Escola sem partido V

A minha vida inteira ouvi o mantra da educação como a solução de tudo. Com o tempo fui percebendo que nada estaria mais longe da verdade. Ao menos, no que concerne ao modo como a educação ofertada aos jovens educandos num país como o Brasil. Não se trata de adentrarmos na longa discussão da “má qualidade da educação brasileira”. De modo algum. Acredito que o problema educacional do Brasil é muito mais profundo do que uma mera “deficiência de qualidade”.

A educação (tal qual ela é oferecida no Brasil) não resolve os problemas do país, assim como está longe de ajudar o jovem a se alocar no mercado de trabalho. E, resumidamente, existem duas explicações para isso: (1) entre a vivência prática da realidade da vida (e do mercado) e a educação formal há um imenso precipício e (2) por conta da aplicação generalizada das teorias de Antonio Gramsci (1891-1937) nas salas de aula brasileiras.

O italiano Antonio Gramsci ficou preso os últimos 10 anos de sua vida pelo regime fascista de Mussolini. Gramsci nasceu na ilha da Sardenha, era escritor, filósofo e teórico político. Aos 7 anos de idade seu pai foi preso por desvio de fundos e falsidade escritural. Na Faculdade de Letras, a curiosidade leva Gramsci a se interessar e a frenquentar outras disciplinas, tais como o direito, a economia, a filosofia e a linguística. Em 1921, Gramsci funda o primeiro Partido Comunista da Itália e logo em seguida é nomeado pelo partido delegado representante da I Internacional Comunista e segue para Moscou. Retorna dois anos depois para a Itália já como deputado eleito pela cidade de Veneza. Entre idas e vindas de Moscou, em novembro de 1926 é preso, não obstante sua imunidade parlamentar.

No período de sua prisão, sem ter muito o que fazer nas horas livres, Gramsci escreve 32 volumosos textos refletindo sobre o marxismo, o historicismo econômico, teoria crítica, teoria educativa e uma análise da história da Itália. Esses escritos ficaram conhecidos como Quaderni del Carcere (Cadernos do Cárcere). Nessa longa reflexão filosófica e crítica, Gramsci se questiona porque o comunismo não se deu tal qual previu Marx e formula explicações sobre o que ele chama de “domínio da burguesia” sobre o Estado.

Bem, e o que esse italiano, morto há mais de 80 anos tem a ver com a atual estrutura da educação brasileira? Muito, talvez praticamente tudo, a se considerar os últimos 40 anos. Sua influência foi tão vasta e tão profunda na metodologia de ensino que fica até difícil identificá-la, pois ela está, para usar um termo do próprio filósofo, “organicamente” inserida nas salas de aula (e nos materiais didáticos) que sequer é perceptível.

Gramsci, propunha que a única forma de abrir caminho para o socialismo e, depois, para o comunismo, seria por meio de uma “revolução passiva” ou uma “guerra de posições”, ou seja, o grupo socialista, por meio de seus intelectuais, chegaria ao poder sem romper a camada social, mas penetrando-a e modificando-a gradualmente. Para ele, o papel dos intelectuais dentro da sociedade deve ser ativo, mais do que produzirem discursos, estes deveriam organizar práticas sociais, de modo a criar uma cultura própria da classe trabalhadora e difundi-la por meio da educação, opondo-se às das chamadas “culturas dominantes” da burguesia, da Igreja e do idealismo.

Esse seria o conceito do que ele chama de hegemonia cultural: uma reforma silenciosa da cultura e da moral da sociedade para abrir caminho ao socialismo. Essa reforma seria capitaneada e promovida pelos intelectuais orgânicos, que seriam nada menos que os literatos, os jornalistas, os artistas, os filósofos e os professores. Sua primordial função seria debater e difundir as ideologias necessárias para obtenção de um consenso (o mais espontâneo possível) em torno das ideias que defendem.

É o que se cunhou como “filosofia da praxis”. Esses intelectuais seriam como doutrinadores de cultura, cujo único objetivo é promover o consenso (no caso, em torno do socialismo) para os grupos sociais. Só dessa forma a classe politicamente emergente poderia expandi-los à sociedade inteira.