Eram três rapazes

Jornalismo é sempre o registro de um momento, uma agenda histórica

A vida nem sempre nos dá boas notícias e a imprensa, acreditem, não tem nenhum prazer em falar das mazelas humanas. Há quem acredite que os jornalistas são como urubus sobre a carne ainda fresca. Não, não somos. Nesta edição você, leitor, vai saber detalhes sobre o acidente numa empresa em Charqueada, desde os básicos que indicam o que aconteceu, quando, como e por quê até opiniões e posicionamentos, mas não vai ver na matéria de Rodrigo Guadagnim e o repórter fotográfico Claudinho Corradini – que aliás foi quem trouxe a primeira notícia da tragédia de Charqueada – acompanharam, desde o meio da manhã até a tarde, todo o procedimento de atendimento do Corpo de Bombeiros, Cetesb, Polícia Militar e outros órgãos públicos e profissionais particulares. Eles viram familiares aflitos chegando e saindo escorados em parentes; vizinhos da empresa em narrativas assustadas, funcionários abatidos e que sentiram todo o clima de pesar e tristeza da situação. Geralmente, as matérias jornalísticas tentam ser objetivas e diretas, mas o jornalista não é. O repórter, aquele cara que vai a campo e fala com as pessoas, não passa de uma pessoa como você que me lê agora. Guadagnim disse diversas vezes, durante a cobertura, que não podia simplesmente jogar os nomes dos três rapazes mortos na internet e correr o risco de um familiar ficar sabendo da desgraça por um post. Eu, sinceramente, admirei meu colega neste momento. Um acontecimento tão nefasto para pessoas, famílias e também para a empresa e as pessoas e famílias dessa empresa, precisa ser tratado com cuidado e respeito. Jornalismo é sempre o registro de um momento, uma agenda histórica, porém, não nos foi outorgado nenhum poder especial de julgamento e condenação. Aliás, se há uma coisa que aprendi nessa profissão é, temos que sempre defender a justiça, mas nunca a vingança. Aos familiares, amigos, colegas de trabalho e à empresa, nosso respeito e melhores estimas.

(Alessandra Morgado)