Escola sem partido IV

A minha vida inteira ouvi o mantra da educação como a solução de todos os problemas brasileiros. E, por consequência, a solução para o progresso do Brasil. Educação para o povo! Pois a educação seria a base de tudo na vida. Cidadãos mais educados, país próspero. Certo? Errado. Nada mais equivocado do que isso. A visão é tentadora, porém simplista demais.

Peço desculpas aos idealistas da educação e aos entusiastas desta, como foi o Professor Almir de Souza Maia. Não houve em Piracicaba maior defensor da educação do que o saudoso Professor Almir. Porém, como já tive oportunidade de lhe dizer pessoalmente: a educação não é a solução por si só, é preciso analisar como ela é executada. E aqui está um vale intransponível.

Nesse passo, é importante lembrar o que diz o artigo 206, inciso III, da Constituição da República, no que se refere a mais um dos princípios do ensino: “pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas”. Cabe a pergunta: será que nas escolas públicas (ou mesmo nas universidades) há de fato um pluralismo de ideias? Eu penso que não. E mesmo nas escolas e universidades privadas esse pluralismo de ideias fica apenas no papel.

Nem se diga que o pluralismo de ideias adviria naturalmente do pluralismo de professores, onde cada qual, teria ideias e opiniões diferentes e as exporia num (utópico) cenário de ensino ideal. A realidade, infelizmente, é outra (e isso eu já dizia para o Professor Almir Maia…). As escolas tendem a contratar professores que pensem do mesmo modo que os demais já contratados. Não há lugar para pluralidade de opiniões. Quem possui opinião divergente é exilado, excluído.

Voltemos à selva do ensino público. Como já tivemos oportunidade de dizer anteriormente, para muitas famílias o ensino público fundamental (e médio) é o único disponível. É nele que muitas crianças irão aprender suas primeiras (e talvez equivocadas) lições. Deixando de lado a trigonometria, teremos as lições das matérias chamadas «humanas». E levam esse nome justamente por não serem “exatas” e, portanto, imperfeitas. Por sua natureza, comportam visões diferentes, as quais podem ser diametralmente opostas umas das outras.

Na escola pública (e no mesmo ensino privado) o aluno é refém de um ensino direcionado. E ele o absorve como se fosse a única verdade do planeta. Não há espaço para discussão, não se expõem ideias divergentes para ensinar o aluno a pensar e escolher qual teoria quer abraçar. Ao contrário, o professor de humanas adequa o conhecimento à sua ideologia (seja ela qual for) e o transmite. Até aqui não haveria nenhum grande dano. O perigo está em saber se os pais dessas crianças sabem disso. E pior, será que aprovam o que é ensinado? O que se vê na prática é que os pais são os últimos a saber, quando o dano à educação de seus filhos já se tornou irremediável.

Tive o privilégio de ter um avô pensante e questionador. E todas as lições da escola eu levava a ele, que me fazia sempre questioná-las. Certa feita, um de meus professores de geografia me ensinou (goela abaixo) as maravilhas da chamada “teoria da substituição das importações”, modelo econômico desenvolvimentista que visa à eliminação da concorrência. Ele pacientemente derrubou todos os argumentos de validade dessa teoria e me fez ver as vantagens econômicas da concorrência para o consumidor.

Diferente do que ocorre no mundo da química, em que os opostos se atraem, nos redutos escolares, os semelhantes se atraem. Todos aqueles que compactuam com a mesma visão ideológica de mundo se concentram nas escolas, na nobre arte de ensinar. Mas isso não se dá por uma mera conjunção astral, nem por pura coincidência. Longe disso.

Há, na verdade, uma teoria por trás desse inescapável fato: a teoria da hegemonia cultural. Trata-se de uma filosofia criada pelo italiano Antonio Gramsci (1891-1937) que visava criar “intelectuais orgânicos”, ou seja, intelectuais que teriam um papel prático na sociedade. Mas isso fica para depois.