonismo do legislativo, o desemprego está diminuindo, a inflação está controlada e taxa Selic, hoje projetada sobre bases econômicas sólidas, nunca esteve tão baixa, ele está usando a força do Exército e das outras Forças para a execução de obras de infraestrutura e para a solução de graves problemas como queimadas na Amazônia, derrame de petróleo no litoral e a crise da imigração Venezuelana. As taxas de homicídio estão caindo e o produtor rural hoje pode defender a si e sua propriedade. Esses são indicadores de que há muito a se fazer, mas muito tem sido feito e temos que reconhecer isso.

Beto Silva
[email protected]