Em encontro na Coreia do Sul, Kim fala em ‘novo capítulo’ e ‘era da paz’

Kim Jong-un atravessou o paralelo 38 que divide a Península Coreana às 9h28 locais (21h28 desta quinta-feira, 26, em Brasília) e se tornou o primeiro governante do Norte a pisar no Sul desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953. Do outro lado da fronteira, ele foi recebido por Moon Jae-in, o presidente eleito em 2017 com uma plataforma que defende a coexistência pacífica e a cooperação entre os dois lados separados em zonas de influência comunista e capitalista depois da 2.ª Guerra.

Em um momento histórico, o atual Kim apertou a mão de Moon e saltou o pequeno muro de concreto que divide os dois países na Zona Desmilitarizada de Panmunjom. Depois de posar para fotos ao lado do anfitrião, ele sugeriu que ambos fizessem o caminho inverso e dessem um passo para o outro lado do paralelo 38.

Após ingressarem na Casa da Paz, Kim assinou um livro de visitas, onde afirmou: “Uma nova história começa agora – no ponto inicial da história e na era da paz”. Em discurso, ele declarou que quer “iniciar um novo capítulo” nas relações com a Coreia do Sul e garantiu que Pyongyang não descumprirá mais acordos alcançados anteriormente entre os dois países.

A agência estatal norte-coreana KCNA disse que Kim está disposto a discutir “de coração aberto com Moon Jae-in todas as questões envolvidas na melhora das relações intercoreanas e para alcançar paz, prosperidade e reunificação da península”.

A cúpula foi a terceira da história entre Seul e Pyongyang, a primeira em 11 anos e a única realizada abaixo do paralelo 38. As duas anteriores, em 2000 e 2007, ocorreram sob o comando de Kim Jong-il, pai do atual ditador, e levaram presidentes sul-coreanos à capital do Norte.

Filho de refugiados de guerra da Coreia do Norte, Moon Jae-in aposta seu capital político na reaproximação com Pyongyang. Ele disse a Kim que esperava manter conversações francas para alcançar um “acordo audaz e dar um presente a todo povo coreano e às pessoas que querem a paz”.

Na agenda da reunião está a desnuclearização da península, a cooperação bilateral e a possibilidade de um acordo de paz que coloque fim oficialmente à Guerra da Coreia (1950-1953), suspensa por um armistício.

O encontro deve ser seguido por uma reunião de cúpula entre Kim e o presidente dos EUA, Donald Trump, a ser realizada em maio ou junho. Os EUA manifestaram nesta quinta seu desejo de que a o encontro entre as Coreias “avance a um futuro de paz”.

O atual representante da dinastia norte-coreana assumiu o comando do país mais fechado do mundo quando tinha menos de 30 anos e dedicou-se à construção do arsenal nuclear que levou a Coreia do Sul e os americanos à mesa de negociação. Nos sete anos desde sua chegada ao poder, ele realizou 99 testes de mísseis balísticos, mais que o dobro dos 46 conduzidos por seu pai ao longo de quase duas décadas.

Robert Daly, diretor do Instituto Kissinger sobre China e EUA do Wilson Center, disse que há quase um consenso em Washington de que Kim não abandonará seu arsenal nuclear, apesar das exigências de Trump nesse sentido. “Quando olharmos para trás daqui cinco ou dez anos, nós provavelmente veremos essas cúpulas como o início do processo pelo qual os EUA e a comunidade internacional gradualmente se acomodaram à realidade de que a Coreia do Norte tem armas nucleares.”

As conversas de Kim com Moon e Trump têm o potencial de mudar o tabuleiro geopolítico da Ásia e realinhar os interesses dos atores da região. Ausente da atual rodada de conversas, a China é vista como um ator essencial para a estabilidade de soluções de longo prazo. “Não é possível ter qualquer acordo que não agrade à China”, observou Daly. Segundo ele, nos últimos dois anos, Pequim tentou se distanciar do problema e apresentá-lo como algo que dizia respeito a Washington e Pyongyang. “A China pintou a Coreia do Norte e os EUA como crianças irracionais e a si própria como o adulto racional.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.