Dicionário português

“Os gajos brincavam naquela quinta abandonada em uma aldeia perto do rio. Depois do pequeno almoço, a canalhada estava sempre divertida como qualquer miúdo daquela geração. A casa era muito gira, mas foi arrendada e virou uma pastelaria. A malta unida cresceu e cada um foi para um sítio diferente. Hoje, lembram-se com carinho de quando eram putos e das cenas que faziam. Gostavam de um dia se reencontrar mesmo se for para tomar uma bica ou comer um prego. Se calhar, eles entrem num autocarro ou um comboio e voltam naquela mesma freguesia. Pois era, pá, ia ser fixe”.

Se você nunca teve contato com o português europeu, talvez esteja meio confuso com a historinha acima. Não que seja impossível entender o contexto, mas algumas ‘palavrinhas chaves’ são completas desconhecidas do português brasileiro. Ou possuem significados diferentes em Portugal. Vamos traduzir:

“Os rapazes brincavam naquela casa abandonada em uma cidade perto do rio. Depois do café da manhã, a criançada estava sempre alegre como qualquer criança daquela geração. A casa era muito bonita, mas foi alugada e virou uma padaria. A turma unida cresceu e cada um foi para um lugar diferente. Hoje, lembram-se com carinho de quando eram jovens e das coisas que faziam. Gostariam de um dia se reencontrar mesmo se for para tomar um cafezinho ou comer um sanduíche de carne com queijo. Talvez, eles ainda entrem num ônibus ou um trem e voltam naquele mesmo bairro. É, ia ser legal”.

Viver em Portugal tem a vantagem de se falar a mesma língua que falamos no Brasil, mas são muitas às vezes que o tal português parece mais um idioma completamente diferente. A confusão geral é causada pela troca de palavras. Frigorífico, por exemplo, é geladeira. Banheiro é casa de banho, enquanto magoar é machucar mesmo, sandes é sanduíche e sumo é suco. E por aí vai.

Além disso, você pode se assustar com algumas expressões que, para nós, soam como completos palavrões. Porreiro significa muito legal. Já “porra recheada” nada mais é que churros, aquele com doce de leite ou brigadeiro. Bunda aqui é rabo e injeção aqui é pica. Então monte você mesmo a frase “injeção na bunda” e veja que não soa assim tão bem.

Qualquer um pode pegar uma bicha em Portugal e ficar horas nela. Afinal, bicha é fila. E se fazer bico no Brasil é ter um trabalho extra, em Portugal essa palavra faz parte das coisas que se faz em preliminares sexuais. Já bica é só um cafezinho mesmo.

E se propina é crime no Brasil, em Portugal é apenas a mensalidade da escola ou da academia, que, aliás, aqui chama ginásio. E as garotas que não se ofendam se forem chamadas de raparigas, é apenas como chamam as garotas. Mas de gajas aí não é legal.

E cuidado ao pedir um durex, que no Brasil é aquela fita de colar transparente. A palavra em Portugal significa preservativo, camisinha mesmo.

E se você já estiver por dentro do vocabulário português de Portugal, vem um segundo desafio. O sotaque puxado, onde come-se as vogais, não ajudam no entendimento completo de uma frase. “Fernando Pessoa”, por exemplo, aqui é “Fernando Pessoa”, com o “e” mudo. O “r” geralmente vem com muito peso, muito maior que o “r” carioca. Assim como o “s” que na maioria das vezes tem som de “x”. Juro que às vezes acho que na verdade eles falam outra língua e o português é a segunda língua. Sabe quando vai um gringo pro Brasil e fala com aquele acento puxado? Então…

Mas em algumas semanas, com uma esponja, a gente vai aplicando o “português português” ao, como eles aqui chamam, “brasileiro”. Como diz Caetano, “Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó…O que quer o que pode esta língua?”.