Ela respira música desde criança

Maestrina nasceu em uma família de músicos; esta semana ela receberá o Titulo de Cidadã Piracicabana. (Foto: Gerard Waller)

A música foi a primeira linguagem aprendida e absorvida pela maestrina Cíntia Maria Annichino Pinotti e seus três irmãos. Com influências musicais dos avós, os filhos da pianista Adelina Inez (Lica) Annichino e do advogado Nelson Antonio Pinotti cresceram em um ambiente musical.

A maestrina nasceu em Capivari no dia 27 de dezembro de 1961 e a família se mudou para Piracicaba, por causa da profissão do pai, que também era bancário, quando ela tinha seis anos de idade.

Além da maestrina, os outros filhos do casal seguiram a carreira artística: Sílvia Pinotti – músico (corne-inglês), Gláucia Pinotti – músico – (violino) e Lauro Pinotti – arquiteto e cineasta. Cíntia é mestre em musicologia pela USP (Universidade de São Paulo) e graduada em Regência e Clarineta pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Ao longo da carreira, a maestrina desenvolveu estudos musicais na Empem (Escola de Música de Piracicaba “Maestro Ernst Mahle”), participou de diversos cursos de férias em Campos do Jordão, Brasília, Londrina, Gramado e Tatuí, além de cursos de especialização em Regência Orquestral na Argentina e Itália e Regência Coral na Suécia, Finlândia, Estônia e Holanda.

Atualmente ela é a regente titular e diretora artística da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz em Piracicaba) desde 1988 – Coral Luiz de Queiroz, Coral Luiz de Queiroz-Noite, Grupo Vocal Luiz de Queiroz e Orquestra Esalq.

Cíntia foi regente e coordenadora das turnês com o Grupo Vocal Luiz de Queiroz em 2013 para Portugal e Polônia com projetos contemplados pela pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. Por três décadas, ela trabalhou na Empem onde foi regente do coro infanto-juvenil, coral misto, orquestra infanto-juvenil, orquestra sinfônica jovem, orquestra filarmônica e banda sinfônica e professora de clarineta, regência e matérias teóricas.

Nas horas vagas a maestrina não abre mão de tomar um café, encontrar amigos e viajar. 

No próximo dia 23, ela será homenageada pela Câmara de Vereadores de Piracicaba com o Título de Cidadã Piracicabana.

Nesta semana, em uma rara pausa na música, ela respondeu às questões desta entrevista para o Persona.

Como a música entrou na vida da senhora?

Temos influências musicais na família. Meu avô paterno tocava trombone na banda e minha avó materna era violinista. Ela, os irmãos e primos formaram em São Manuel a “Orquestra dos Irmãos Martorelli” que preparava espetáculos musicais e teatrais e regularmente acompanhava os filmes na época do cinema mudo (início do século 20). Minha mãe, Adelina Inez, é pianista e professora de Educação Musical com especialização em Canto Orfeônico pela PUC de Campinas. Dos 3 aos 6 anos, fui aluna dela no curso de Iniciação Musical. Então a Música foi minha primeira língua e também dos meus irmãos.

Como foi a sua infância?

Estudando, cantando, recitando, brincando na rua, convivendo com avós, aprendendo trabalhos manuais, ajudando em casa. Nasci em Capivari, tive minha musicalização inicial em Santa Bárbara D’Oeste e aos 7 anos, já em Piracicaba, entrei na Escola de Música “Maestro Ernst Mahle”. Lá minha mãe dava aulas de piano e todos os filhos tiveram oportunidade de estudar e até trabalhar. Fui professora e regente de diversos conjuntos na Empem por três décadas.

Por que a senhora escolheu a regência como carreira?

A Regência trabalha com muita gente e nos dá oportunidades bem variadas de desenvolvimento de trabalho, organização e liderança. Atualmente, com os Grupos Musicais da Esalq (três corais e Orquestra Esalq) posso unir uma centena de alunos, funcionários e pessoas da comunidade com idades que variam de 17 a 87 anos e que são estimuladas a desenvolver suas habilidades artísticas.

Clássica, de concerto ou erudita, como a senhora define o estilo de música com a qual trabalha?

