Escritora nicaraguense faz manifesto solitário em Piracicaba

escritora Idosa acompanha à distância os acontecimentos em seu país. ( Foto: Claudinho Coradini/JP)

Morando em Piracicaba há 17 anos, a escritora nicaraguense Angela Reyes, 80, acompanha à distância – e com tristeza – os acontecimentos em seu país, sob o comando do presidente Daniel Ortega, classificado por ela como um ditador. Longe de sua terra natal ela lamenta não poder visitar os parentes e amigos por causa das críticas feitas por ela ao governo. Angela avaliou a situação da Nicarágua como uma “revolução cívica”, sem armas. “O povo está sofrendo horrores por causa da ditadura de um sanguinário e assassino”, afirmou. Para demonstrar seu amor e solidariedade ao seu povo, a escritora decidiu fazer um manifesto solitário, neste domingo, na Rua do Porto. Com a bandeira azul e branco nas mãos e uma mordaça na boca, ela vai caminhar entre os turistas para mostrar a sua indignação.

Na sequência dos capítulos de sua história de vida, Angela traz dramas e alegrias. Os primeiros começaram aos três anos de idade com a perda de sua mãe, mais tarde, em 1.972 já casado e mãe de cinco filhos, ela assistiu a família perder a casa e o pequeno comércio em um terremoto que atingiu o país. “Meu filho Andres ficou soterrado, só ficamos com a roupa do corpo, dependendo da ajuda dos vizinhos”, lembrou. Seis anos depois, a Revolução Sandinista, ironicamente liderada pelo atual presidente, pôs fim à ditadura. A alegria dos nicaraguenses, no entanto, duraria pouco, Ortega assumiu a presidência e se tornou o ditador que, segundo Angela, já assassinou centenas de pessoas. “Ele criou o exército paramilitar, armados com AK-47 matam quem for oposição ao governo”.

Após o terremoto, Angela e a família iniciaram uma luta pela sobrevivência. “Trabalhamos como burros para construir tudo o que perdemos, mas conseguimos, nós reconstruímos nossa casa com os tijolos das casas que desabaram”, contou. Anos depois, ela decidiu enviar os dois filhos homens para estudar no Brasil.
Após a morte do marido, ela viveu por anos sozinha. “Minhas filhas se casaram e foram para os Estados Unidos, onde vivem até hoje, eu fiquei sozinha, apenas com uma empregada, a casa era muito grande e eu decidi vir para o Brasil para perto dos meus filhos”, contou.

FUTURO — Para o futuro, Angela disse que sonha com seu país livre, bem diferente da vida atual. “O povo quer democracia, quer que o presidente saia do país e que que seja feita eleições livres”, afirmou. Católica, Angela disse que não perdoa a profanação de igrejas, prática que, segundo ela, vem sendo feita pelo atual governo. “O mais horrível é destruir altar, golpear padre e espalhar a óstia pelo chão”, lamentou. “O que eu quero para o meu país é liberdade e democracia”, afirmou a autora do livro Lágrimas e Risos, sua autobiografia escrita há dez anos.

(Beto Silva)