Foto de pichações é vendida por até R$ 2,2 mil

João Luis Prado Simões França, de 33 anos, costuma se dividir entre os cuidados com os três filhos, de 1 a 8 anos, e o trabalho como confeiteiro com a mulher, com quem mantém um relacionamento há mais de 13 anos. Em algumas noites, contudo, ele vira M. I. A., ou Massive Ilegal Arts (Artes Ilegais de Massa, em tradução livre), codinome que utiliza em pichações.
Também grafiteiro, França é apontado pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) de São Paulo como o “líder” do trio que pichou na terça-feira o Pátio do Colégio, no centro paulistano, com a frase “Olhai por nois”.

Ele foi ouvido pela polícia na noite de quinta-feira, acompanhado de dois advogados, e acabou liberado. No mesmo dia, a fotógrafa Isabela Tellerman Viana, de 23 anos, também confirmou a participação. O terceiro envolvido foi identificado, mas não havia sido localizado pela polícia até a noite de sexta-feira.

A policiais, França também confessou participar de outras pichações, como a que jogou tinta colorida no Monumento às Bandeiras e na estátua do Borba Gato, em 2016, e a que escreveu “Chora Doria” em um muro do Estádio do Pacaembu, em 2017.

O resultado é registrado em fotografias pelo próprio M. I. A. e exibido e vendido em galerias e feiras de arte da zona oeste de São Paulo. Por intermédio da Casa Jacarandá, localizada no Butantã, três imagens de autoria atribuída à M. I. A. são vendidas por R$ 2.250 cada no site internacional Artsy.

Dentre elas está uma pichação de “Fora Temer” sobre um dos acessos da antiga Estação Parada Paulista do Metrô e uma fotografia do Monumento às Bandeiras coberto de tinta. Procurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, o sócio da Casa Jacarandá José Brazuna não quis comentar o assunto.

Com o codinome M. I. A., França tem mais de 11,1 mil seguidores no Instagram, onde publica os bastidores de seus trabalhos e posa sempre com uma máscara de lobo. Muitas das postagens são acompanhadas das hashtags #chuvadetinta e #pesadelodosistema. Ele é conhecido por utilizar extintores de incêndio em suas ações, que duram poucos segundos.

Segundo o delegado do DPPC, Marcos Galli Casseb, França defende que suas intervenções têm viés “ideológico”. A investigação acredita, contudo, que os atos tenham motivações “mercantis”, por causa do alto valor de venda das fotografias pela internet.

Investigação

Diferentemente de França, Isabela confessou ter participado apenas do ato no Pátio do Colégio. Antes de ela excluir sua conta do Facebook, contudo, a reportagem encontrou duas postagens na qual afirmava ter pichado o muro do Pacaembu. “Mais uma madrugada animada ao lado do meu irmão da vida/papai das ações/parcerias nas produções MIA, bagunçando pela cidade”, escreveu.

No Pátio do Colégio, enquanto França manipulava o extintor de incêndio, Isabela filmava toda a ação. Além disso, ela registrou uma reunião do trio em uma residência, o momento em que preparam o extintor de incêndio em um posto de gasolina, a chegada deles de carro no centro, a caminhada até o Pátio e a fuga do local.

Em uma das gravações, cedidas pela polícia à reportagem, eles comentam sobre a presença de muitos moradores de rua no Pátio do Colégio. “Sair riscando por cima eu acho deselegante”, diz a garota.

No local, o grupo se sentou em meio aos moradores de rua até começar a pichação. Enquanto França pintava as paredes, o homem que não teve a identidade revelada se dirigia a quem era atingido pela tinta: “Desculpa aí, rapaziada, isso aqui é contra o sistema.”

O grupo foi identificado com base nas postagens de Isabela no Facebook. Segundo o delegado, como o ato é considerado um crime ambiental de natureza leve, a penalidade é de 6 meses a 1 ano de prisão, o que costuma ser revertido para prestação de serviços. A pichação também implica multa municipal de R$ 10 mil. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.