Escurece: ser militante não é status

Membro do coletivo Beleza Preta, Mayra é a cor e a voz da luta pela igualdade, equidade e valorização da cultura negra. (Foto: Claudinho Coradini/JP)

A piracicabana Mayra Kristina de Camargo, 44 anos, é funcionária pública municipal há 22 anos. Militante da comunidade negra, atriz, batuqueira, dança batuque de umbigada no grupo Casa de Batuqueiro, no grupo de Samba de Lenço Mestre Antonio Carlos Ferraz, e no grupo Baque Caipira.

Mayra é membro do coletivo Beleza Preta, promotora legal popular e voluntária da Casa Hip Hop de Piracicaba e uma das organizadoras do Festival Curau. Na Zona Oeste, onde mora, ela atua como agente cultural independente. Filha de José Milton Theodoro de Camargo e de Maria de Fátima Félix de Camargo, é irmã de Eduardo de Camargo, carteiro, e de Milton Fernando de Camargo, técnico em micro eletrônica.

Mayra também é mãe de Cayodêe e Lindwyuê, ambos nomes africanos. O do filho Cayodêe significa “A alegria chegou” e o da garota, “A esperada”.

Nas horas vagas – o que raramente acontecem – Mayra gosta de dançar e ouvir muita música. Nesta semana, quando se comemora o 20 de Novembro – Dia da Consciência Negra – a militante falou ao Persona sobre os desafios da comunidade negra, luta pela igualdade e da esperança de um mundo sem preconceitos.

Você se considera uma militante em questões ligadas à Comunidade Negra?

Hoje em dia, há um certo tempo já, sim, mas não foi algo vindo de família, então demorou pra eu ter essa percepção. Foi me dito que eu era. E quero deixar escurecido aqui que pra mim, ser militante ou ativista não é status, não é simples, pois você muitas vezes acaba fazendo escolhas que as pessoas não entendem. Por exemplo, domingo passado perdi uma parte do chá de bebê da minha neta por estar apresentando um projeto que temos aqui na periferia, o Cine Barranco, onde fazemos cinema na rua. Minha militância vem muito por meio da área da cultura. Por ser raper desde muito nova, ouvir nas letras e também cantá-las, fez com que eu entrasse nesse mundo de querer o bem viver para o meu povo preto. Com o tempo, muito levada pela militante Silvana Veríssimo, fui me envolvendo mais especificamente com as questões das mulheres pretas, mas que não deixa de ser um olhar a toda comunidade preta.

Acredita que a cultura seja uma forma eficaz no combate ao racismo e preconceito?

Acredito, e como. Só pra começar, a nossa cultura e a indígena é rica, e são base da cultura brasileira. Acredito porque muito que aprendi sobre mim foi por intermédio da cultura, no início principalmente, pela cultura Hip Hop. Quando eu tinha uns 16 anos, fiz meu primeiro curso de muitos sobre a cultura afro, o filósofo Antonio Filogenio Junior, a primeira turma a se interessar pelo curso era formado por integrantes de grupos de rap, dentre eles o qual fazia parte na época. Dessa formação nasceu o grupo Akani, onde muitos profissionais da cultura piracicabana de hoje passaram quando adolescente. Por esse início de trajetória me fica impossível não acreditar numa transformação por meio da cultura. O que faço atualmente é dar continuidade aos que vieram antes de mim e me deram essa base. A cultura feita de uma ocupação da rua por exemplo, vem muito do que experienciei na Vila África, uma rua inicialmente chamada assim de forma pejorativa, mas que por meio de lideranças como o Faé, que ocupou até morrer a Vila África com cultura, essa foi parte da minha infância e adolescência. Tento junto dos meus daqui da zona oeste, dar essa continuidade, ocupando o “Barranco”. Aqui acontece narração de histórias, liderado por um contador de histórias morador aqui da região, Evair Souza, tem apresentações de espetáculos teatrais de grupos independentes e hoje também contamos com a parceria do Garapa. Tem saraus, como aconteceu esse ano na abertura do Festival Curau, onde recebemos o slamer Lucas Afonso campeão nacional e vice campeão na França de Slam, um super show do Maikão, e a escritora Julia Motta. Tivemos oficinas de maracatu com o Baque Caipira, de bate lata, a fazer instrumentos e outros materiais recicláveis com o Afropira, e mais recentemente, por meio de projetos da Semactur, o sambista Juca Ferreira e o Coletivo Peneiras de teatro. Acredito que na arte, na cultura, recuperamos a auto estima, nos apropriamos do que é nosso. Durante muito tempo nos ensinaram que o que era nosso é feio, algo errado, uma subcategoria. Depois de muito tempo veio a lei 10.639 que trata do ensinamento nas escolas da cultura afro e afro brasileira, e que depois se transformou na lei 11.645, tratando-se também da cultura indígena. E que, por trabalhar na área de educação e ter filhos estudantes, afirmo que infelizmente não é aplicada como deveria. Muitas instituições de ensino só focam nas datas comemorativas, como o próprio 20 de novembro, que pra nós militantes tem como propósito de um dia pra finalizar, por intermédio de reflexões, atividades artística, debates, entre outras atividades, um trabalho feito durante o ano todo, afinal existimos e resistimos durante um ano todo.

