Escola sem partido VI

A grande preocupação dos pais, de quaisquer pais, além da segurança física de seus filhos, é dar-lhes “uma boa educação”. Contudo, para muitos pais isso se resume em matriculá-los numa escola de renome, de boa qualidade de ensino, seja ela pública ou privada. Feito isto, o resto fica por conta dos professores, altamente capacitados, da escola escolhida. Porém, esses mesmos pais estão completamente alheios ao que, de fato, é ensinado a seus filhos no dia a dia.

E isso não se dá por ignorância nem descaso, longe disso. Mas por excesso de confiança. O diretor, o proprietário ou o conselho pedagógico da escola, por outro lado, muitas vezes apenas cuida em administrar os índices de aprovação no vestibular e pouca atenção dá ao conteúdo do que é ensinado aos alunos. Não por displicência, de forma alguma, mas por excesso de confiança nos professores que contrata e na imagem que eles passam fora das salas de aula. Ou talvez, porque realmente pouco lhes interessa o conteúdo (e a ideologia escolhida) das matérias escolares (em especial na área de humanas), desde que haja o cumprimento da explanação dos tópicos previstos na cartilha escolar.

Na escola piracicabana onde estudei, há mais de trinta anos, os proprietários eram engenheiros agrônomos, todos eles muito zelosos pela qualidade do ensino de exatas e biológicas, dando pouca atenção à área de humanas. Aquela instituição de ensino era um ambiente mais que propício para a aplicação prática da doutrina de Antonio Gramsci.

Por certo, enquanto estudante, eu jamais ouvira falar nesse filósofo revolucionário e tampouco de seu grau de influência na classe docente brasileira.

Tenho dúvidas se naquela época os diretores dessa instituição de ensino já teriam ouvido falar de Gramsci ou sabiam que existia uma filosofia destinada a estabelecer uma hegemonia cultural em torno das ideias socialistas, cuja adesão à essa “práxis filosófica” era muito mais comum (mas não divulgada) do que se poderia imaginar. Certamente isso não era abordado numa entrevista para a vaga de professor. E se ainda fosse, com certeza o candidato mentiria sobre suas convicções pessoais e sobre seu intuito de pôr em prática a filosofia de Gramsci.

Como já escrevemos anteriormente, a ideia genial de Gramsci era convocar os tais intelectuais orgânicos para uma “revolução sem revolução”, algo que penetrasse no âmago da sociedade civil (a que ele distingue da chamada sociedade política) para mudá-la culturalmente, derrubando (desconstruindo) conceitos tradicionais religiosos, burgueses e capitalistas. Ao contrário do que Marx dizia, Gramsci defendia que o comunismo não se instalaria após uma revolução ativa, mas sim por meio de uma hegemonia cultural silenciosa.

Quando tomou corpo a ideia de um projeto de lei que extirpasse essa doutrinação político ideológica das salas de aula e limitassem os professores quanto ao conteúdo de seus discursos em sala de aula, a reação adversa foi desproporcionalmente exagerada. Temos notícia que uma deputada criou um canal de denúncia para os alunos se protegerem de professores que fizessem política partidária nas escolas, mas logo o Ministério Público tomou providências para eliminar esse canal comunicação. A pergunta óbvia no andar dessa carruagem é: por que tanto medo?

O Ministério Público interferiu por conta de uma suposta violação ao livre direito de ensinar, garantido pela Constituição, ou por se tratar de mais um membro desse exército gramsciano de intelectuais orgânicos que almejam proteger esse fabuloso esquema de doutrinação ideológica que é a escola, em seu ensino básico e fundamental?

Muitas perguntas sem respostas. Mas o mais grave é que os pais dos alunos que, em primeiro lugar, deveriam saber (para aprovar ou não) o que é ensinado em sala de aula, são sempre os últimos a saberem… se souberem.