É preciso manter viva a tradição do Cururu

Cururueiros cantam aos quatro cantos para fortalecer a música marcada pelo repente. (foto: Mariana Requena/JP)

“O cururu não morreu”. É assim que Dirceu Chiodi, 77, mestre do cururu em Piracicaba, justifica a necessidade de visibilidade e divulgação do ritmo musical tipicamente caipira.

Marcado pelo repente, uma espécie de desafio em trovas, e ao som da viola caipira, o cururu nasceu no interior, no início do século 20 e às margens do Rio Tietê, como canto religioso, uma fusão entre a cultura indígena e a jesuíta. O nome vem da palavra “sapo” na língua tupi, já que a música também era dançada pelos caipiras que pareciam imitar o animal.

Chiodi se lembra de seu primeiro contato com o cururu, aos 14 anos, na zona rural de Piracicaba, quando os bares da região eram tomados pelo estilo musical e grandes nomes da música caipira cantavam por ali, como Chiquito, Nhô Serra e Jorge Sampaio. “Eu gostava tanto de ver os cantores que aos domingos, às nove horas da manhã, eu vinha para a cidade com meus irmãos assistir as apresentações na rádio”, relembra.

Após uma carreira no futebol, interrompida por uma fratura na perna, e anos trabalhando como mecânico, Dirceu, já aos 40 anos, voltou à sua verdadeira paixão: o cururu. Além de fazer dupla com nomes famosos do ritmo, Chiodi ficou famoso pela apresentação, por 20 anos, do programa “Som da Nossa Terra”, da Rádio Educadora, onde cantou cerca de 200 composições próprias. “O cururu é o maior divertimento da minha vida e só me trouxe alegrias, além de sempre me incentivar a buscar conhecimento para produzir cantos de qualidade”, afirma o cururueiro com voz cheia convicção.

O amor pela música é compartilhado pelo amigo e companheiro no repente, Toninho da Viola, 75. Vindo de famílias de violeiros ligados ao ritmo do cururu, Toninho não escapou da regra. Viajou por diversos estados brasileiros tocando o estilo musical, que diz ser um ‘dom de Deus’. “Eu toquei o cururu a minha vida toda, desde quando era criança, é um dom que Deus me deu”, diz.

Mais de um século depois da criação do ritmo musical, o cururu resiste no interior paulista e finca suas raízes no coração dos moradores que apreciam a boa e velha música caipira do Rio Piracicaba. “Nunca parei de tocar, porque o cururu e a música estão dentro de mim, representam o caminho da minha vida, então não dá para parar”, destaca Toninho.

Mariana Requena
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