Etanol tem produção recorde na região Centro-Sul do País

etanol Diferente do álcool,produção do açúcar caiu. ( Foto: Claudinho Coradini / JP)

A produção de etanol será 10% maior este ano e atingirá o recorde de produção na região Centro-Sul. Serão 2,5 bilhões de litros a mais, que elevarão a produção total dos 26 bilhões de litros produzidos em 2017 para 28,5 bilhões este ano. O resultado é fruto de uma conjuntura classificada pelo economista Haroldo Torres, gestor de projeto da Pecege, como “coincidência setorial”, que compreende, por um lado, o cenário internacional bastante desfavorável à exportação do açúcar brasileiro e, por outro, uma política de preços de combustíveis que passou a ser bastante favorável ao etanol a partir do segundo semestre do ano passado. Para 2018, 62,9% do total de cana moída será destinada para a produção de etanol, número superior àquilo que se observou nos últimos 15 anos, quando a produção de cana foi dividida praticamente meio a meio, entre açúcar e etanol.

Os números foram apresentados ao público na segunda Expedição Custos Cana, evento realizado ontem, no Parque Tecnológico de Piracicaba. A organização foi da Pecege Projetos. O economista explica os dados, que poderiam ser interpretados como reflexo de um ótimo momento para os produtores, significam, na verdade, um alívio para o machucado setor sucroalcooleiro.

“O setor está muito endividado e investe pouco no canavial. Com o preço atual do etanol consegue uma boa remuneração, mas tem que investir o suficiente no seu canavial para melhora produção ou amortizar o estoque das dívidas que contraiu no passado. Dívidas que, na maior parte das vezes, foram contraídas em dólar e que aumentam de acordo com a taxa de câmbio”, explicou Torres.
Se a comercialização do etanol passa por momento favorável, com o açúcar ocorre o inverso. A produção que foi de 36 milhões de toneladas em 2017 será de 30 milhões este ano, queda de 16,6%. “O preço do açúcar está deprimido no mercado internacional pela prática de preço dos produtores da Índia e da Tailândia. No curto prazo, não há perspectiva de melhora. Desde o ano passado o governo da Índia adotou a produção de açúcar como política de estado e tem oferecido subsídios aos produtores. Por isso eles conseguem praticar preços muito mais baixos que os brasileiros” disse.
O cenário internacional fez com o Brasil perdesse para a Índia, este ano, o posto de liderança mundial na exportação e produção de açúcar. A política indiana é determinante para o setor no Brasil, uma vez que o volume que varia entre 60% e 80% de todo o açúcar produzido no Brasil é exportado. Outra barreira para o crescimento do setor é a publicidade negativa contra o açúcar da cana, que se fortalece em todo o mundo. Isso impacta inclusive o mercado doméstico. No Brasil, o consumo de açúcar tem crescimento apenas vegetativo (acompanha a taxa de crescimento da população). Isso porque, especialmente as pessoas com maior poder aquisitivo têm migrado para o consumo de outros tipos de açúcares.

Avaliando todos os fatores, o gestor da Pecege Projetos projeta que o setor sucroalcooleiro irá encolher nos próximos anos. Uma das razões será o déficit de matéria-prima. A produção das usinas, explica Torres, dependente de três fatores: solo, manejo e clima. Como as empresas estão com nível de endividamento alto, todo o estoque é convertido para amortizar as dívidas e praticamente não há investimento no manejo. Isso faz com que as unidades não operem com 100% da capacidade e, quando isso ocorre, o custo fixo aumenta proporcionalmente.

Este ano, a estiagem severa (121 dias sem chuva, a maior dos últimos 55 anos em Piracicaba) agravou o quadro causado pelo pouco investimento no manejo. “Houve que da 15% na produção. Isso derrubou ainda mais a produtividade e aumentou o custo fixo”.

Eleição interfere no sucroalcooleiro

Com o açúcar brasileiro perdendo competitividade no cenário internacional, o resultado da eleição presidencial, cujo primeiro turno será realizado hoje, é determinante para a sobrevivência do setor sucroalcooleiro. Isso porque a política de preços adotada pela Petrobras a partir do segundo semestre do ano passado (a estatal passou a ajustar os preços de acordo com o mercado internacional, o que elevou o preço da gasolina) favoreceu a produção de etanol.

“O cenário é muito imprevisível. Caso Fernando Haddad ganhe, a política de preços deve voltar a ser como era no tempo da Dilma [ruim para o setor]. Já O Bolsonaro é uma incógnita. Ou alavanca o setor ou acaba com ele”, analisa o economista Haroldo Torres, gestor da Pecege Projetos.

Isso porque, além da propaganda negativa que tem sido feita sobre o consumo de açúcar pelo mundo, há uma tendência de as montadoras investirem no lançamento de carros híbridos e elétricos nos próximos anos. Em julho do ano passado, o governo lançou o programa Rota 2030, que prevê redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de 25% para até 7% para os carros híbridos e elétricos. “O setor vai precisar diversificar produtos. Pensar como uma biorrefinaria, em produzir bioplásticos, levedura”, orienta Torres.

 

( Rodrigo Guadagnim)