Ex-assessora acusa vereador de assédio e de pedir salário

vereador Vereador Dirceu Alves da Silva é alvo de investigação. (Foto: Arquivo/JP)

Uma ex-assessora de relações públicas da Câmara de Piracicaba denunciou ontem o vereador Dirceu Alves da Silva (SD). Ela diz que foi assediada pelo parlamentar e que teve que dividir com ele seu salário recebido na Casa de Leis. Dirceu teria sido o responsável por indicá-la para ser nomeada ao cargo. Segundo Homero de Carvalho, advogado da denunciante, ela entregou à presidência da Câmara uma carta relatando os fatos e um áudio com suposto diálogo entre ela e Dirceu no momento da suposta entrega de parte do dinheiro ao parlamentar.

O salário de T. S. S. era de aproximadamente R$ 3,6 mil, que, com os descontos, cairia para aproximadamente R$ 3 mil. Ela denuncia ter combinado de dividir o salário com o vereador para conseguir a nomeação, ocorrida em junho deste ano. Na denúncia, ela informa que, no segundo mês de serviço, teria considerado injusto trabalhar “direto durante o dia e às vezes à noite e ter que repartir o salário”, por isso descumpriu o acordo, o que a fez ser dispensada em agosto. T.S.S. relata também ter sido assediada sexualmente pelo vereador.

 

Procurado pelo Jornal de Piracicaba, Dirceu disse desconhecer o áudio e não ter tido qualquer relação hierárquica com a T.S.S. no período em que ela trabalhou na Câmara. “Nem no meu gabinete ela trabalhava. Não tem nada a ver comigo. Onde ela trabalhava, a exclusividade para nomear e exonerar era do presidente”, falou o vereador.

O presidente da Câmara de Piracicaba, Matheus Erler (PTB), enviou comunicado à imprensa afirmando que “diante da gravidade, remeteu imediatamente toda a documentação referente aos fatos ao Departamento de Assuntos Jurídicos, decretando momentânea confidencialidade à tramitação”.

No comunicado, Erler informa que recebeu do vereador um documento que aponta suposta coação por parte da ex-assessora contra Dirceu, porém, não especifica como essa coação teria ocorrido. O vereador também não comentou o caso à reportagem.

O advogado da denunciante disse que hoje vai ao Ministério Público para denunciar o suposto crime de improbidade administrativa. Amanhã, ele promete protocolar na Câmara pedido de instauração de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) e, também amanhã, diz que irá protocolar na Justiça ação indenizatória por danos morais e materiais contra a Câmara e contra o vereador.
Carvalho adiantou que, no material que encaminhará à Câmara amanhã, irá pedir “o afastamento imediato” do vereador. “A gravação é muito contundente. É inadmissível, ainda mais partindo de um homem público”. O advogado afirmou que encaminhou o áudio original à Câmara gravado em um CD e fará o mesmo ao MP. “Vamos pedir para que seja feito o comparativo de voz e ficará constatado que não há edição na gravação”. Além de improbidade administrativa, Carvalho entende que, no caso, o vereador incorreu também na prática dos crimes de assédio moral, assédio sexual e quebra de decoro parlamentar.

ASSÉDIO SEXUAL – O suposto assédio sexual teria ocorrido no processo de contratação da ex-assessora de relações públicas. T.S.S. relata na carta entregue à presidência da Câmara que estava desempregada há nove meses quando o vereador Dirceu a teria ligado para marcar uma entrevista. “Ele me perguntou se eu conhecia algum lugar calmo, onde não tivesse ninguém para interferir. Respondi que não fazia ideia de um lugar. Ele passou para me buscar. No caminho, ele veio falando que não sabia de um lugar que fosse bom para fazer a entrevista e sugeriu que fôssemos conversar num motel. Na hora, fiquei assustada e falei que não queria. Nunca vi isso de conversar em motel”, afirmou.

(Rodrigo Guadagnim)

Confira a transcrição da gravação

O diálogo entre a denunciante e o interlocutor – que ela diz ser o vereador Dirceu – tem aproximadamente 1’55”e tem o seguinte teor:  T.S.S. – É 50% que eu tenho que te dar, né?
INTERLOCUTOR (segundo a denunciante seria o vereador Dirceu) – Sim. T.S.S. – meu holerite, com os descontos que deu, vou receber 3 mil INTERLOCUTOR_É o que eu falei pra você. Com
os descontos, vai dar mais ou menos isso daí. Uns 1.500.

T.S.S. – Dia 11 eles vão depositar 1500 e depois, dia 26, que é o dia do pagamento mesmo, mais 1500. Daí eu tenho que dar metade, né? INTERLOCUTOR_É. O que foi o combinado, né?
T.S.S.– Então tá aqui: R$ 750. Depois do dia 11, que é o vale, dou mais metade. Eu iria trazer o holerite pra você ver, mas não está aqui. INTERLOCUTOR_Não. Não precisa de nada disso. E
do mais, tá tudo certo?  T.S.S. – Eu iria até falar com você, Dirceu, porque eu preferia dia 11. Não sei se fica melhor pra você dia 11 eu ficar com 1.500 para mim e dia 26 eu dou (sic) os 1.500
pra você?

INTERLOCUTOR_Não tem problema. T.S.S.- Pode ser? INTERLOCUTOR_Tá. Um mês fechado e o outro mês fechado. Uma quinzena fechada e outra quinzena fechada. T.S.S.– Porque daí é melhor para mim também eu pegar sempre no primeiro do mês. Daí no final do mês você fica e aí fica tudo certo. Então tá? Vou lá.
INTERLOCUTOR_Falô. Vamos lá. Bom trabalho. Tchau.

Ouça o áudio na íntegra: