Em defesa da Vida

O preceito “não matarás”, apresentado por Moisés como parte dos Dez Mandamentos e um dos fundamentos éticos das religiões de tradição judaico-cristã, continua desprezado e descumprido por significativa parcela da humanidade.

Nas religiões e escolas espiritualistas de outras origens também há o imperativo de se respeitar a vida. Algumas religiões orientais, por exemplo, expandem o conceito e consideram sagrada toda expressão de vida, não apenas humana, motivo pelo qual evitam matar ou causar danos a qualquer ser vivo.

Essa perspectiva nos convida a uma reflexão sobre a sacralidade da vida e consequentemente acerca do nosso papel como cooperadores conscientes da Criação e da Natureza, considerando os seres dos demais reinos como nossos irmãos, à semelhança de Francisco de Assis, que estabeleceu uma relação genuinamente fraterna com todas as criaturas. Quem alcança uma percepção, ainda que parcial, dessa realidade, natural e gradualmente se liberta de tendências destrutivas em relação a pessoas, animais e vegetais.

No que diz respeito aos seres humanos, e sob uma perspectiva psicológica, além da morte do corpo há formas mais sutis de se atentar contra a vida e a integridade da existência: a maledicência, que arruína a reputação de alguém; a crítica constante, que destrói o entusiasmo alheio; o materialismo, que tenta aniquilar a fé; nos relacionamentos, a possessividade, o autoritarismo, a intolerância e as ameaças, que procuram matar no outro a liberdade e a alegria de viver.

Com relação às crianças, não se pode esquecer quão cruel é a sociedade que lhes mata a esperança ao lhes negar o direito à inocência, à educação digna, à integridade física e psíquica.

Digno de nota é o apelo do papa Francisco, referindo-se ao quinto mandamento, pela abolição da pena de morte em todos os países, pois a pena capital significa, sob quaisquer justificativas, institucionalizar e oficializar o assassinato, e a sua extinção marcará um passo importante na erradicação da crueldade humana. As guerras também entram nesse contexto, pois, por motivos políticos, econômicos, religiosos e outros, se destroem incontáveis vidas, refletindo a brutalidade e o primitivismo humano.

A abordagem do mandamento pode não ser somente a de se evitar o negativo, a destruição, mas principalmente a de se promover o positivo, ao se estimular ações para uma vida plena, livre, criativa e saudável para todos.

As religiões e filosofias espiritualistas ressaltam, de modos diferentes, a sacralidade da vida e a importância de se respeitá-la em suas mais diversas manifestações; propõem uma existência digna, responsável e fraterna, na qual a experiência evolutiva se faça em harmonia com as leis da Vida e a favor de todos os seres. Nesse sentido, os esclarecimentos e as campanhas dos movimentos religiosos e espiritualistas em defesa da vida e contra a prática do aborto intencional prestam inestimável serviço à sociedade, ao mesmo tempo que expressam obediência ao mandamento supracitado.

A prescrição “não matarás” envolve muitos aspectos e sutilezas na sua compreensão bem como na sua vivência. Estamos longe de perceber o alcance desse mandamento e o quanto ainda precisaremos nos sensibilizar até que sejamos incapazes de causar dano intencional aos seres vivos, reconhecendo-os, tanto quanto a nós mesmos, como manifestações sagradas da Criação.