De manga rosa, gosto e sumo

Ah, estas mangueiras-moças, florindo como pede chuva repentina e rápida! Chuva de manga! E seus frutos como resistem ao vento e à chuva! A natureza sabe porque nem todos se agarram com igual tenacidade à mangueira-mãe. Alguns se perdem. Outros tantos servem de alimento ao gado no pastoreio.
 
Conto-lhes, agora, encostado que estou a um canto qualquer, saboreando mangas e revisitando a memória. Nesse “promenade” inconsciente reencontro tia Lalá, personagem da minha vida, que me traz de volta personagens rurais da literatura lida. Não sei bem se a velhota teria a mesma ternura, mas o sentir, o agir, o falar era igual no caboclismo próprio da gente simples e boa. Repensar personagens me permite comprovar a realidade dela na universalidade deles. 
 
Lalá aproximou-se do centenário, sem cumpri-lo. Seu desejo era tanto que, anos antes, desrespeitando a contagem e rompendo a tradição, comemorei os anos que sonhava ter, mas não tinha. Festejou feliz e esparramou entre as amigas que envelheciam com ela, ter chegado lá. E a história tornou-se real, tanta convicção no dito e nas fotos.
 
Falo de Lalá porque toda vez que chegava a minha casa trazia consigo a recordação distante de Graúna, onde vivemos a primeira infância de modo feliz e único, vislumbrando da escadaria de casa o morro, convidando-nos a que subíssemos, o pai à frente, para colher mangas. A tia, em férias, fugia da capital nos excelentes trens da época para participar da farra e, sentada à escada em frente de casa, mirando o terreno alargado do morro, exibindo-se, juntava no colo meia dúzia de frutos já colhidos, engrossando lábios num desenho amarelado pela fruta devorada. Quanta saudade desta cena e do rosto ainda jovem da tia, lambuzado, revelando na cor, gosto e sumo de mangas espada, bourbon, rosa, carlotinha, coquinho, insistindo conosco que eram frutas nossas, só aqui encontradas. Pequenos e ingênuos, acreditávamos na lição, desconhecendo a origem filipina do fruto. Neste tempo, não havia estas novidades vindas da Flórida, Tommy, Palmer, tão bem adaptadas a estas terras em que se plantando, tudo dá. 
 
Agora, desde que voltei ao Brasil depois de fiz caminhos distantes, alguns pródigos no fruto, tenho recebido de João Pessoa, meu ex-aluno do CLQ, meu compadre, dentista de renome na cidade, caixas de mangas colhidas em sítio de sua propriedade. Presente que me agrada, João, o que me trouxe Juliana nos braços para apadrinhá-la, amá-la e fazer dela a filha que não tive, alegra meu entardecer em dois momentos do ano: ao colher das mangas, verão anunciado, e das jabuticabas, no romper da primavera. 
 
Ah este prazer de bem viver o ano pelas estações que contempla não pelos dias que conta! São as flores, os frutos, as sementes, os pássaros, as nuvens, o sol, ele, claro, o sol, que nos obriga a cantar ao sol de todo dia pelo que é e faz, fazendo surgir o que nos encanta e alimenta.
 
João Pessoa traz de volta o sabor da infância nos frutos de agora. De lá, onde vêm, as árvores crescem  no mover do vento e da chuva que acaricia e bendiz os alqueires do lugar beijado pelo sol.