E tudo vai ficar…

Muitas pessoas têm o costume de não se sentirem satisfeitas com o que têm, e assim vão continuando a viver num constante querer-querer mais.

E assim, o que será dos preciosos momentos de deleite com a família, do gozo dos bens, do privilégio da própria inteligência e das necessidades do corpo? Deixar de vivenciar sensações prazerosas é um delírio.

A insatisfação, que não acaba, e que agonia, por outro lado tem um lado bom, que é motivar o homem a melhorar seu padrão de vida e aceitar o novo com o fim de elevar seu aconchego e seu bem-estar.

Por índole quase tudo que é novo atrai, pode ser uma ferramenta, um emprego, uma bolsa, um sapato, uma relação, um instrumento, um veículo ou um caminho.

A novidade que estimula sempre incita as pessoas a associarem coisas boas e momentos apaixonantes a recompensas. Por isso saem à luta para receber prêmios e com isto colaborar com a criação de um mundo melhor aos seus descendentes.

Essa insatisfação com o antigo, mesmo funcionando bem, cria esperanças de uma vida diferente, longa e feliz. A novidade e a surpresa são o campo da curiosidade. A inveja, a cobiça, a gula e outros pecados são perdoados pela sociedade – ou por uma divindade -, mas sempre mediante a aplicação de algum tipo de castigo ou de autocondenação que se dá pelo arrependimento.

A paz duradoura é boa, mas quando extrapola seu tempo de validade é prejudicial.

Mas nem tanto aos céus, nem tanto a terra. O ideal sempre foi o meio termo. Seria ruim se o homem se satisfizesse plenamente com o que tem porque a mente em desuso ficaria entorpecida comprometendo a força da criação.

Há algumas décadas não havia canetas esferográficas, máquinas eletrônicas, televisão, implantes, transplantes, internet e tantos outros eventos tecnológicos que foram efeitos da insatisfação do homem com a mesmice, com o antigo e com a vida precária. Então ele passou a querer mais, correndo riscos para ser feliz.

A inveja, a cobiça e a beleza obrigam as pessoas a saírem da inércia à procura do conforto, do sustento e dos remédios para as dores do corpo e da alma. A rã não salta para exibir sua beleza, mas por precisão.

O escritor e filósofo Rubem Alves, num capítulo de seu livro “Se eu Pudesse Viver Minha Vida Novamente”, escreveu sobre o ter, o não ter, e o deixar como está, seguindo uma parábola de Jesus:

Havia um homem rico cujas terras lhe deram grande colheita. E pensava: O que vou fazer agora? Não tenho onde guardar a colheita. Disse então: Já sei o que vou fazer; vou derrubar os celeiros para fazê-los maiores e ali guardar todo o trigo e os meus bens; e direi à minha vida: Tens muitos bens armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. Deus retrucou: Insensato! Ainda nesta mesma noite tirarão a tua vida. E para quem ficará tudo o que acumulaste?” – (Lucas, 12, 16-21).

Acumular é um comportamento instintivo que estabelece guardar para não faltar, ou ainda pelo instinto de sobrevivência.

Posses significam preocupações, necessidade de espaços, despesas, limpeza, manutenção, impostos, segurança, armazenamento…

A busca do elixir da longa vida e da alegria não deve terminar porque é o imperativo maior na vida de todos os seres.

Tesouros guardados são bens inúteis e sem valor de revenda no além. E qual será o destino de nossas fotos, das cartas de amor cuidadosamente guardadas, dos talheres nunca usados, das roupas, dos livros e de nossas lembranças? Por esse motivo Deus chamou de insensato o fazendeiro.

Bernardo Soares, um dos heterônimos do poeta e escritor Fernando Pessoa, em sua obra – Livro do Desassossego – ao estilo de Santo Agostinho nas Confissões, postulou:

– “O que possuímos? Possuímos um corpo. Se possuímos, ele nos pertence? Possuímos pelo menos uma alma? Não a possuímos, pois se não possuo o meu corpo, como posso possuir uma alma sem ele? Se não possuo a minha alma, como posso possuir um corpo com ela”?