É preciso frear as epidemias virais

Infectologista piracicabano alerta para a prevenção e conscientização Infectologista piracicabano alerta para a prevenção e conscientização

Há mais de 30 anos o piracicabano. Hamilton Antônio Bonilha de Moraes, 59 anos, decidiu seguir a carreira na medicina. Defensor da assistência, ele optou pela especialidade em infectologia. Desde 2017, o médico concilia o trabalho no hospital e consultório com o cargo de diretor do DRS-X (Departamento Regional de Saúde – 10), que atende 26 municípios da região, no total de 1,5 milhão de habitantes.

Casado com a enfermeira Jacqueline Mirian Defaveri Bonilha Moraes, ele também concilia a vida profissional com a familiar. Bonilha é pai de Marília, 29 anos, relações internacionais na Hyundai, Gustavo, 26 anos, que tem Síndrome de Down e frequenta o Centro de Reabilitação de Piracicaba, Lucas, 21 anos, estudante do quarto ano da Faculdade de Economia da USP e a caçula Júlia, 8 anos. O médico é formado pela Faculdade de Medicina da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em 1984 e especialização em Infectologia no Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo no período de 1985 a 1987, além de especialização em Terapia Intensiva e Saúde Pública.

O que levou o senhor a escolher essa profissão?

  1. Desde criança queria ser médico, acredito que por influência dos meus pais, que como todos naquela época valorizavam muito esta profissão.

E a escolha da sua especialidade, era algo pensado desde o início da faculdade?

Não. Comecei a me interessar pela área clínica após iniciar atividades práticas no ambiente hospitalar e, com o passar dos anos comecei a me interessar pela infectologia, principalmente pela constatação de que os melhores clínicos gerais eram os infectologistas. No quarto ano, após um estágio opcional no departamento de moléstias infecciosas e verificar a importância e abrangência das atividades profissionais desta especialidade, pude definir a minha escolha.

Como o senhor concilia a profissão com os compromissos públicos? Como foi a experiência de estar à frente da Diretoria do DRS X?

A minha preferência profissional sempre foi e será pela assistência, seja no hospital ou no consultório, mas a minha carreira em serviço público se iniciou em 1986, como médico concursado da Secretaria Estadual da Saúde e, desde novembro de 2017, como diretor do Departamento Regional da Saúde (DRS X) a experiência está sendo interessante e desafiadora. São 26 cidades pertencentes a quatro regiões, Piracicaba, Limeira, Rio Claro e Araras, com uma população estimada em um milhão e quinhentos mil habitantes, privilegiada no contexto Brasil pelas oportunidades relacionadas à assistência através do Sistema Único de Saúde (SUS), que é complexo, dinâmico e ainda caminha para uma efetiva consolidação. Piracicaba, com os hospitais Santa Casa, Fornecedores de Cana e Regional, este último inaugurado no ano passado com perspectivas de ampliação dos leitos e serviços para este e próximos anos, consegue prestar um atendimento qualificado para a nossa região. O DRS funciona como um órgão fiscalizador, orientador e facilitador das ações entre os gestores (secretários de saúde dos municípios) e prestadores de saúde (hospitais municipais). O cargo exige conciliar o equilíbrio entre a austeridade na gestão dos valores públicos e o anseio da população por uma assistência imediata e de qualidade.

Na área de infectologia, são diversos os avanços na Medicina, como também o surgimento ou avanço de vírus causadores de determinadas doenças. Como o senhor avalia isso?

A maioria das doenças infecciosas é aguda e, principalmente as de etiologias virais responsáveis por surtos e epidemias, como aconteceu em 2009 com o vírus Influenza H1N1, com o aumento no número de casos em 2016 principalmente pelo vírus influenza H3N2. O mesmo acontecendo com a dengue e zika vírus em 2015, inclusive com inúmeros casos de microcefalia em recém-nascidos. Da mesma forma o vírus da febre amarela silvestre, que reemergiu em 2016 e avançou em sua área de ocorrência e detecção no Estado de São Paulo no ano passado, com 503 casos e 176 óbitos (35%). Fato semelhante ao retorno do vírus do sarampo ao território brasileiro relacionado com a imigração venezuelana para a região Norte e a preocupação quanto a disseminação da doença, facilitada pela globalização e a baixa taxa de cobertura vacinal. Apesar do avanço tecnológico relacionado ao diagnóstico e imunização, a prevenção das epidemias virais depende fundamentalmente da conscientização da população sobre a importância da vacinação e da eliminação dos criadouros domiciliares do mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão da febre amarela, dengue, zika vírus e chicungunya.

Em relação às gripes e mutações de vírus, como a população pode se proteger?

A gripe é causada pelo vírus da influenza que pode sofrer modificações anualmente, geralmente é caracterizada por febre alta, seguida de dor muscular, dor de garganta, dor de cabeça, coriza e tosse. A febre é o sintoma mais importante com duração que varia entre três a sete dias. Alguns casos apresentam complicações graves, como pneumonia, necessitando de internação hospitalar e às vezes em unidade de terapia intensiva (UTI). As vacinas podem ser trivalentes e quadrivalentes. No Brasil, temos na rede privada a quadrivalente, que possui dois subtipos do vírus Influenza A, normalmente H1N1 e o vírus da gripe sazonal (H3N2) e dois subtipos B que dependem do vírus circulante no ano anterior. Já a vacina distribuída na rede pública é a trivalente, que possui os dois tipos da Influenza A (H1N1 e o H3N2) e um vírus da Influenza B. A cepa adicional de Influenza B é o que a diferencia da quadrivalente, no entanto, como praticamente não existe a circulação dessa cepa no Brasil, não é obrigatória a vacinação nas clínicas privadas O resfriado também é uma doença respiratória frequentemente confundida com a gripe e também é causado por vírus, mas os sintomas são mais leves, temperatura mais baixa, raramente complica e não existe vacina.

