Desafiante missão

Persona (Foto: Claudinho Coradini / JP)

Com infância vivida entre os bairros São Dimas, Vila Boyes e também na rua Luiz de Queiroz — frente à fábrica onde o pai, Airton de Campos Negreiros, trabalhou e foi líder sindical —, o educador e dirigente regional de ensino Fábio Augusto Negreiros, que hoje tem 54 anos de idade, se diz realizado com a colaboração que tem dado para a educação de Piracicaba nas últimas décadas. Filho da professora aposentada Maria Aparecida Monteiro Negreiros, casado com a também professora Ruth Helena dos Santos e pai de Lucas Magno Silva Negreiros e Ricardo Augusto Silva Negreiros, filhos do primeiro casamento, Fábio Negreiros falou nesta entrevista para a seção Persona sobre a infância, a inspiração para lecionar vinda das tias professores, os desafios que a Educação vai enfrentar nos próximos anos por conta da tecnologia e as mudanças na BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Confira.

Você é piracicabano nato. Como foi e onde passou a infância e estudos? E sua formação profissional?
Tenho 54 anos. Nasci na Clínica Amalfi (São Dimas), estudei na escola Honorato Faustino, na escola Mello Ayres e fiz o ensino médio no Dom Bosco, onde também trabalhei. Ao final do ensino médio, todo ele voltado para os cursos técnicos, optei fazer o técnico em análises químicas, que era algo que gostava. Prestei vestibular no meio do ano (em 1982), ingressei na Universidade Federal de São Carlos. Na época, filho de operário da Boyes, importante indústria de Piracicaba, foi uma conquista muito grande, já que filho de operário conseguir uma vaga na faculdade era um enorme desafio. Vivi minha infância toda nas casas e vila de operários da Boyes aqui no São Dimas, onde tive meu primeiro emprego, de auxiliar de escritório, junto ao sindicato que meu pai era filiado até que fui para São Carlos, estudar, inicialmente em matemática, porém, descobri que gostava muito mais da vida, das biológicas ao invés das exatas. Aí, prestei vestibular novamente e fiz curso de ciências biológicas, onde tenho licenciatura e bacharelado. Minha vocação de educador apareceu em 1986, já perto do final do curso, quando comecei a substituir aulas na escola Alcides Guidetti Zagatto na Paulista-Paulicéia. Ia a São Carlos, assistia minhas aulas e vinha para cá (Piracicaba) e dava aula como professor substituto, a aula que precisasse naquele momento. Fazia isso, porque precisava trabalhar e também daquele dinheiro. Eu gostava tanto, que chegava de viagem e já parava direto na escola para dar aulas e, no dia seguinte, bem cedo, já volta para São Carlos, para os estudos. O despertar para o desafio e o prazer de educar surgiu dessa oportunidade. Tive minha vida toda construída no bairro São Dimas e na região da rua Luiz de Queiroz, e um pouco no Bairro Alto, por conta dos meus avôs. Era perto do Dom Bosco, um dos motivos pelo qual escolhi estudar o ensino médio lá, no período noturno. Meus avós eram pessoas muito religiosas, fortemente católicos, a formação católica era extremamente valorizada por eles e isso fez parte deste contexto histórico que me formou. Meus pais também são nascidos em Piracicaba. Meu pai Airton foi, a vida toda, operário especializado na Boyes. Primeiro, como mecânico de tear. Depois, como contramestre de tecelagem. Seu apelido era “Cabeça”, porque na época — inclusive quando eu nasci, época da revolução — ele era líder sindical atuante de uma categoria, que podemos dizer, pequena e que só existiu devido à Fábrica da Boyes. O curioso da minha mãe, Maria Aparecida, que é professora aposentada, é que ela fez a escola industrial em um curso interessante, pois era voltado à administração do lar. Era comum mulheres fazerem este curso naquela época e o objetivo era fazer uma boa gestão da família. Momentos e histórias diferentes. Minha mãe hoje tem 78 anos, meu pai 82. Quando cheguei na Ufscar, eu descobri que o governo subsidiava meu café da manhã, minhas refeições e que estudava numa faculdade de ensino integral, sem pagar nada, pensava: “meu deus do céu, como isso é possível?”. Eu recebia tanto e me sentia na obrigação de fazer tudo muito bem-feito, porque aquilo estava sendo pago pelas pessoas que pagavam impostos, portanto, me garantiam naquele curso. Então, não podia apenas receber, tinha em mente que aquilo deveria ser devolvido de alguma forma e aí, de novo, nasce a vontade de ser educador.