Qual é o maior problema que o negro ainda enfrenta na sociedade atual?

O racismo estrutural. O Brasil é um país culturalmente racista e sentimos isso de vários modos, em diversas áreas. Hajavisto as várias arbitrariedades onde o racismo institucional nos prejudica e muito.

A comunidade negra é consciente e persistente com relação aos seus direitos enquanto cidadão/cidadã?

Acredito que sim. O problema é a sociedade nos ouvir. Esse é um dos papéis nosso na militância, o da conscientização. Por meio da educação popular, já que muitas vezes, a educação institucional não cumpre esse papel, por meio da cultura e de outros mecanismos, como os conselhos municipais, estaduais e nacionais. Tenho um amigo que diz: “há muito tempo estamos gritando, ninguém veio em silêncio escravizado pra cá, está na hora de nos ouvir”. Tenho consciência que teve uma estratégia muito forte do apagar de nossas origens, da nossa cultura, do nosso saber, como eu disse, querem ainda que acreditemos que o que é nosso, pra nós, é ruim. Em muitas situações querem nossa cultura, mas não nos querem.

Com relação ao gênero, a mulher negra enfrenta mais dificuldade ou sofre mais preconceito do que o homem? Por quê?

Infelizmente sofre mais sim. No Brasil há uma pirâmide social e econômica disposta de tal maneira onde a mulher preta está na base dela: no pico vem o homem branco, depois a mulher branca, em seguida o homem preto e por último, na base, a mulher preta. Como acontece com o racismo, somos um país que também é culturalmente machista. É comprovado estatisticamente a desvalorização econômica da mulher em relaçãoaos salários mais baixos se comparado aos, homens, e num sistema onde o racismo estrutural é algo fortemente relevante, para a mulher preta essa desvalorização é muito mais visível. A violência doméstica, o feminicídio, aumentou nos últimos anos as ocorrências em mulheres pretas. Por isso a importância de se discutir esses assuntos ligados ao racismo o ano todo, o que nos interessa agora são ações antirracistas. Muitas mulheres pretas e indígenas se organizam pelo mundo e estão na luta para que o bem viver se torne algo possível no nosso dia a dia.

As políticas públicas têm atendido às expectativas da comunidade negra?

