Engenheiro civil e“do humor”

humor Prestes a assumir pela segunda vez a presidência do Salão Internacional do Humor, Fagundes conta sobre seu lado esportista e o amor pelo humor gráfico piracicabano. ( Foto: Claudinho Coradini /JP)

O Salão Internacional de Humor tem um novo presidente. Trata-se de Luiz Antônio Lopes Fagundes, nascido em 30 de agosto de 1950, em Piracicaba. Filho de Virgílio Lopes Fagundes e Diva Lopes Fagundes. Atualmente vive em Piracicaba com a esposa Marciara, e os dois filhos, Rafael e Marcela Chiodi Fagundes. O anúncio do nome dele para esta função aconteceu na cerimônia de abertura da mostra deste ano, em 25 de agosto, no Teatro do Engenho. Fagundes é engenheiro civil, ex-secretário municipal de Turismo (1973 a 1976) e Transportes (1982 a 1984) e um dos fundadores do Salão. Ele também é o idealizador do Parque da Rua do Porto e responsável pelo projeto dos itinerários das linhas de ônibus e dos terminais de integração. Ele também foi guia turístico na Europa e Estados Unidos na época em que não tinha GPS, celular ou cartão de crédito. Enquanto secretário de Turismo, organizou a 1º Festa do Milho de Tanquinho e, em parceria com o Lions Club, a 1º Feira de Artesanato da cidade. Ele é o fundador da Banda do Bule e atua como voluntário e conselheiro da construção do novo hospital da Fundação Ilumina. Além disso, conquistou no ano passado três medalhas no Fina World Championship Masters, o mundial de natação realizado na Rússia, sendo duas de ouro (50 metros e 100 metros livre) e uma de prata (50 metros de peito). Ao todo, ele conquistou 62 medalhas no primeiro lugar em competições brasileiras, 35 em segundo lugar e 18 de bronze. Fagundes possui 22 recordes sulamericanos, seis panamericanos e dois brasileiros. Nesta entrevista, para a seção Persona, ele conta um pouco sobre a própria história de vida, trajetória, projetos para a 46º edição do Salão Internacional de Humor e revela a paixão que tem pela cidade.

Você é filho de atleta, seu pai jogava basquete. Mesmo seguindo para um ramo de atuação voltado para o intelecto, a hereditariedade falou alto e você também acumula medalhas na natação. Nos fale um pouco sobre a prática desse esporte, dos campeonatos e qual sua maior conquista?

Meu pai foi um dos primeiros cestinhas dos jogos abertos do interior. Ele sempre jogou muito bem, com doze anos quis imitá-lo, mas logo percebi que não era o meu talento. Meu pai jogava no Regatas e eu costumava ficar na quadra esperando o jogo acabar. Um dia fui convidado a participar de uma competição de natação, foi quando conquistei a minha primeira medalha de prata. A partir dai, treinei até os 19 anos no Clube de Campo, depois, com o encerramento da equipe, trilhei outros caminhos. Fiquei parado dos 20 até aos 43 anos, voltei porque fui provocado por um amigo. Desde então não parei mais. Sempre tive o sonho de participar de um campeonato mundial. Na passagem de ano, de 2016 para 2017, prometi a mim mesmo que conquistaria o ouro. Me dediquei, treinei muito e conseguia me visualizar chegando em primeiro lugar. De certa forma estava convicto de que ganharia. E assim foi, no lugar de uma, ganhei duas medalhas.

O que o esporte te ajuda em outras áreas da vida?
O esporte é a melhor escolha que as pessoas podem fazer. A natação é um esporte diferenciado dos outros, depende única e exclusivamente de você. Tem que ter determinação, traçar objetivos, porque só depende do treino e do quão longe você pretende chegar. É individual demais. O treino físico é também um exercício mental. Quando você treina faz também uma reflexão, relaxa, desestressa, a sensação é indescritível.