Tem algum exemplo de professor na família?
As duas irmãs da minha mãe foram professoras. Ana Maria Monteiro dos Reis foi professora primária a vida toda, atuou em diversas escolas do estado e particulares, e a Estela Bergamo, professora que terminou sua carreira há pouco tempo, ministrando aula no CLQ, mas teve longa passagem na rede pública. Essa presença, com certeza, colaborou para a minha escolha, só pelo fato de conviver com pessoas que valorizam a educação, que entendem a importância da formação da pessoa, e principalmente o fato de entender que a educação pode ser a solução de muitos problemas, me permitiu ter uma vida de realização. Além disso, tinha um tio, Paulo Adão Monteiro, que era professor universitário, sendo a pessoa que me atraiu para a matemática, inicialmente, já que era professor de matemática da Federal de São Carlos e, por isso, fui inicialmente fazer matemática. Este meu tio era um modelo para mim. Tudo isso junto gerou essa vontade de lecionar, que sempre esteve muito viva em minha família e permaneceu comigo.

Dá para comparar o formato da educação que temos hoje com a que você tinha quando ainda estava no colégio? Qual a principal diferença?
A principal diferença é que, na época em que eu estudei, a educação era para poucos. Mesmo para uma família de operários, morando em uma cidade como Piracicaba, cidade bastante desenvolvida e famosa por ter boas escolas, na minha infância, nós tínhamos o Honorato Faustino recém-construído e o Mello Ayres em construção. Quando eu terminei o antigo primário e vim para o Mello Ayres, ele tinha acabado de ficar pronto, ou seja, se tinha uma dificuldade enorme de atender toda a população e, portanto, por saudosismo, muitas pessoas dizem que a escola era melhor naquela época. Até poderia ser melhor, mas atendia um segmento muito pequeno da população que nós tínhamos. O que nós temos hoje, e que é muito claro, é o desafio de fazer uma escola que atenda a todos e trazer a vontade de estudar aos alunos. Antes, nós íamos para a escola, a minha geração mesmo, já convencidos que a escola era a solução para a nossa vida. Por que que precisava aprender a matemática? Tinha certeza que precisava de matemática, porque não conseguiria fazer nada daquilo que sou hoje sem ela. Eu não podia cuidar de uma caderneta de poupança sem saber porcentagem, tinha que saber os juros que ia me dar aquele dinherinho. Nós vivemos, quando eu era criança, em um momento de superinflação, tudo subia de uma forma muito forte. As coisas eram difíceis, as famílias se reuniam para assistir TV porque só tinha um aparelho em casa, quando tinha. Ter um aparelho de som era uma conquista para se chamar a vizinhança toda para ouvir junto. Eram tempos diferentes, mas davam o devido valor à educação. Hoje, o desafio é ofertar educação para todos os jovens diante de um mundo que oferece outras oportunidades. O fato de a internet “ter todas as respostas” acaba desafiando o educador em como ter uma nova escola, atrativa e que desafie o jovem, que o motive a querer estudar. Portanto, aquela escola que era boa era muito restrita e excluía muitos. Esta nova escola abrange todos, mas tem o enorme desafio para se reinventar e atender a todos, porque o interesse desses ‘todos’ são diferentes. Nós, educadores, não somos do século 21, nós estudamos e fomos formados no século 20 e temos, às vezes, um pensamento do século 19, porque a escola nos formava assim, e o jovem está no século 21 e se não tomarmos cuidado ele está pensando no 22. Isso é um desafio. É a mudança de paradigmas. Conseguimos colocar todos na escola e hoje se discute se o aluno precisa estudar dentro da escola. Está no supremo esta discussão. Mas por que se discute isso? Porque há segmentos da sociedade que acreditam que posso ensinar melhor sem precisar de escola. Essa é a sociedade plural em que vivemos e essa escola que tenho hoje é o meu desafio e meu motivo de trabalhar.

Quando e como você chegou a função de dirigente de ensino?
Desde 2006, já era dirigente substituto. Na época, o professor Oldak tinha sido chamado para outra função em São Paulo e fui adquirindo experiência, quando, em 2012, fui chamado à Secretaria, em São Paulo, em dezembro, sabatinado e, depois, me ofereceram a vaga. Já tinha prestado concurso para supervisor, tinha sido nomeado há poucos dias e veio esta nova oportunidade e o desafio de ser dirigente aqui em Piracicaba. Para mim, era um desafio enorme, pois Piracicaba é minha casa, tinha uma responsabilidade muito forte, porque em uma terra nova você começa tudo do zero, mas aqui eu já trazia a necessidade do próprio conhecimento que tinha construído ao longo de todos os meus anos de aprendizado, sabia que seria muito cobrado na função. Mas, ao mesmo tempo, tinha certeza daquilo que se buscava aqui, um dirigente que escutasse, que tivesse as portas abertas, que se permitisse parceria, que aceitasse a vontade da comunidade em participar da educação e, principalmente, do envolvimento com toda a sociedade. Fui nomeado em 12 de dezembro e tomei posse em 19 de dezembro. O que esses anos mudaram em minha vida foi a possibilidade de poder implantar mudanças que eram necessárias para atender melhor o aluno e permitir que ele, na escola, aprenda de verdade.

