Delírio ou verdade?

David Chagas

Seus netos, talvez, já se tenham esquecido dela. Nós, não. Sua única filha morreu jovem. A que não nascera dela, mas por ela fora criada, caminhou a seu lado por algum tempo e soube tê-la consigo até o fim de seus dias. Seus filhos fizeram dela a avó e a têm viva na lembrança e no carinho que lhe dedicam a cada dia, passadas décadas de sua morte.

A festa da Consciência Negra permite remexer lembranças como essa para não apagar o que a história escreveu a partir dos seiscentos manchando, para sempre, o pavilhão da esperança.
No Brasil, desde que Isabel, com pena de ouro, assinou a Lei, nada de magnificente e primoroso se tem recolhido do texto que redigiu, sancionando o que a Assembleia do Império decretou. ‘Passados 130 anos, pode-se dizer que a escravidão persiste. Terá havido entusiasmo abolicionista? Se houve, coisa de momento. Faltou piedade com a sorte do negro, faltou protesto contra os maus tratos dispensados, faltou a palavra viva de quantos pudessem escrever em sua defesa. Houve, tão somente, como é comum em sociedades como a nossa, burguesa e severamente conservadora, expressões palidamente convencionais.

A senhora, esquecida daqueles, mas não destes, existiu de fato. Na pele, a marca; na alma, a dor. Em pleno século XXI, prossegue assim, nas escolas, nos campos de futebol, nos desfiles de beleza, nos ambientes artísticos e, o que é pior, no dia a dia, em algumas casas e nas ruas da cidade. Os que, marcados pela miséria e fome, se tornam invisíveis aos olhos da sociedade parecem obrigados a ter comportamento servil diante da classe dominante.

“O Racismo surgiu e cresceu com o capitalismo e ajuda a sustentá-lo. Desenvolveu-se nos séculos 17 e 18 para justificar o uso sistemático do trabalho escravo africano nas grandes plantações do ‘Novo Mundo’ que foram fundamentais para o estabelecimento do capitalismo como sistema mundial. Formou-se como parte do processo tornando-se sistema econômico e social dominante.”
Ignorar isso ou tentar desmentir seria mais uma reação de poder que foge à verdade como se supõe, fuja o diabo da cruz. Num país como o nosso, estimular a igualdade é dever, já que, de forma pontual, se tem entre as maiores expressões de cultura, figuras negras ou seus descendentes. Os políticos se lembram deles quando precisam revelar um falso apreço pelo país enegrecido ou amulatado, conhecido de forma inexata, sem fundamento algum, como democracia racial, esquecendo que “paira sobre os destinos individuais o tecido de ferro de um sistema, fixamente enraizado na história, na sociedade e na economia. O arcabouço exterior explica tudo e faz calar a revolta, submersa na ordem social, que a própria poesia incorporou, num e noutro fio mais ardente”.

Todas as considerações humanas, sob o pressuposto não declarado de que diante dela é necessário fazer do homem negro, submisso e impotente, cedem à ordem social, para subsistir. A aparente piedade e solidariedade dissimula o grotesco e o cruel tão próprios de nossa sociedade.

Delírio ou verdade? Dizei-me, Vós, Senhor Deus!