Trabalho com música, aquela escrita para instrumentos e vozes. Dependendo da ocasião, pode ser erudita, popular ou folclórica. Para a cerimônia de entrega do meu Título de Cidadã Piracicabana pela Câmara de Vereadores de Piracicaba de autoria do vereador maestro Jonson no próximo 23 de outubro, preparamos músicas alusivas às tradições piracicabanas – Rio de Lágrimas, Madrugada Piracicabana, Piracicaba

Como a senhora recebeu a notícia do título de cidadã, pela Câmara e quem foi o vereador que a indicou?

Numa cerimônia de abertura das comemorações dos 25 anos do USP recicla aqui na Esalq, o maestro Jonson esteve presente e fez o comunicado da homenagem. Fiquei emocionada.

O que representa a honraria para a senhora?

O reconhecimento de muitos anos de trabalho em prol da arte desta “Piracicaba cheia de encantos”

Há um distanciamento desse estilo de música da sociedade? Por quê? As pessoas precisam ser apresentadas a diferentes estilos musicais, mas nem sempre isso é possível. Então, por intermédio dos meios de comunicação, acabam se acostumando esgotando que a influência econômica lhes impõe.

A senhora é professora, como avalia o interesse de jovens pela carreira na música e o que eles buscam?

Hoje as ofertas na mídia são muito amplas e dão aos jovens uma ilusão de que o sucesso é fácil e para todos. É necessário ser paciente, estudioso e atento às oportunidades viáveis.

Há espaço para os profissionais atuarem em Piracicaba?

Piracicaba é muito rica em possibilidades musicais a começar pela tradicional Escola de Música de Piracicaba “Maestro Ernst Mahle”, que há mais de 60 anos ensina e orienta bons músicos. Seguem-se diversas outras escolas com boas propostas educacionais. Temos também o Curso de Música Licenciatura pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), o que tem proporcionado aos alunos, estudo e oportunidades de trabalho em escolas e orquestras em Piracicaba e região.

A senhora tem formação e experiência na Argentina e na Europa, a música respeita fronteiras?

A música é uma linguagem universal. Então, a proximidade cultural entre os povos é estreitada quando o trabalho é musical.

Qual conselho a senhora dá aos alunos quanto a seguir a carreira na música, o que ela exige, há renúncias?

Muito estudo, pesquisa e disciplina. Ser músico exige muita dedicação e força de vontade. Importante ter boa orientação de professores desde a musicalização até a universidade. O dom existe, mas precisa ser lapidado.

Como a senhora avalia os incentivos por meio dos governos (municipal, estadual e federal) à cultura de maneira geral e, em especial, aos espetáculos musicais?

Temos bons e não tão bons momentos. Os incentivos são cíclicos.

No município pudemos realizar bons projetos de cursos e espetáculos por meio do Fundo Municipal de Cultura da Semactur (Secretaria Municipal de Ação Cultural e Turismo). A Festa das Nações também foi palco de oportunidades para diversas apresentações.

No estado, tivemos tempos muito férteis com os Festivais de Inverno de Campos do Jordão. Neles, despontaram vários profissionais que atuam no Brasil e no exterior.

Pela USP já tivemos muito apoio às atividades culturais, o que nos proporcionou a realização de diversos musicais, encontros de corais e viagens para encontros no Brasil, Portugal e Polônia.

Pela Fundação Vitae de apoio à cultura (no Brasil de 1985 a 2005), pudemos realizar diversos cursos de musicalização e regência para professores na Empem e eu pude participar como bolsista em Curso de Regência Orquestral na Argentina. Fechou e deixou uma lacuna no incentivo cultural.

As leis federais (Rouanet, por exemplo) de incentivo à cultura, trazem tanta dificuldade para a realização que muitas vezes, o projeto aprovado não pode ter continuidade porque não alcança a captação necessária.

Se a senhora não fosse musicista, qual outra carreira gostaria de seguir?

Algo no campo das Ciências Exatas. Antes das duas graduações em música (Regência e Clarineta/Unicamp – Universidade Estadual de Campinas) e o mestrado em Musicologia na USP (Universidade de São Paulo), cursei três semestres de Engenharia Civil na EEP (Escola de Engenharia de Piracicaba) e achava muito divertido. A música esteve sempre tão presente em minha vida que demorei para acreditar que ela seria também, minha profissão.

Beto Silva
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