Tem alguma história que te comoveu ao longo desses anos junto ao ensino público?
Tiveram muitas, mas uma das maiores delas é até recente. Foi de um trabalho que fizemos com a Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), para levar jovens a uma formação focada no mercado de trabalho, onde nós selecionávamos os alunos, a Acipi e Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) davam a formação e depois buscavam a colocação destes jovens no mercado de trabalho. Acredito que isso me comoveu porque tínhamos o objetivo que era conseguir 10 escolas para fazer o projeto, chamei todos e demos oportunidades. Uma outra situação que não esqueço jamais foi da cara de um aluno, xará meu, Fábio, de Santa Maria da Serra, que participou de um concurso da Google, para influenciadores digitais, de ver a cara dele de ir no prédio da Google receber o prêmio, que era uma formação para ser “youtuber”, a alegria dele, o fato de ele estar dentro daquilo que sempre sonhou — assim como grande parte de nossos jovens tem. Ele mostrou que nosso aluno (rede pública) pode vencer, que pode obter resultado, que pode ser alguém na vida a partir da educação pública. Isso é muito importante. Um terceiro caso mostra que nós vivemos em uma sociedade desigual, inclusive, no aspecto de gênero, de homens, mulheres e outros. Por isso, fizemos uma parceria com o RH da Caterpillar para levar alunas da escola pública para conhecer a fábrica, já que “existe” uma cultura de que a produção de trator é um trabalho masculino, e lá elas acabaram descobrindo que é possível na linha de montagem ter mulheres. Imagine uma sala inteira cheia de meninas, de uma região mais afastada do centro de Piracicaba, visitando a indústria e percebendo que elas poderiam, bastava desejar, ser profissionais em uma área que era predominantemente masculina. O que precisa é ter alguém que deixe as portas abertas para parcerias e ter a possibilidade de melhorar sua vida e ampliar suas condições perante a comunidade. Não dá para mensurar o quanto isso é inovador.

Acredita que a tecnologia colabora para o aprendizado?
A tecnologia pode servir de suporte e como um facilitador do ensino, que envolve o tempo de otimização do trabalho do educador com o diário de classe eletrônico, com o fato de o aluno acompanhar suas notas e suas frequências pelo celular, por meio de aplicativos. Nós estamos vivendo isso. A possibilidade que ela nos dá com imagens e vídeos dos alunos, com produção do próprio aluno, acaba sendo uma ferramenta extremamente útil sabendo-se usar e buscando caminhos para o aluno desenvolver a sua capacidade. O jovem adora desafios e a tecnologia dá isso a ele, por meio da internet, principalmente. Podemos dizer que muito dos empregos do passado estão deixando de existir e outros novos estão surgindo de uma forma muito rápida e que a tecnologia pode ser uma das grandes armas para a formação desses jovens. Podemos dizer que a tecnologia para a formação dos jovens é o grande caminho para manter as escolas importantes para o jovem. E como fazer isso? Tenho hoje em nossas escolas salas e laboratórios de informática, só que cada vez mais o jovem tem por desafio o uso do celular, já que para ele o desktop, a estação de trabalho, deixou de ser importante, pois ele consegue fazer tudo o que precisa de um celular e com uma agilidade impressionante. Entendo que o celular deixa de ser um problema na sala de aula e pode se tornar uma grande solução se nós, educadores, aprendermos a lidar com essa nova tecnologia, este novo desafio.

