Fernando? Não. Fernanda!

Fernanda Young faleceu há uma semana, mas, para sorte do leitor, deixou um último artigo para circular em jornal. Excelente. Bando de cafonas, o título. Numa linguagem precisa, a danada faz análise perfeita sobre o Brasil de agora, este país que tem, no seu comando, gente preocupada em fazer comentários toscos a respeito de diferentes assuntos e acaba por desrespeitar a mulher, acatando brincadeira de mau gosto enviada por algum adulador, sobre a primeira-dama francesa. Supondo ser simpático com seu povo e fazer valer sua verdade a respeito do fogo que engole a nossa Amazônia legal o receptor gargalha à moda digital.

Bom ler Fernanda. Bom louvar sua coragem, seu estilo descontraído, sua forma gostosa de escrever, conversando. Como temos entre nós mentes brilhantes! E quanto as desperdiçamos ou não as reconhecemos em toda sua grandeza. Doeu-me fundo sua morte prematura, por apreciar seu talento privilegiado. Onde encontrar outra capaz de analisar com precisão este abandono do bom senso, na fala, nos gestos, no olhar, no desrespeito à liturgia do cargo e no abandono da ética?

A atitude, bem sei, foi de bajulador descomposto, que, desejando, por certo, engraxar o ego de Sua Excelência, postou foto de ambas as senhoras com seus maridos, esquecendo que amor e escolha são pessoais e nem todo mundo tem na beleza física seu ponto de partida. Há, por sorte, quem valorize mais a beleza que em nós existe e nos faz mais verdadeiros e melhores.

Quanto gostaria que lessem o último texto de Young impregnado de juventude no palavreado e maturidade nos argumentos! Sabe o que quer dizer e diz.

Perdoem-me, se exagero, mas ao ler Fernanda Torres, a outra, igualmente genial, escrevendo sobre Young, além de emocionar-me, assino com ela. “Fernanda e Alexandre são dois funks que se travestiram de cordeiros, de noivos, de normais, para incitar a loucura geral da nação. E eu e Luiz Fernando Guimarães surfamos na pele deles, no melhor ‘ménage a quatre’”, na melhor das orgias que um ator pode sonhar participar. Por isso, a morte dela é também a minha, a de nós todos. Tão nova, e linda, e mãe, e mulher pra cacete. Como é possível? Passado o estupor da notícia, me veio a tristeza imensa, imensurável, de quem perdeu uma parte de si mesmo. Só posso explicar assim”. Eu também.

Young levou de mim, com todas as verdades neles contida, a leveza de seus textos. E fez ainda mais vivo o sentido de seu nome, herança direta do medieval e sábio Antônio, Fernando de nascimento. Isto aumenta o prestígio do nome. Sou Antônio e me responsabilizo pelo uso do nome. Antônio, na essência, é Fernando e vice-versa, o que exige, num e noutro, dignidade, coragem ao buscar a trilha do que fez o medieval santo a quem não faltou jamais nenhuma destas qualidades nem caráter.

Penso na atuante roteirista, escritora e atriz não sem deixar de lado informação palpitante em revista de informação circulando entre leitores e banca, na última semana. Sem fazer juízo de valor a respeito, agradeço o fato de Francisco ter-se dado este nome, porque em Francisco encontro iguais atributos. Antônio, por certo, perdoará Fernandos e Antônios pelo suposto mau uso de seu nome. Ao menos, é o que ensina a nota da diocese.

Por sorte, as Fernandas, nem a Torres nem a Young precisaram perdoar ou implorar perdão. A verdade nelas brilhou por si mesma.