Duas pessoas

Às 17h22 de ontem, o JP publicou em sua página no Facebook a chamada Urgente. Nela, havia a seguinte descrição: “Duas pessoas invadiram uma residência na Vila Rezende na tarde desta quinta-feira (4) e morreram após troca de tiros com a polícia”. Bastaram poucos minutos para que surgissem os primeiros comentários.
 
O primeiro deles dizia: “dois a menos!!!”. O terceiro parecia chamar a atenção do periódico para o que deveria ser uma correção: “Dois bandidos! Chega de tratar com igualdade ‘seres’ que estão aqui para matar, roubar e destruir famílias”. E, sucessivamente, outros seguidores do jornal adotaram posicionamento semelhante, sendo que um deles trouxe ainda algumas sugestões para o suposto erro da chamada: “Ué… duas pessoas? Vou dar a chance de vocês escolherem: escória, bandidos, vagabundos, marginais, ladrões, imundos… pessoas são as vítimas…”
 
O crime na Vila Rezende que acabou com a morte de dois homens de 17 e 24 anos está na primeira página desta edição: “Assaltantes invadem casa e morrem em troca de tiros”. Já na página 8, o título é “Bandidos invadem casa na Vila Rezende e morrem em troca de tiros”.
 
Pouco importa se é bandido, assaltante, escória, ladrão, enfim.
 
Sim, são dois a menos, não podemos discordar. Por sorte do destino, os moradores não estavam na residência no momento da ocorrência. A boa vizinhança, que acionou a polícia, fez toda a diferença nesse caso. A agilidade da polícia e a forma como conduziu o trabalho também.
 
Mas não. Não podemos concordar com a lógica de que “bandido bom é bandido morto”. Não podemos acreditar que o termo “duas pessoas”, na chamada inicial do Facebook, estivesse errado.
 
Não sabemos o histórico de cada um e os fatores que os conduziram ao crime. Não sabemos o que lhes fizeram perder a cidadania. A troca de tiro acabou com suas vidas, mas ninguém pode garantir que um trabalho de ressocialização pudesse mudá-los, dignificando-os para a sociedade. Claro, é só uma suposição, amparada ainda na crença de que um homem, quem quer que seja, pode fazer a diferença, para o bem ou para o mal.
 
Todos temos direitos iguais, assegurados na Constituição de 1988. Mas somos, diariamente, neglicenciados de várias formas pelo Estado e por nossos governantes.
 
Num país de tamanhas desigualdades, ainda que sejam bandidos, são duas pessoas.