Escola sem partido XIV

Uma professora universitária adentrou à sala de aula e anunciou a todos os alunos presentes: “quem concorda com a frase: ‘bandido bom é bandido morto’, pode se retirar da sala de aula, pois ela não terá nenhuma utilidade para esse aluno e ele só irá atrapalhar” . Dito isso, os alunos, calouros universitários, se entreolharam, mas ninguém saiu da classe. Esse fato ocorreu há algumas semanas, numa universidade privada em Piracicaba.

Sobre essa atitude há várias considerações pertinentes ao nosso tema em questão. A mais óbvia é: esse tipo de comportamento professoral ainda ocorre nos dias de hoje e, pior, é tido como normal ou louvável. Em segundo lugar devemos questionar: porque ninguém deixou a sala de aula? Não foi porque todos concordavam com a assertiva da professora, mas sim, por conta do temor reverencial emanado por esta, pelo medo da discordância e pelo receio de retaliação (seja de colegas de classe, seja do professor na hora da correção das provas).

O tema da aula proposto geraria (em tese) discussões bem interessantes (e saudáveis), tais como: o custo gerado pela população carcerária; repensar a pena de morte no Brasil; o dano que um bandido (em plena atividade) causa à sociedade (“bandido mau é bandido vivo”); as políticas de segurança pública e ainda, a questão filosófica do embate entre a tese de Rousseau (a teoria do “bom selvagem” e a sociedade que o corrompe) versus a de Hobbes (“o homem é o lobo do próprio homem”). Mas é claro, nada disso fora abordado naquela sala de aula. E pasmem os leitores, não era uma Faculdade de Direito e sim, de Pedagogia!

Esse é o perfeito retrato da formação dos professores de hoje. O curso de pedagogia, virou curso de política, curso de exclusão e de intolerância. Só devem ser admitidos à carreira de professor (e pedagogo) aquele que compartilhe da mesma cartilha de pensamento. Não há lugar para divergência. Não custa lembrar o culto ao ideário gramsciano da hegemonia cultural. O requisito básico para ser docente do ensino básico e fundamental é ver o mundo com os olhos de Rousseau: a sociedade, derivada de um grande pacto social e coletivo, corrompe o homem, e todo bandido é uma vítima. Mas esse ideário não pára por aí: ele precisa ser coletivista, igualitário e distributivista. Adeus liberdade, adeus individualismo.

Em nosso exemplo, há ainda mais duas graves questões: (1) quem reembolsaria esse aluno pela aula perdida? (em que o próprio professor convoca-o à retirada da sala de aula)? e (2) qual a posição desta faculdade e da própria Universidade, da qual ela faz parte, sobre a atitude desse professor (que é pago para ensinar pedagogia e não conclamar os alunos a deixarem a sala de aula)? Se isso ocorreu numa universidade privada (e, portanto, paga), o que diremos do que acontece numa universidade pública, onde o sistema e a burocracia convergem para ignorar (e às vezes até estimular) atitudes como a dessa professora?

Não me parece que essa professora de pedagogia gostaria de ter suas opiniões confrontadas ou questionadas. E, pior, me parece ainda que esta professora possui a crença de que seu direito à liberdade de ensinar é ilimitado. E a Faculdade de Pedagogia que a emprega (e paga seu salário) ou ignora tal fato ou, pior, o apoia.

E aqui voltamos para a pergunta básica desta série de textos: é essa a tal educação que salvará o Brasil da ruína? É para essa educação que nossa Constituição reservou 25% (leia-se: um quarto) do orçamento público? Não se trata da escola (ou da universidade) ter ou não uma preferência partidária, ideológica ou filosófica. Trata-se de algo muito mais grave: de não aceitar a divergência, não tolerar o embate de ideias e opiniões.

Para essa categoria de professores (e eles são muitos) ensinar não é refletir ou aprender a pensar por si próprio; infelizmente, é “pensar como eu penso”. E, por favor, quem pensar de modo diverso, que se retire da sala. E bem-vindo ao maravilhoso mundo da hegemonia cultural.