Escola sem partido I

Esse tema tem despertado as mais antagônicas posições, contudo, talvez seja importante abordá-lo de outra forma. É preciso olhá-lo sobre outros ângulos para melhor compreender o tema. Para depois tomar uma posição contra ou a favor. A discussão desse projeto traz argumentos extremamente válidos de ambos os lados. Nosso objetivo é tentar expor outras abordagens a esse tema tão polêmico para (talvez) então chegarmos a algumas conclusões, ou talvez, a outros caminhos.

Para discuti-lo é necessário que o leitor deixe de lado (ao menos por pouco tempo) convicções prontas e acabadas sobre o tema. Também é importante não assumir uma posição simplista, pois esse tema está para muito além do “sou contra” ou “sou a favor”.

É preciso olhar a quem se objetiva proteger (aos alunos?) e quem, por muitos anos, se aproveita do sistema educacional tal como está estruturado hoje. É necessário separar a função de professor, da função de cidadão politicamente pensante e religiosamente crente (se é que isso seja possível na prática). Observar as diferenças, no que toca à aplicação desse projeto, entre as escolas particulares e as escolas públicas, dentro do âmbito do princípio geral de liberdade. E, por fim, devemos nos dedicar a estudar se, na prática, o que o projeto propõe é possível ou realizável de fato, ou apenas é uma mera utopia legal.

Todas essas reflexões não cabem em um só texto (por essa razão esse será o primeiro) e são bem-vindos todos os comentários divergentes, mas deixando claro que se trata de uma opinião, ou seja, a emissão de um juízo de valor sobre o tema. Duas questões prioritárias a esse debate devem ser levantadas: (1) O que originou esse projeto de lei que existe desde 2004 (mas só agora o debate dele veio à tona)? e (2) Por que há tanta raiva envolvida nessa discussão (ou por que ela sempre é tão acalorada)?

Para responder à primeira pergunta é necessário refletirmos nossa própria experiência escolar, ou seja, lembrar como o ensinamento nos era passado. Como eram nossos professores e o que eles ensinavam? É certo que cada um teve sua própria experiência, contudo, todos nós, sem exceção, tivemos professores que em algum momento extrapolaram o programa pedagógico e nos transmitiram suas ideias e convicções pessoais. Em especial, mas não exclusivamente, os professores de humanas.

Mas o que tem isso demais? Afinal, não conseguimos separar completamente o que falamos (e o que escrevemos) de nossas convicções. Todos nós, ao expormos nossas ideias, revelamos (às vezes, sem perceber) que estas são fruto de um conjunto de juízos de valores construídos ao longo de nossa vida e de nossa estrutura familiar ou cultural. O professor não escapa a essa regra. O que o difere, contudo, é o público para o qual ele expõe suas ideias e o conteúdo do programa pedagógico (a que ele deveria estar submetido).

Essa exposição de ideias se dá na escola, onde aquele que transmite a lição (o professor) fica em frente de um grupo de crianças (às vezes, até num tablado mais elevado), as quais são, por sua natureza, inexperientes e imaturas. Esse público (alunos) absorve, tal qual uma esponja, tudo que lhe é dito. Infelizmente, não possuem subsídios (bagagem de conhecimento) para contestar o que lhe é dito e se possuem ou se ousam contestar, são ridicularizados perante seus pares. É esse contexto que deu origem ao projeto da Escola sem Partido, há 14 anos.

A segunda pergunta pode ser respondida mais facilmente: a raiva e o calor das discussões tem muito a ver com a (potencial) perda de poder. Esse projeto tem o condão de frear ou retirar dos professores muito de seu poder perante os alunos. Mais que isso, esse projeto interfere diretamente no modo de se formar futuros cidadãos votantes. Incutir ideias já pré-formatadas e transmiti-las como se “só houvesse um lado da verdade” (seja ela política, filosófica ou religiosa) é o ponto mais grave (e mais perigoso) desse tema.