Das doenças infecciosas, qual ou quais são mais preocupantes e o que a Medicina oferece de recursos, tanto preventivo como de tratamento?

Seria interessante separarmos as infecções adquiridas na comunidade e no hospital. Das adquiridas fora do ambiente hospitalar a que mais me assusta é a infecção generalizada causada (meningococcemia) pela bactéria menincococo, que pode evoluir com óbito em horas, mesmo com o diagnóstico e tratamento adequado precoce, mas evitável através das vacinas contra os sorotipos A, B,C,W,Y. Em relação às hospitalares as bactérias resistentes aos antibióticos são a maior preocupação, mas a adesão as ações preventivas normatizadas pelos Serviços de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) podem minimizar essas complicações.

Após décadas de descoberta do vírus HIV e dos primeiros tratamentos para a doença Aids, como o senhor avalia os avanços e o que ainda falta em termos preventivos e de tratamento?

Posso dizer que presenciei a epidemia desta doença desde o início. O primeiro caso diagnosticado no Brasil ocorreu em 1980 e após seis anos o medicamento AZT foi aprovado. Infelizmente, no passado a doença era sinônimo de morte, como as de Freddie Mercury, Renato Russo e Cazuza, portanto, sem distinção entre os níveis socioeconômicos das pessoas. Com a descoberta de outras drogas, ainda ineficazes, havia a necessidade de ingerir mais de 20 comprimidos dia, o chamado coquetel para Aids. Felizmente, com o avanço farmacológico, os novos fármacos com menor posologia e maior efetividade, com esquemas terapêuticos a base de 1 ou 2 comprimidos ao dia, tornaram esta enfermidade uma doença crônica facilmente controlada, desde que haja uma adesão adequada aos medicamentos. O Brasil tem um dos melhores programas de HIV/Aids do mundo que com a política de distribuição gratuita de medicamentos revolucionou o tratamento e reduziu a velocidade de disseminação da doença. Em relação à prevenção da doença houve, recentemente, um avanço com a implantação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV, que consiste no uso preventivo de medicamentos antes da exposição sexual ao vírus, com o objetivo de prevenir a infecção e promover uma vida sexual mais saudável. Outra medida de prevenção de urgência à infecção pelo HIV é a Profilaxia Pós-Exposição ao HIV (PEP) que consiste no uso de drogas para reduzir o risco de adquirir essa infecção após qualquer situação em que exista risco de contágio. Atualmente, uma pessoa que vive com HIV e toma os remédios regularmente, tem a mesma expectativa de vida de uma pessoa não infectada e pode se tornar indetectável (não transmite o vírus por via sexual), se fizer o tratamento corretamente. Além dessas duas, o Ministério da Saúde recomenda mais quatro estratégias de prevenção: uso de preservativos, pré-natal (exames em gestantes), teste HIV (após situação de risco) e tratamento.

A rotina de trabalho de um médico costuma ser bastante pesada. Quantas horas o senhor trabalha por dia? Como é sua rotina semanal?

Trabalho 12 horas diariamente de segunda a sexta-feira para conseguir conciliar as minhas atividades no serviço público como Diretor Técnico de Saúde III do Departamento Regional de Saúde X da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e nas instituições privadas como infectologista e coordenador dos Serviços de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) da Santa Casa e Hospital Unimed e médico do Instituto de Vacinação e Infectologia de Piracicaba (IVIP). Estas são atribuições presenciais, mas os meus cargos e minha especialidade exigem tarefas domiciliares praticamente diárias com a finalidade de aprimorar e divulgar o conhecimento, além de elaborar relatórios para praticar ações relacionadas.

Fora do trabalho, o que o senhor faz para se distrair, aliviar a mente?

Pelo tempo dispensado ao serviço durante a semana, restringindo os momentos com a família, procuro aos finais de semana compensar esta ausência através de um convívio familiar em casa ou em locais de lazer desta bela cidade, como a Rua do Porto ou, quando posso, como bom aquariano, ir à praia para recarregar as energias. Tenho também o hábito de praticar atividade física, principalmente corrida e jogar futebol.

Como o senhor imagina que será a Medicina nas próximas décadas, no que se refere à infectologia?

A medicina do futuro pode ser conceituada como uma evolução do conhecimento médico associada ao desenvolvimento e domínio das tecnologias avançadas, com a finalidade de auxiliar os pesquisadores e profissionais da saúde a transformar a assistência ao paciente. Na área da infectologia, algumas doenças já podem ser avaliadas e diagnosticadas através de aplicativos de celular a beira do leito ou através de testes rápidos, cuja execução, leitura e interpretação dos resultados são feitas em, no máximo 30 minutos, sem necessidade de estrutura laboratorial, como HIV, Sífilis, Hepatite B e Hepatite C. Portanto, esse avanço tecnológico deve ser usado em campanhas para detecção de portadores destas doenças transmissíveis com a finalidade de diagnóstico, tratamento e prevenção. Como a maioria das doenças desta especialidade são agudas, mecanismos para alcançarmos um diagnóstico com mais precisão e rapidez e minimamente invasivo, através de exames em tempo real, facilitando o tratamento precoce e adequado, será fundamental para o sucesso terapêutico. Apesar do avanço previsível tecnológico em todas as áreas da medicina, principalmente no que se refere ao diagnóstico e tratamento, ainda a melhor forma de combater as doenças é a prevenção e, neste contexto, o desenvolvimento de novas vacinas com mais acurácia, efetividade e segurança aliada à conscientização da população quanto à importância da imunização na disseminação das enfermidades poderão minimizar surtos e epidemias futuras.

(Beto Silva e Eliana Teixeira)