Dulcíssima

Perdoem-me os que discordarem. Escrevo em honra de velha amiga, Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, “o anjo bom da Bahia”, morta em 1992. Como a conheci? Como você, por certo. O que nos fez amigos? Esta preocupação que tinha em estender as mãos, dividindo, orientando, apoiando, abrindo os caminhos da Luz a quem dela necessitasse.

Bela, da beleza que em nós existe, formosura interior visível aos olhos de quem vê e sente. Pequenina, voz mansa, quase inaudível, ditou como fazer, não pelo que falava, mas no que fazia. Superou os que deveriam melhor entender a realidade brasileira e tinham poderes para fazer, mas jamais fizeram, e tratou de buscar recursos entre tantos para diminuir a desigualdade nos brasis.

Desde pequeno ouvi falar em Maria Rita, no que fazia, no seu jeito bom de ser. Gostava de ler em jornais e revistas suas investidas pela cidade de São Salvador buscando solucionar sofrimentos impostos pelas injustiças sociais que dão cara e forma ao Brasil. Se bem analiso, hoje, pior que ontem, em especial, as grandes cidades e, por isso, as mais violentas do Brasil, alargam seus contornos de modo desordenado e hostil e revelam ao mundo um país cujo povo, na verdade, nunca teve este comportamento agressivo, que o leva a perder, pouco a pouco, a conhecida cordialidade brasileira.

Estaria errado se dissesse que o trabalho desenvolvido por Maria Rita, com entusiasmo, apesar de sua fragilidade física, era, em verdade, a construção da paz? Não da ausência de conflitos, “mas vida plena que nasce da total confiança em Deus”, que brota do coração e permite sentir a vida por inteiro, de modo íntegro, como se nem mesmo a pobreza absoluta dos escolhidos por Dulce, perturbasse. Francisco, neste julho começando, iluminado pelo Espírito de Deus, decretou Maria Rita, Santa, com o nome de Dulce dos Pobres.

Melhor seria, penso eu, se a chamássemos Santa Dulce, o anjo bom da Bahia e do Brasil. Nossa. Brasileira. Assim sendo, que ilumine os que insistem em desrespeitar o restante de floresta e vida e entendam, de uma vez por todas, que os biomas são da pátria e os índios são os verdadeiros donos da terra. Portanto, tudo que for em favor deles, deve ser preservado.

Que Dulce interceda em favor dos empobrecidos da pátria, dezenas de milhões, ofendidos pelo erro dos governantes, por seus desgovernos, pelo desrespeito aos direitos fundamentais, por tudo o que depende de ação efetiva em benefício do povo. Que seus companheiros de luz, Brás, por exemplo, interceda para calar a voz dos que, retórica retumbante, prometem e não cumprem e mentem; Luzia, para ensinar a ver quando olham, sentir quando veem e avaliar o desserviço praticado por eles todos, até aqui.

Dulce foi santa em vida. Quem conviveu com ela sabe do que digo e não pode negar o que fez dela uma das mulheres mais extraordinárias do Brasil. Importa, portanto, celebrar a universalização de seu nome. O mundo, agora, pode clamar pela sua intercessão em milagres semelhantes aos que realizou em vida, gestos concretos de amor ao próximo. Sei bem que não são estes que a levaram para os altares, mas comprovam – e muito! – suas virtudes.