Em ‘A Tirania do Amor’, Tezza faz retrato de família em meio à crise política

Desde o sucesso absoluto de O Filho Eterno (2007), Cristovão Tezza vinha se dedicando a compor um retrato da elite intelectual do Brasil com livros como Um Erro Emocional, O Professor e A Tradutora, segundo lugar na categoria romance do Jabuti do ano passado. Com seu novo romance, A Tirania do Amor (Todavia), Tezza investe seu olhar meticuloso para outra elite: a financeira.

Otávio Espinhosa, o protagonista do livro – e o personagem que o narrador cerebral de Tezza acompanha -, é um economista que trabalha numa empresa de investimentos à beira de um escândalo político. Seu casamento está em pedaços e seu filho mais velho, um estudante de jornalismo, rejeita de maneira agressiva toda a vida e a filosofia do pai. Ele ainda tem que lidar com a frustração de ter visto sua carreira acadêmica ridicularizada por uma banca e, na primeira linha do romance, decide renunciar à vida sexual.

O livro, imerso no atual momento político brasileiro, traz a construção de frase cuidadosa e densa que consagrou Tezza como um dos ficcionistas mais importantes do País. O escritor respondeu a algumas perguntas do jornal O Estado de S. Paulo por e-mail.

Na sua visão de ficcionista, como as duas “elites” se aproximam e como elas se afastam?

Um bom sociólogo poderia fazer um recorte mais preciso, mas imagino que a elite intelectual brasileira contemporânea, cuja voz exerce influência e ressonância nos meios de transmissão de cultura, tem origem e formação na universidade pública, e é predominantemente da classe média urbana. Boa parte vive em torno do aparato do Estado, mas não se confunde com a elite política. Esse perfil tem consequências na concepção de mundo da nossa elite intelectual, que tende a ser estatizante e um tanto nefelibata (porque está relativamente distante da vida real e concreta dos que vivem com menos segurança social e econômica). Não vai aqui juízo de valor: quando faço esse perfil, penso no processo da minha própria formação. Já a elite financeira vem de toda parte, porque, afinal o capital é selvagem por natureza e o Brasil é um país profundamente iletrado. A lei tem seu papel relevante, é verdade, mas é o lastro cultural que determina primordialmente se o magnata das finanças vai parar na cadeia por corromper políticos ou se vira referência filantrópica.

Você acredita que a ficção literária pode ter algum papel na discussão geral do País?

A ressonância da literatura, hoje, é praticamente nula; a arte da ficção literária está virando quase que um nicho de mercado. Nesse sentido, o seu papel parece realmente mínimo. Mas não importa; escrever literatura não é uma atividade pragmática. A ficção é uma linguagem que comenta todas as outras, sem se confundir com nenhuma delas. No sentido da permanência, Memórias Póstumas de Brás Cubas diz mais do Brasil do final do século 19 do que todos os tratados da época.

O romance instrumentaliza um sentimento comum: enquanto governantes, grandes empresários e etc. decidem rumos do País, pessoas continuam com seus problemas comuns e cotidianos. Esse sentimento está mais presente na sociedade e na literatura nos últimos 5 anos?

Para a esmagadora maioria da população, pensar nas questões políticas é pouco mais que um passatempo, uma forma de marcar um espaço ou uma identidade social. Para quase todo mundo, e na medida em que o País parece andar sozinho e sem nenhuma hecatombe institucional, a política exerce uma ressonância apenas de superfície. O que realmente nos preocupa não é a prisão do Lula ou a conversa de garagem do Temer; é se o encanador vem mesmo resolver o vazamento do banheiro, a quantas anda a vida sexual, de quanto será o reajuste do aluguel, se o filho vai tomar jeito, se a mulher vai pedir divórcio, se o computador pifou, se o carro bateu, se o namorado está traindo, se compro uma TV nova, etc. Nossa vida concreta é uma cadeia ininterrupta de supostas miudezas, mas são elas que nos deixam em pé. A literatura de ficção trata exatamente disso; trata de pessoas.

Otávio é absolutamente dependente das mulheres ao seu redor. Como você nota a mudança com que seus personagens masculinos passaram a se relacionar com as personagens mulheres?

Obviamente, as formas culturais das relações afetivas entre os gêneros vêm mudando profundamente nas últimas décadas. Talvez estejamos vivendo no epicentro de algumas mudanças radicais, sobre as quais ainda não temos controle ou mesmo uma visão clara de suas consequências sociais. Nunca pensei especificamente sobre isso nos meus livros, embora desde os primeiros romances eu tenha procurado dar forma a vozes femininas autônomas.

Numa coluna recente, você critica “a autoridade totalizante (no narrador) que é a marca do nosso tempo”. Parece que uma “autoridade totalizante” se acentua no nosso atual debate político e social, via redes sociais e de polarização raivosa. Como não cair numa armadilha como essa ao construir uma ficção inserida nesse contexto?

Sim, estamos vivendo debaixo do império de discursos totalizantes, oniscientes e excludentes. A literatura pode ser um ótimo antídoto contra a brutalidade polarizada dos nossos tempos. Ao deslocar o foco das abstrações políticas e teóricas, das massas homogêneas e mecânicas de pensamento e representação, para a incrível complexidade das pessoas, tomadas isoladamente, a literatura de ficção abre um caminho de percepção da realidade que é naturalmente mais generosa e tolerante. O objeto da literatura são as pessoas e suas relações interdependentes. Mergulhar nesse mundo mais com o espírito de descoberta do que de certezas é uma chave essencial da ficção.

A TIRANIA DO AMOR
Autor: Cristovão Tezza
Edit.: Todavia (176 págs., R$ 49,90, R$ 29,90 o digital)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.