Em nome de Deus

David Chagas

Prestes a comemorar o nascimento do Menino, sei lá se posso ou não, dizer o que me tem incomodado tanto: o usar desmedido do nome de Deus, Espírito de Amor e Vida. Dá-me um desassossego ver tanta gente usando Seu nome de forma indiscriminada ou atribuindo sua intercessão, a um e outro, em qualquer circunstância. Hora de escrever sobre isso. Não hesito com o que me dita a consciência. Cumpro.

Vez por outra me ponho a falar com Ele. Do nosso jeito. Ora entendo que seja ainda Menino, jeito angelical de afagar. Quem já teve criança em casa, entende. Ora, me assusto. Vejo que não está para brincadeira qualquer, aborrecido. Como que sentado em cadeira de espaldar, solenemente indica seu mal-estar com o mundo. Assim, trocamos conversa em que penso, penso, e, pela força da fé, sinto a resposta precisa. Sei bem que a resposta vem de mim mesmo, porque o homem humano sabe perfeitamente o que Deus espera dele. É ouvir a Palavra e cumpri-la. Ler, entendendo. Saber ser, saber fazer, amar.

Bem, mas o que quero dizer é que o nome de Deus anda brincando de boca em boca quase a vulgariza-lo. Não pode. Amigos meus, vítimas, há alguns meses, de violento assalto, receberam indignados bons votos, tão logo os assaltantes terminaram de dilapidar a casa. Fiquem com Deus! – anelo repetido com insistência ao deixarem a residência, mal podendo carregar o que haviam pilhado.

Na garagem se deram conta de que haviam trazido consigo chave de um dos veículos e, para seu maior conforto com bagagem tão intensa, voltaram para exigir chave do segundo carro. Entregue, não esconderam a satisfação em ver cumprida a ordem e soltaram: “Não se movam daí enquanto não supuserem alguma distância nossa. E Deus os abençoe muito”.

Revendo o acontecido, alguém se lembrou de que, num deles, o abuso no uso do nome de Deus foi tanto a ponto de exibir tatuagem com a suposta face de Jesus Cristo com duas ou três expressões evocativas, as mais surpreendentes, como “Deus me guie! Deus me cuide! Deus me livre de meus inimigos!”, sabendo que, no caso, o inimigo era ele.

Clamar por Deus, usar seu nome em súplicas e rogos, exige “apagar a luz, calar a voz, encontrar a paz, folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios”, silêncio, exige silêncio, para sentir transbordar o amor de Deus sobre o homem. O afeto e a benevolência bloqueiam qualquer outra manifestação que não seja zelo, dedicação, apreço. Rechaçam a injustiça, o erro, a maldade. Deste modo, penso eu, nenhum ser humano afeito ao crime poderia valer-se destas expressões como desejo. “Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.”

Bonito de ler e sentir, não é mesmo? Direitinho o que Deus espera e quer. Pensar que Deus existindo é possível saber de sua mágoa querendo romper o laço feito com um certo João apelidado dEle, de Deus, como se fora escolhido por Ele mesmo para deixar este rastro de maldade de que se fala tanto agora. O que espero? Que não seja verdade. Tomara.

Com Deus existindo, sempre um milagre. Ou não terá sido intervenção dEle, de Seu Amor, a presença de dois jovens policiais, em Campinas, evitando tragédia ainda maior do que a ocorrida na Igreja da Conceição, ao darem fim ao gesto tresloucado de homem desprovido de humano sentimento.