“Deus e o Diabo na Terra do Sol”

Cátaros – uma seita dita cristã, mas declarada herética por volta do Terceiro Século – defendiam uma visão de mundo que, hoje e, pelo menos, para mim, convida a reflexões instigantes. A versão cátara para a Criação do Mundo era de dualidade. Assim, o mundo fora criado pelo Diabo, que fez maravilhas para seduzir o homem, colocando-lhe armadilhas para ser vítima do mal. Logo, o mundo teve início diabólico. “Diablos” é o que divide, isso tudo que aí está.

No entanto, ao criar também o homem, o Diabo não conseguiu manter-lhe a existência por faltar-lhe algo mais do que a simples matéria. Então, recorreu a Deus que, com sua bondade – e, talvez, para tapear o Diabo – soprou, nas narinas humanas, o hálito divino. Estava, assim, criada a alma, que permitiu, à humanidade, conhecer a imagem e a semelhança de Deus. Os males do Diabo continuavam prevalecendo. E, também para os cátaros, Eva era a culpada. Foi quando Deus, ainda mais generoso, fez-se humano na figura de Jesus e tentou salvar ou dar saúde à humanidade. Deus e o Diabo, portanto, estariam em disputa, também aqui, na que Glauber Rocha chamou de “Terra do Sol”. Mesmo não crendo disso, tal versão me instiga.

De minha parte – sendo apaixonado por filmes de faroeste – sempre torci pelo bandido: Billy The Kid, Jesse James, Wyat Earp e outros. E – apesar de amar o machão John Wayne – fiquei ao lado dos índios sempre que ele os matava. Não sei explicar, mas assim tem sido. No entanto, nessa disputa entre Deus e o Diabo, sempre esperei a vitória de Deus. Mas – que pena! – Ele está perdendo. Por isso, talvez, lideranças cristãs dizem que o prêmio dos humanos não está neste mundo e, sim, num outro, no céu. Ou seja: o Diabo vence por aqui, mas Deus tem a vitória final. Por isso, a grande maioria dos líderes religiosos está contra o corpo dos homens, enaltecendo-lhes a alma. Acho estranho. Não são, nossos corpos, o tesouro que temos?

Ora, apenas os otimistas irrealistas, os tolos, indiferentes ou a ignorância não percebem já estarmos, assustadoramente, em plena Terceira Guerra Mundial. Uma guerra diferente, com conflitos sangrentos em todos os quadrantes, uma guerra mundial em nível de economia de mercado livre, desabrido, incontrolável. E com arma mais perigosa – ainda que admirável – do que a bomba atômica: a internet, a informática. O Papa Francisco – uma das raras vozes proféticas em prol da Humanidade – já o confirmara há poucos anos. E estamos diante, outra vez, do confronto que parece eterno entre Oriente e Ocidente, em suas diferentes visões tanto do macro quanto do microcrosmo.

No Brasil – país dito cristão, com sua colcha de retalhos de seitas, num sincretismo religioso confuso – o Diabo está levando grande, imensa vantagem. Esse malvado de tal forma idiotizou seguidores que estes produzem malefícios, tragédias, desastres, colapsos individuais e sociais “em nome de Jesus Deus”. E o Diabo regozija-se vendo-os perseguindo pobres, mulheres, homossexuais – esses comunistas! – espalhando ódios, vulgaridades, desavenças. “Com Deus acima de todos”, estamos como o Diabo gosta: odiando-nos.

Se ignorarmos essa Terceira Guerra, o confronto geopolítico, a luta entre impérios, perderemos, também, o direito de reclamar, mesmo porque o protesto e a indignação foram fragilizados. Justiça – que nasce da alma e, portanto, de Deus – transformou-se em falácia diabólica. Como reagir? Não sei. Parece-me, no entanto, que um dos princípios chega-nos de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo.” Mas fugimos disso, não?