Outro feito seu é o projeto dos itinerários das linhas de ônibus e dos terminais de integração. Como surgiram esses projetos?
Atuei em diversos setores. Idealizei o primeiro Terminal Central de Integração, o TCI. Quando assumi a Secretaria, a cidade não tinha nenhum mapa, nenhum traçado, para saber qual era o trajeto dos ônibus, tínhamos que perguntar para a empresa. Eram oito funcionários para cuidar de toda administração da cidade. Comecei estudando as normas internacionais de itinerários, pesquisando qual era a distância mínima de uma parada para outra e comecei traçar um projeto de otimização das linhas, por um programa básico que tinha na época, com todos os insumos, custos e quilometragens. Assim comecei a notar que, por exemplo, tinha cinco linhas que saiam do Centro e iam para o Santa Teresinha. Na hora do “rush” justificava, mas passado esse horário não. Pedi então ao prefeito da época que disponibilizasse funcionários para traçarmos um itinerário novo. Ele alegou que não tinha. No lugar, contratei 34 estagiários, que se revezavam andando de ônibus, das 5h30 da manhã até 11h30 da noite e anotavam quantas pessoas subiam e desciam ao longo do trajeto, durante quinze dias. Após esse período já tinha uma estatística considerável e começamos a traçar novas rotas. Na época a população se revoltou mas, eventualmente quando eu apresentava a essas pessoas a minha pesquisa, todos acabavam percebendo que realmente, o meu projeto tinha fundamento.

Conte um pouco sobre a fundação do Salão Internacional de Humor de Piracicaba?
Assumi o Departamento Municipal de Turismo, com 23 anos. Eu tinha um sonho de montar um museu da imagem e do som. Pedi para o prefeito disponibilizar uma verba para esse salão de fotografias. A princípio nosso objetivo era fotografar a cidade, pegar depoimentos de folcloristas, filmar músicas e danças, para contar um pouco a história da cidade. Como morava no Centro, tinha como hábito sentar na praça, frente ao Café do Bule, onde hoje é a Difusora. Sentava com os amigos para bater um papo e foi quando idealizamos uma exposição de quadrinhos. Ali surgiu a ideia do primeiro Salão de Humor. No segundo evento do Salão, o Zélio tinha intenções de trazer um francês para expor no Brasil. A partir dai nasceu então o salão internacional de humor. No ano seguinte o terceiro salão já estava internacionalizado com a presença de vários artistas de diversos países, do mundo inteiro.

Porque sentiu necessidade de criar o salão de humor?
O Salão Internacional de Humor de Piracicaba surgiu em 1974, em meio à ditadura militar. Era algo que provocava, contestava, além de expor a realidade brasileira, através do grafismo. Essa é a proposta do nosso salão, mostrar a realidade do mundo e antecipar o que está por vir, através da expressão do desenho, do cartunista. Como secretário de Turismo senti que era uma forma de projetar Piracicaba para o resto do mundo, torná-la conhecida chamando pessoas para cá.

Você chegou a pensar que o evento chegaria a 45º edição, principalmente tendo o prestígio que tem?
Tinha meus receios, pois dependia única e exclusivamente da prefeitura, tínhamos pouquíssima ajuda de terceiros. Meu medo era que o Salão tivesse tendências políticas e tornasse partidário. Isso seria muito perigoso. O salão é aberto para críticas gerais, não importa o lado. O mais importante é a arte. A direção nunca pode tomar partido, o dia que isso acontecer o evento acaba. O salão é uma expressão de arte que evolui a cada dia mais em qualidade. Fui presidente da 37º edição do Salão. Naquele ano sofremos um boicote de alguns cartunistas porque estávamos de certa forma tirando o privilégio de alguns deles. Eles disseram que não iam participar, fizeram inclusive um abaixo-assinado. Mediante aquele situação, o que fizemos? Demos a volta por cima. Os desenhos na época tinham que vir originais, via correio e isso tinha um custo muito grande, de receber e de postar novamente devolvendo. Em parceria com uma empresa de publicidade criamos, então, um site bilingüe e começamos a aceitar desenhos via internet. Até então tínhamos uma média de 2 mil participantes de 30 países. Naquele ano tivemos a participação de 84 países e de 4.500 participantes. Atualmente contamos com um site que atinge qualquer país do mundo, em qualquer idioma, com tradução simultânea.
Eu sonhava com o Salão, mas não nessas proporções. A princípio fizemos press release, pegamos nas embaixadas os endereços da imprensa do mundo todo, fizemos folders com todas essas informações e enviamos para 1500 lugares. Quando íamos a São Paulo, parávamos em todos os postos pregando panfletos para divulgar o Salão. Naquele tempo era mais fácil organizar as coisas, muito embora tínhamos menos recursos, as pessoas trabalhavam por amor. Hoje ninguém faz nada de coração, por dedicação à cidade. Isso é triste, porque todos querem, de alguma forma, lucrar. Os tempos são outros.