Tem se discutido muito sobre inclusão nas escolas. Como você avalia este assunto?
Primeiro, nós, por muito tempo, guardamos ou escondemos as pessoas com algum tipo de dificuldade ou deficiência, por questões sociais. Elas não frequentavam as escolas, os shoppings, o meio social. Na verdade, a escola foi uma das primeiras instituições que se desafiou a incluir, a trazer para dentro da escola todos aqueles que pudessem ser recebidos. É lógico que existem algumas limitações, pois não são todos que conseguem se inserir nas aulas regulares. Estamos, desde os anos 2000, em um processo de construção deste trabalho, que é desafiador, mas com uma ampla inclusão nas escolas da rede pública de alunos com alguma necessidade diferenciada, seja física, intelectual, motora. Essa inclusão não tem crescido, por mais que se tenha essa impressão, mas não aumentou, essa criança só não estava na escola, não estava à vista da sociedade. Isso obrigou as escolas a se adaptarem. Temos aqui um exemplo muito bom. Em um dado momento, recebi uma demanda de uma aluna que tínhamos transferido da escola Jethro Vaz de Toledo (Itapuã) para escola do bairro Santo Antônio, que tinha elevador e tudo mais. Essa aluna cadeirante estava muito brava comigo por causa dessa transferência e fui buscar saber o que estava acontecendo. Ela estava brava porque a tirei da escola que ela podia ir com o ônibus da prefeitura, que já estava adaptado e era de linha, que parava no ponto e ia na escola. Todos da comunidade e da escola a conheciam e a amavam ali no Jethro. Eu disse que estava preocupado com ela, porque a escola não tinha elevador, tinha alguns problemas de desnível, foi aí que ela me disse: “Apesar destes desníveis, aqui eu sou acolhida. Não que não tenha sido aqui na nova escola, mas aqui tenho pessoas que me fazem sentir empoderada. O que preciso é ter acesso a essa sala, pois não consigo chegar até ela, mas se for feita uma rampa aqui eu consigo”. Em resumo, ela me mostrou que com pequenas adaptações, ali mesmo, qualquer um poderia chegar naquele espaço. Foi aí que descobri que a melhor resposta é saber perguntar para quem precisa do serviço o que é importante para ele. E foi o que fizemos. Atendemos as sugestões e ela retornou para a escola e, neste ano, deve estar terminando o ensino médio dela naquela unidade.

Como acontece a qualificação profissional na Educação?
Nós retomamos este ano com um projeto muito forte de qualificação dos educadores. Isso foi importante, porque tivemos dois anos muitos difíceis por questões orçamentárias e, neste ano, voltamos com a qualificação dos professores, gestores, coordenadores e diretores, porque entendemos que isso é fundamental. Um educador nunca está formado por completo, assim como um médico, sempre é necessário uma atualização. A nossa língua mudou? Sim, mudou. A língua é viva. Palavras que não existiam são incorporadas. Não podemos, em hipótese alguma, considerar que um educador está formado ao final de 4 anos de universidade. Este é o desfio, nós, como diretoria de ensino, tentamos, dentro das possibilidades de trabalho, focar o trabalho de formar esses profissionais permanentemente. É essencial, principalmente para quem busca qualidade. Em nossas unidades de período integral, as qualificações são sistemáticas e bimestrais, temos um plano estruturado de formação, e agora estamos ampliando isso para as escolas regulares, caso contrário, o professor, sozinho, na sala de aula, e com uma carga horária que às vezes é muito extensa, não vai conseguir se reinventar como educador diante de todas essas novas informações e métodos que a sociedade construiu.

Como podemos classificar o ensino na cidade? 
Há uma frase muito importante que dizem desde quando eu era mais jovem: que Piracicaba é a cidade das escolas, isso por causa de toda a sua trajetória, como o Sud Menucci, o Moraes Barros, Dr. Prudente, que são escolas históricas e que tinham uma oferta de educação quando antes outras cidades do estado de São Paulo ainda não a tinham na mesma proporção. Temos uma Esalq/USP sendo considerada uma das melhores universidades na área agronômica no mundo, temos um dos principais centros de pesquisa do planeta. Então, o maior desafio era fazer com que a educação pública municipal e estadual mantivessem a qualidade que a história de Piracicaba apontava. Ter uma escola como a Esalq funcionando aqui por mais de 100 anos, como é que eu posso não ter escolas de boa qualidade, sendo que no passado nossas escolas eram todas de renome? Hoje, na educação de Piracicaba temos um trabalho integrado entre estado e município, em que nós partilhamos informação, a demanda é estudada junto e isso tem permitido compartilhar mais projetos, por exemplo, aquilo que o Estado desenvolveu de expertise ele empresta ao município e vice-versa, tudo para fazer com que Piracicaba siga com um ensino de qualidade, do infantil ao superior. Piracicaba não centraliza em uma só escola suas melhorias ou projetos, Piracicaba trata todas as escolas de forma igual, inclusive as periféricas, e isso traz um padrão de qualidade igual para todas as unidades de ensino. Estamos avançando muito, mas também ainda estamos longe do que queremos, ainda há muito o que construir.

 

(Felipe Poleti)