Não. Temos uma luta constante para que não haja perda de direitos, as políticas públicas deixam muito a desejar, sobretudo na periferia, onde está grande parte da população negra, se elas existem não são aplicadas adequadamente como deveriam. O transporte coletivo é precário em Piracicaba, e nesse ano tivemos retiradas de linhas, principalmente aos finais de semana, me parecendo um recado de que os usuários tem que apenas trabalhar, o lazer, que costumam ser aos finais de semana deixa para os mais favorecidos economicamente, já que no Brasil se vive essa inversão de valores onde o uso do transporte coletivo vem atrelado aos que menos tem e não ao incentivo do seu uso para que se diminua a quantidade de veículos nas ruas. A saúde é outro exemplo, o SUS é um sistema no qual acredito e defendo, uma política pública que tem, ou tinha, tudo pra cooperar com esse bem viver, mas como sofremos, por exemplos, com as datas das consultas que demoram muito pra quê consigamos. Uso do meu exemplo, tenho toxoplasmose ocular, preciso de uma consulta com o oftalmologista, mas antes preciso passar por um clínico geral. Até aí tudo bem, mas quando fui marcar uma consulta mês passado, só conseguirei passar com um clínico geral em janeiro, pra depois passar com um especialista, ou seja, até lá já perdi mais um tanto da visão. Educação: ano passado numa audiência pública tive a oportunidade de questionar a secretária Ângela da secretaria da Educação, sobre as cinco unidades novas que estavam previstas no PPA para esses quatro anos de mandato da atual gestão, pois precisamos urgente de que mais escolas infantis sejam construídas nessa região da zona oeste. A escola que trabalho, as salas que eram pra outras diversas atividades, como arte, brinquedoteca, sala de sono, foram adaptadas em salas de aulas. Na ocasião ela nos respondeu que sairia uma no bairro Tatuapé, pouco pra uma região que não para de crescer. E por falar em crescer, entramos numa outra pauta difícil: o da moradia. Aqui na zona oeste as comunidades, conglomerados habitacionais ou favelaS, como queiram nomear, estão crescendo, e sem nenhuma infraestrutura. Como sou uma militante que atuo muito por meio da cultura, uma pauta que defendo é o da criação de um ou mais, já que aqui é uma das áreas mais populosas de Piracicaba, de Centros Culturais. Não temos um local pra oportunizar direito à cultura. Como disse anteriormente, muitas estão a fazer, tivemos conquistas por causa de muita luta das que vieram antes de nós, muito a agradecer, e por isso temos que dar continuidade a essa luta enquanto precisar.

Em sua opinião, por que o sistema de cotas nas universidades geram tanta polêmica?

Na minha opinião gera polêmica porque a história não é ensinada nas escolas, aprendi, e ainda aprendo, muito mais indo em movimentos de mulheres pretas, ouvindo rap, se discutindo um assunto pra escrever letras de rap, isso nos anos 90 já, ou na educação popular. Cotas é indenização política pelo crime de escravidão. Foi uma luta do movimento negro essa reparação, sou plenamente de acordo.

Qual a sua opinião sobre o 20 de novembro e a instituição da data como feriado?

A data pra nós é importante. É uma data de fechamento de algo trabalhado durante o ano todo. Além de relembrar um momento histórico, a data de morte de Zumbi dos Palmares. O que não concordo é só nessa data ou só em novembro, haver uma procura por nossos conhecimentos, e isso me refiro a todas as áreas. Por isso a importância da lei ser efetivamente trabalhada durante o ano todo nas escolas. Há certo tempo eu pensaria muito pra aceitar essa entrevista, realmente me aborrecia essa situação, mas uma de nossas mais velhas me deu uma chamada, e às mais velhas todo meu respeito, me explicando que por enquanto é preciso, e temos que nós falarmos de nós, caso contrário os falsos aliados, ou os não pretos falarão. E isso não nos representa.

Recentemente Piracicaba viveu dois momentos nos quais as questões raciais ficaram evidentes. Primeiro foi uma adolescente de 14 anos, acusada de furtar um objeto em uma loja dentro de uma escola onde fazia um curso e ao tentar registrar a queixa foi impedida porque o policial era amigo da acusada. Em outra situação, uma artista se apresentou como membro da KuKluxKlan durante performance, causando indignação nas redes sociais. Como você avalia essas duas situações e seus reflexos na sociedade?

Na minha opinião lamentável. No primeiro caso, quero deixar esclarecido que constantemente somos prejudicados por esse racismo estrutural, nos levando desacreditar numa justiça igualitária. Quanto ao segundo caso, não me conformei com a situação, muito menos com as notas de reparação. Nós do movimento temos que constantemente desconstruir para crianças e adolescentes o “somos ruins” (cabelo, nariz largo, religiosidade de matriz afro), e vir de um movimento de uma população que também sofre com os preconceitos uma atitude racista foi demais pra mim. Vem ao desencontro de uma luta dos antis que estamos pautando: anti-machista, anti- homofobica, anti-racista.

Você acredita em uma sociedade sem preconceitos e discriminação? Acredita que o mundo viverá ainda com igualdade, ou pensar nisso é utopia?

Acredito, e como acredito, caso contrário não estaria na militância. Talvez eu não veja, mas espero que os meus vivam sem tantas preocupações.

Beto Silva

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