Quais são os seus planos para a próxima edição deste evento? Como presidente, o que pensa em trazer de novidade para 2019?
Não posso antecipar nada porque preciso conversar com toda a direção do evento e com a Secretaria de Ação Cultural e Turismo para ver quais são os recursos e os objetivos. Estou pegando uma administração nova, se antecipar qualquer coisa e não conseguir realizar será desagradável para todos nós. Mas quero fazer algo diferente, vou me reunir com amigos para ver se damos mais um arranque no salão de humor que já tem um prestígio muito grande na cidade. O salão deveria ser não só de humor gráfico, claro que para isso seria necessário uma estrutura muito maior, mas eu imagino para além de cartuns e charges, realizar stand-ups, encontros de piadinhas de salão, concursos de humor teatral, para que chamássemos a atenção da mídia e de um público muito maior. É isso que eu vou tentar fazer. O salão é como se fosse um filho meu, não tenho como abandonar. O salão trás muitas pessoas de fora da cidade. Conheço um artista plástico que veio pela vigésima quinta vez á Piracicaba. E não é só ele. Muitas pessoas vem em todas edições, de todos os lugares do mundo. Somando esse fato, mais os gastos com hotel, restaurante e comércio o Salão contribui e muito para o desenvolvimento da cidade.

Com a tecnologia, a nova geração perde cada vez mais o interesse pela arte, que pode ser acessada e contemplada virtualmente, sem a necessidade de locomoção. Essa tecnologia prejudica, de alguma foram, o salão?
O impacto da imprensa é maior do que a rede, porque, quando se tem algo publicado no papel, é mais fácil fazer durar por mais tempo. Nas redes tudo é muito rápido, instantâneo. Não atinge todo o público. Mesmo que a pessoa não se interesse pelo assunto, ele vai até ela mesmo assim. O facebook nos mostra apenas aquilo que nos interessamos, o novo sistema de logaritmos fez com que fossemos prensados dentro de um mundo imaginário que nós mesmos criamos. Prensados dentro de uma bolha, só temos acesso a uma qualidade de refeição, de arte, de imagens, de opiniões que gostamos. As redes deixaram de nos abrir o horizonte, nos limitou muito. Diferente das revistas e jornais impressos, a internet vai te fornecer somente as informações que você quer ver.

Como futuro presidente do salão de humor, qual é a sua estratégia para manter a qualidade do evento aliado as inovações? Como manter-se fiel a proposta original do salão?
Pensando, abrindo a cabeça e aceitando novas ideias. Se nos fecharmos só em uma ideia, afundaremos. Precisamos esquecer os padrões, pois eles não representam mais a realidade. Não podemos estagnar em lugar algum, devemos estar totalmente aberto a novos rumos, meios e processos. Precisávamos de mais divulgação. As pessoas não imaginam o tamanho do acervo do salão, que é riquíssimo, em termos de informação. O que ocorreu no mundo, o que as pessoas pensavam, em todos os aspectos do país, saúde, educação, movimentos sociais. O salão conta através do humor, muitas vezes o humor sarcástico, um retrato desenhado de realidades. Uma imagem fala mais que mil palavras, muitas pessoas ainda não entenderam a importância do Salão.

Em sua opinião por que é importante perpetuar e conservar na história do Salão de Humor?
O salão assim como todas as outras coisas, precisam se adaptar aos novos tempos e responder as demandas dos novos tempos. Pretendo ainda contemplar a 50º edição do salão. A mostra tem um valor histórico muito grande. Jogaremos fora um dinheiro que está no cofre? Jamais! Não devemos viver do passado, devemos olhar para frente. Mas o passado precisa ser reconhecido como parte importantíssima da nossa história, como base, algo que fez parte de nós. O passado é nosso guia para chegar ao futuro. Devemos preservar a história porque é dela que vivemos.

(Raquel Soares)