Deslizamento em Niterói era difícil de prever, diz serviço geológico

Deslizamento em Niterói era difícil de prever, diz serviço geológico
Fonte: Agência Brasil

O deslizamento do Morro da Boa Esperança, ocorrido na madrugada de sábado (10), em Niterói, era difícil de ser previsto. É o que concluiu o Departamento de Recursos Minerais (DRM), órgão ligado à Secretaria de Estado da Casa Civil e Desenvolvimento Econômico. O acidente deixou 15 mortos e 22 famílias desalojadas.

Em avaliação preliminar, o órgão informou, por meio de nota, que a ruptura do maciço era de difícil previsibilidade e que foi constatada “uma combinação de fraturas na rocha com infiltrações no solo e pressão da água de chuvas anteriores”.

Segundo a nota técnica, foram deslocadas 20 mil toneladas de material, entre rocha e solo, em um “deslizamento planar profundo”, ou seja, o local da fratura não foi superficial. A ruptura se desenvolveu com infiltração de água em uma camada de solo em formação por baixo da rocha, tirando o suporte do bloco rochoso, que veio a se romper.

Equipes trabalham na remoção de entulho em área onde ocorreu deslizamento de encosta no Morro da Boa Esperança, em Piratininga, na região Oceânica de Niterói, no último sábado (10).

Equipes trabalham na remoção de entulho em área onde ocorreu deslizamento de encosta no Morro da Boa Esperança – Tomaz Silva/Agência Brasil

“Foram observados sets de fraturas (fraturas tectônicas e de alívio) na parte rochosa, e no horizonte de solo residual jovem, nítida presença de estruturas reliquiares, permitindo o desenvolvimento de planos de fraqueza naturais. Verificou-se em campo surgência de água saindo de algumas fraturas”, diz a nota técnica do DRM.

O DRM concluiu que, devido as características geológico-geotécnicas, “trata-se de um processo de difícil previsibilidade, pois a superfície de ruptura desenvolvida no maciço foi originada pela combinação de fraturas e demais descontinuidades mecânicas presentes no maciço, juntamente com a ação da percolação e pressão d’água oriunda das chuvas antecedentes.”

A avaliação foi feita no dia do acidente e os técnicos apontaram que o local ainda corre risco de novos deslizamentos, já que “existem blocos rochosos individualizados em condição instável, e o maciço como um todo ainda não entrou em equilíbrio.” A orientação é que a Defesa Civil de Niterói monitore o aparecimento de trincas e mantenha a interdição no entorno até uma nova avaliação, passado o período de resposta à urgência. As atividades de resgate devem ser suspensas em caso de chuva.

Sociedade Brasileira de Geologia

Em nota, o Núcleo do Rio de Janeiro e Espírito Santo da Sociedade Brasileira de Geologia (SBG), alertou que o mapeamento de risco geológico precisa ser atualizado a cada ano, devido à forma dinâmica como a ocupação do solo é feita nos municípios, sem as condições adequadas de controle e fiscalização pelo poder público.

“Muito se avançou nos últimos anos, mas um verão chuvoso só pode ser motivo de preocupação redobrada, num país em que a conta cai sobre os municípios e estados, entes significadamente mais frágeis. Os recursos estão em Brasília, é necessário que sejam descentralizados, para que cada um possa fazer melhor o seu papel”, diz a nota, reiterando que a “gestão de Risco Geológico não pode ser algo sazonal no nosso país”.

A SBG lembra de outros desastres com deslizamentos nas últimas décadas em Niterói: fevereiro de 1985, com um morto; dezembro de 2001, com três mortos; dezembro de 2005, com um morto; fevereiro de 2010, no Morro do Bumba, com 105 mortos; e janeiro de 2013 com mais um morto. A entidade ressalta que após o maior deles, ocorreram iniciativas importantes no país.

Apesar da reestruturação e criação de órgãos e do aprimoramento de leis, a SBG alerta, no entanto, que a situação atual é de retrocesso, com a diminuição da importância de órgãos estaduais no Rio de Janeiro, a extinção de outros, como a Mineropar (Serviço Geológico do Paraná), ou a luta para se manter, como o Instituto Geológico de São Paulo.

“As pessoas moram onde é possível. Infelizmente, ocupam áreas inadequadas por absoluta falta de condições e opção real de moradia digna. Este é o retrato do Brasil que é preciso mudar”, destaca a SGB.

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