Estes moços do CLQ

David Chagas

Tão logo decidi ser professor entendi que ensinar era educar para a vida. Para tanto, seguir a liturgia que a profissão exige para divisão de saberes, com parcimônia e cuidado, preservando ética e moral. O ambiente clama por respeito, palavra contida, seriedade absoluta. Brincadeiras fora de contexto, piadas indevidas são para palco onde se apresentadam comédias para um só ator, não em sala de aula. Lembro-me do quanto minha mãe, professora que era, num tempo em que escola e templo se confundiam e o professor recebia reverência merecida por dever e gratidão, falar da importância do exemplo e do quanto seria possível, entre o presente e o futuro, colher o semeado. Pude sentir, apesar das mudanças sociais impostas por um tempo árido e sem cor, que o nome tinha sentido e peso, e a verdade da família deveria luzir onde estivesse um dos seus.

Saí, como ela e minhas irmãs, a semear e, passados anos, vou, com alegria, colhendo os frutos da semeadura. Sinto, ao pôr-do-sol, brotar nos prados de Deus, a messe, louvando os passos dados para a semente lançada. Aprendi com padre Vieira que o Mundo, aos que lavram com ele, não satisfaz o tempo e o conhecimento dispendidos nem paga o andar. Por sorte, com Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque das passadas também se colhe fruto.

Passado o tempo de plantar, colheita boa tem-me oferecido o Senhor sem que lhe tenha cobrado isso. Prova o Eclesiastes: tempo de plantar, tempo de colher. Minha mãe pôde ver brotar, ao sol do meio-dia, muito do que plantou. Como Deus lhe antecipou a noite ao cumprir seu tempo antes do ocaso, permitiu-lhe o prazer do broto vicejando e das primeiras colheitas. O mais, deixou-nos sentir por ela para entendermos o quanto, neste caso, o tempo é pai e companheiro, oferecendo boa resposta quando a maturidade ronda a semente explodida.

Concede-me Deus tempo maior que o dela dando-me, com isso, a experiência de estender os olhos pela seara para conhecer boa safra, joio já separado do trigo.

Escrevi sobre isso inúmeras vezes, tantas as manifestações de apreço e para revelar a confiança que me inspiram, ex-alunos meus, profissionais da justiça, da educação, da saúde, com seu trabalho de prestígio e destaque. Na velhice, é o médico quem alimenta esperança. Se sacerdote, amplia a segurança oferecida. Tenho, nos irmãos Marchi, em Théo Perencin, em Ari Marconi Júnior, em Ademar Spallini e outros tantos ex-alunos, porto seguro que me sustenha. Nada, no entanto, superará esta experiência de fraternidade coletiva que me permitiu tantas metáforas em torno do Evangelho de Jesus Cristo sobre o semeador.

Uma turma de alunos do CLQ, que se despediu do colégio em 1983, quase ao mesmo tempo que eu, se reencontra e soma ao grupo, o velho professor, para um convívio sem medida e sem preço. Um deles, pai da Ana e do Pedro, irmão da Tuca, da Tatá e da Teté, filho da Bel e do Roberto e neto do Antonio Nápole d’Andréa, Totonho, parece-me ter sido o maestro. Lucinha, Hosana, Mário, Cassiano, Jordana, Vivi, Kaled, Maíra, Eri, Ivo e tantos outros, num mesmo tom, afinaram com ele para orquestrar encontro memorável.

Tantos passaram por mim e não me deixaram sós. Carrego um pouco deles. Devem, também, carregar um pouco de mim. Talvez entendam agora a tessitura da alma. Esta parte, essencial e animadora se faz de retalhos de outras tantas almas.